Fui atropelado, e daí?

Dizem que quando passamos por uma experiência de quase morte ou quando estamos para morrer nossa vida passa diante de nossos olhos em um segundo.

É claro que isso é uma enorme besteira. Mais uma das milhões de crendices populares que nos cercam, nos perseguem e que vão desde as crendices mais simples, como passar de baixo da escada faz mal ou chinelo virado mata mãe, até a maior de todas as crendices, a existência de um amiguinho imaginário coletivo.

Ontem passei pela tal experiência de risco de morte, pois fui atropelado.

E naqueles três segundos entre o impacto, a queda e a consciência de que estava a salvo, as únicas coisas que passaram pela minha cabeça foram: Um susto pelo impacto, a visão de estar voando por cima da bicicleta, um grito e o pensamento que viria um carro ou caminhão por trás que acabaria com o serviço.

Eu pedalava pela pista local da Marginal na altura do ceasa, sentido zona sul, quando simplesmente senti uma pancada por trás, voei por cima da bike e caí no meio da pista. O pensamento era de que um carro viria por trás, então, enquanto rolava, saltei para a calçada. Não vinha nenhum veículo atrás e deu tempo de tirar a bicicleta da rua. Olhei para frente e o motorista que me atropelou seguiu seu destino. Percebi que ele diminuiu a velocidade, mas em seguida foi embora sem prestar nenhum socorro. Deve ter visto pelo retrovisor que eu saí do meio da pista, talvez tenha pensado, “bom, está vivo, não precisa de mim”. Um grandessíssimo imbecil, como tantos outros que atropelam e não prestam socorro. O acidente (supondo que tenha sido um) pode ter algum motivo, distração, não me viu, sei lá o que mais… Mas não parar para ajudar é inadmissível.

Um outro motorista que passava perto e viu tudo parou mais a frente e voltou para me ajudar.

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Costumo dizer, inclusive num texto recente, que somos produtos sociais e históricos, mas preciso acrescentar que somos também frutos da aleatoriedade e determinados pela entropia.

Eis o ser humano, produto social, histórico, aleatório e degenerescente. Se estamos aqui, e vale para quem não está mais, trata-se de uma infinidade de escolhas que fazemos ao longo da vida que nos leva para cada momento específico. Estas escolhas são pessoais,  mas totalmente determinadas pelo ser social que somos, ou seja, escolho o que quero, mas baseado em toda a formação social que recebi e todas as oportunidades que a sociedade me oferece (ou deixa de oferecer).

É claro que o processo aleatório é no fundo estatístico. A escolha de pedalar pela via local da marginal me dá uma probabilidade de sobrevivência maior que pedalar pela via expressa e menor que não pedalar por canto nenhum. Mas a chance de termos dois carros seguidos naquele local era maior que a de não ter. Neste quesito fui agraciado pelo acaso.

De qualquer forma, todos nós caminhamos para a degenerescência (entropia) enquanto escapamos dos processos aleatórios que podem nos tirar de cena a qualquer momento.

Contudo uma sociedade diferente desta, que não fosse regida pela ferocidade, pela competição, pelo mérito, pela culpa e pelo prêmio, seria, automaticamente, mais justa, mais cooperativa, mais solidária, etc., sendo assim, vejo como culpado principal neste acontecimento, não o motorista, mas o sistema que o formou!

Quase posso ouvir daqui algumas pessoas indignadas lendo este texto e dizendo, “Você vai atribuir a culpa do seu acidente ao capitalismo???”

Sim!

Muitos motoristas não veem no ciclista um carro a menos na via dando inclusive mais espaço para ele. Ele vê uma competição pela via. ele vê um ser mais fraco (e com razão, afinal minha bike pesa 15 kg e um carro popular 1000 kg, lembrando do conceito físico de momento p = m.v, e perceberemos que é uma disputa desleal), Ele vê como um adversário. A lógica do sistema é do enfrentamento, do ódio, da oposição. Antes fosse um enfrentamento, um ódio, uma oposição revolucionária que visasse a mudança deste sistema maldito.

Escrevo este texto lembrando das tantas bicicletas brancas pregadas nas ruas de São Paulo em homenagem aos ciclistas mortos. Ao rapaz que perdeu o braço atropelado, àquele que perdeu a vida para o possante do Thor Batista e aos tantos anônimos que sequer foram registrados pela história.

O processo aleatório da vida é submetido ao processo social, em outras palavras, você não é um imbecil se se envolver num acidente, mas será um idiota completo se insistir em pisar o acelerador e ir embora.

Eu influencio seu filho e sua filha sim!

Escrevo este texto inspirado numa história que acabaram de me contar. Uma mãe de um aluno reclamou, veementemente, que o filho dela estava sendo influenciado por um professor com relação a ocupação de escola. Adivinhem só quem é o tal professor?

Cara mãe (pais, avós, tias etc), eu influencio seu filho e sua filha sim.

Mas não só eu…

Existe toda uma rede imperceptível de influências que os filhos e filhas de vocês estão submetidos.

Eu influencio seu filho e sua filha, mas o professor da sala ao lado também, a direção da escola que ele/ela estuda também, a ideologia da escola também, os amigos e amigas, a televisão que ele/ela assiste, os/as artistas que ele/ela gosta, os governos que nos comandam e, mais importante de todos, o sistema no qual vivemos, o capitalismo é a maior influência de todas.

No fundo o que temos aqui é a falsa ideia de neutralidade que o mundo tenta nos passar. Não existe neutralidade numa sociedade dividida em classes e todos e todas estarão defendendo um grupo, uma classe. O problema é que muitas pessoas se dizem neutras para defender suas ideias, mas esta forma de agir é inescrupulosa.

Pois é, eu influencio seu filho e sua filha sim. Influencio eles a lutarem por um mundo melhor, a não abaixarem a cabeça, a não aceitar os pequenos e grandes ditadores, eu influencio eles e elas a se indignarem contra as opressões e injustiças.

O que a senhora não está percebendo é que o professor da sala ao lado que diz que eles devem obedecer apenas, também está influenciando. A direção da escola que decide regras sem os consultar também está influenciando, a ideologia da escola, católica, evangélica, militar, conteudista etc., também está influenciando seu filhinho e sua filhinha, mas parece que isso não é tão importante né?

Vejamos. Eles influenciam seus filhos e filhas a obedecer sem reclamar. A abaixar a cabeça, a cumprir ordens sem questionar, dão notas arbitrárias, ensinam que a disciplina é sabia e que o individualismo é soberano. Dizem nas entrelinhas que eles/elas estão numa grande competição, ensinam a ser meritocráticos. No fundo estão criando seres dóceis para o sistema.

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E a Televisão? Será que sua filha e seu filho não estão sendo influenciados pela televisão que elas/eles assistem?

Olhe bem para ela/ele, que roupa estão usando? Que marca? Que palavras elas/eles usam? Que piadas fazem? Que gírias? Elas e eles (e nós!) somos produtos da sociedade, não temos como escapar disso. Eu seria um alienado ou hipócrita se acreditasse que não sou influenciado pela TV. Neste momento mesmo estou usando uma blusa vermelha com um simbolo do Star Trek, uma calça jeans e um tênis adidas. Isso é influência da mídia. Seu filho e sua filha não escapam disso.

A pior das influencias vem de um lugar “mais alto”, os governos burgueses criam leis, regras, implícitas e explícitas que nos influenciam o tempo todo. Sempre no sentido de manter e defender o sistema. manter o trabalhador passivo, manter a classe proletária alienada. Ou seja, com seu pensamento no outro (na tv, na igreja etc).

Para o capitalismo se manter, não basta que ele exista. Ele precisa criar meios de se auto reproduzir. O principal mecanismo de reprodução do sistema é a escola. Afinal os estudantes passam 12 anos, 10 meses por ano, 22 dias por mês dentro dela!!! Lá o sujeito é preparado para ser a peça que a maquina precisa. Lá ele vai aprender apertar parafuso como ninguém, mas não vai aprender a pensar (assista Tempos Modernos do Chaplin). Lá ele vai aprender a nunca se revoltar. De lá ele vai sair falando, “lutar pra que? Não adianta”, “Nada muda”, “O mundo é assim mesmo, paciência” e todo tipo de frase derrotista que se pode imaginar.

Pois é, eu influencio seu filho e sua filha, mas para algo diferente do que a maioria do sistema influencia. Eu seria pretensioso demais se achasse que vou mudar sozinho a cabeça de alguém. Não vou.

Mas não estou sozinho também, outras pessoas vão fazer o que faço, vão influenciar seus filhos também. Essas pessoas (que costumo chamar de camaradas) vão influenciar seus filhos para o mesmo caminho, o caminho da revolta. Sim, é um cabo de guerra e só futuro dirá que vai ganhar.

Caras mães e pais, se seus filhos e filhas estavam entre aqueles que começaram a concordar comigo e meus camaradas, eles/elas fazem parte de um grupo heroico de lutadores que:

  1. Impediram o governo de SP de fechar 94 escolas!!!
  2. Teve coragem de enfrentar o governador e as direções das escolas e derrubaram o secretario da educação!!!
  3. Salvou o emprego de milhares de professores e funcionários!!!
  4. INFLUENCIOU outros estudantes pelo país e pelo mundo (destaque para os estudantes de Goiás que estão lutando lá contra a privatização das escolas).

Se eu fosse mãe ou pai desses estudantes eu teria muito orgulho! E daria todo apoio para ele/ela seguir lutando por um mundo melhor!

Se eu fosse mãe ou pai de um estudante que não participou desta luta eu diria pra ele/ela não perder a próxima luta que está por vir.

Eu, produto da história (ou Um Cubas!)

Há mais de cem anos um de meus mestres andava pela rua que hoje passei com a cabeça infestada de pensamentos.

Estava andando a esmo quando percebi que estava perto da rua do Ouvidor, uma rua muitas vezes citada nos livros do Machado de Assis. Digo que é um dos meus mestres, pois foi nos livros dele que adquiri meu gosto por leitura. Depois dele outros tantos livros, historias, poesias, eu comecei escrever, depois outras curiosidades, os livros científicos e enfim meu interesse em cursar uma universidade, e isso mudou tudo. Para um pobre estudar é um ato de rebeldia e não posso desvincular isso do meu motor original, Machado de Assis.

Neste contexto, a rua do Ouvidor me causou grande comoção. Gosto de ficar imaginando as pessoas que já passaram por ali, todas as histórias (reais e fictícias) que se formaram naquele lugar. Bentinho já andou por lá. Brás Cubas se encontrou com Virgília depois de muita saudade. E hoje me senti mais um Cubas do que nunca.

Porém minha história naquela rua não tem tanto glamour. Estava rolando uma festa de carnaval fora de hora numa travessa do Ouvidor, rua Rio Branco. Até ai tudo bem, não fosse o fato da festa não ter sido planejada e não ter nenhum banheiro. Sendo assim, a rua mais vazia, que era justamente a do ouvidor, virou o banheiro ao ar livre dos gringos, principalmente. Em meio minhas reflexões profundas sobre o passado e a transformação da sociedade, eu tive que desviar de calças arriadas, saias levantadas e poças de xixi.

Nem isso tirou a beleza daquele lugar. Foi para mim quase que uma viagem ao passado, era possível ouvir o barulho do bonde que passava por ali e das carroças e cascos de cavalo nas pedras. Mas era possível também imaginar todo o sofrimento de um povo. Era possível imaginar naqueles anos as comemorações de alguns negros que acreditavam que a libertação chegara enfim para libertar. Mas não. Era só uma prisão diferente. A prisão da pobreza, a qual somos condenados até hoje.

Saí dali, virando a direita numa rua pequena e depois direita novamente encontrei uma igreja. Quando olho sua frente percebo que estou na Candelária.

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Como não relacionar estes dois pensamentos, estes dois lugares? Aqueles meninos que tombaram na Candelária em 1993 não passam de um produto de toda a história de exploração do capitalismo, desde o tempo em que a rua do Ouvidor era a mais movimentada do Rio de Janeiro.

Eles pagaram com a própria vida, um preço alto demais, por terem nascido pretos e pobres. Por ser a maior vítima que o capitalismo faz, mas que a visão imediatista que este mesmo sistema produz, faz parecer que eles é que são os culpados. Os desajustados. O problema.

Esses pensamentos todos, esses choques de realidade são importantes para lembrar quem somos de verdade. Independente do nome ou do numero do RG, não passamos de produtos da história!

Meu jeito de fazer turismo

Não acho que isso importa para muita gente, mas gosto de escrever mesmo assim para sistematizar as ideias.

Não gosto de passeios turísticos organizados, com roteiros prontos, com guias turísticos, etc.  Sei que existe toda uma área do conhecimento que estuda e organiza isso. Sei também que “perco” muita informação nesse meu jeito “estilo livre” de vagar pelas ruas das cidades e ir descobrindo as coisas.

Esse meu jeito já até rendeu brigas com uma ex por “Não estar aproveitando bem a cidade luz”.
Mas é sempre possível deixar um pouco da cidade para uma próxima visita, mesmo que não tenhamos certeza se essa visita vai acontecer.

Aqui no Rio de Janeiro, em minha décima visita mais ou menos, está sendo assim. Hoje saí com planos de conhecer o Museu do Amanhã e o Nacional. A decisão de como eu chegaria lá eu faria no meio do caminho.

Vagando pela cidade encontrei a rua São José que me lembrou algum livro. Qual será? Alguns prédios históricos nela. Decidi enveredar por ali sabendo que sairia do meu caminho. Um construção antiga me chamou atenção no fim da rua. Descobri, chegando lá, que era a estação de barcas para Niterói. A decisão foi instantânea. Um passeio de barco e ainda conhecer a cidade vizinha. Por que não?

E o museu do Amanhã?
Fica para amanhã.
(Quem sabe?)

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O meu ano novo foi assim…

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Enquanto luzes magníficas explodiam no céu clareando a noite e apagando momentaneamente as estrelas, no chão aconteciam um sem número de arrastões.

Engana-se quem pensa que isso foi o pior. O pior, na minha opinião, foi cada vez que a população (maioria branca) aplaudia a polícia militar pelas prisões (captura) dos meninos (todos pretos)…

2016 começou com cara de 1816.

Ano Novo?

Texto criado na virada de ano de 2009 para 2010, mas por eu considerar que permanece atual, fica valendo para este começo de 2016!
 

Chega essa época de festas nós ficamos tão envolvidos que normalmente nos esquecemos de coisas básicas como por exemplo, a superficialidade do conceito de Ano. Pois é, em algumas horas (aqui em Portugal) vamos mudar de ano, na Romênia, no entanto, já é 2010 e no Brasil só duas horas depois daqui. Contudo as pessoas comemoram com uma pontualidade inglesa (por sinal na Inglaterra já estão estourando champagne (será que fazem isso lá?)).


A contagem regressiva praticamente exige relógios atômicos, mas não lembramos que o ano novo no Rio de Janeiro deveria ser ligeiramente diferente do ano novo em São Paulo, afinal estas cidades não estão na mesma longitude do planeta!


A parte tudo isso e pensando um pouco na história, a ideia de ano mudou muito com o tempo, já teve apenas 10 meses (pense no nome do último mês do ano), nesta época o ano começava em Março.

Fisicamente nada muda, para tristeza das pessoas que fazem pedidos, prometem mudanças ou se fiam nas possibilidades que o novo ano inaugura, mas como eu disse, fisicamente nada muda, o que mede o ano, como sabemos, são as voltas que a Terra dá ao redor do Sol e não existe nenhuma marca em sua órbita que determina as contagens. E não pensemos que se assim é, ela já deu 2010 voltas ao redor do Sol, foi um pouco mais, na ordem de 4,5 bilhões de voltas!!!

Ok, sei que quem chegou na leitura até aqui deve estar me chamando de chato, provavelmente estão certos, mas o que disse até agora foi com relação a parte física do mundo. E como sabemos, nem só de física funciona o mundo (e nesta afirmação não vai nada de místico/espiritual)!

Sociológica e psicologicamente falando, muita coisa muda. É importante que exista esta transição, principalmente em nossa sociedade contemporânea, tão estafada, tão sobrecarregada. É a hora de tomar fôlego, de respirar bem fundo e dizer, “Vou continuar!” Ou “Vou mudar tudo!”, é um tempo de renovação e aqueles planos que falei a pouco, agora adquirem grande valor e força, precisamos dos ciclos para nos organizar, planejar e (principalmente) realizar.

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Neste momento, todos/as fecham os olhos por um momento e desejam que as coisas sejam melhores do que no ano que passou, nem precisamos lembrar que fizemos a mesma coisa há um ano e se lembrarmos não tem problema, uma função ontológica do ser humano é não desistir.

Então vamos lá, mais um ano, por mais superficial que seja essa definição, precisamos dela, precisamos nos organizar, nos reestruturar e continuar.

Ao sabermos desta fragilidade do conceito de ano e mesmo assim decidirmos comemorar a virada, estamos sendo sujeitos críticos, que analisa e decide criticamente. Não apenas por uma obrigação social ou religiosa. Este texto mesmo, que reciclo ano após ano, mostra isto. A cada ano que releio o texto percebo pequenas falhas ou mudanças de pensamento, mas sigo acreditando que é o nosso senso crítico que faz com que o próximo ano (2016) seja melhor.

Melhor?

Melhor dentro daquilo que é possível dentro do sistema. Afinal todos aqueles votos que damos e recebemos neste dia (saúde, paz, felicidade) não serão conquistados com o fim do ano e sim com o fim do capitalismo.

Sigamos lutando!

Feliz 2010!

(2011; 2012; 2013; 2014; 2015; 2016)

As lutas na educação em 2015

Ocupações, greves, piquetes, atos de rua etc., são manifestações típicas da classe operária que ao longo da história forjou suas conquistas com muita luta. Esses métodos foram incorporados por outros setores como as ocupações de prédios abandonados por moradores sem teto, as ocupações em universidades para pressionar as reitorias, as greves dos mais diversos setores, chegando ao absurdo do método ser usado pela direita em suas passeatas dominicais vestindo o verde e amarelo.

O ano de 2015 marcou a luta na área da educação para sempre, em São Paulo uma greve de 92 dias, a maior da história da categoria, com um aprofundamento dos métodos de luta pela classe, os professores de São Paulo trancaram avenidas e rodovias, obrigaram o governador, que no começo da greve ignorou e tratou com desdém, a assumir que existia um movimento forte e chamar para negociações. As reuniões foram furadas, não passaram de pró-forma e nenhuma proposta séria saiu daquelas mesas de reunião. Muitos professores foram iludidos pela promessa do dissídio que sairia em Julho (a data base é Março), pelo apelo a via judicial que a APEOESP e algumas correntes políticas conduzira, mas o motivo concreto do final da greve foi o corte de ponto e a ausência do salário, para uma classe que já amarga a pior folha de pagamento entre todos aqueles que possuem ensino superior, foram determinantes.

Um papel que deve ser apontado como responsável para derrota desta greve heroica que os professores de São Paulo encamparam, é o das direções. O Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), se manteve omisso, quando não jogou contra o movimento que poderia ser nacional, o exemplo concreto foi a chamada desta instituição para que os professores fossem trabalhar de preto num símbolo de luto pela educação. Mais de 10 estados do Brasil entraram e saíram de greve e o órgão que congrega os trabalhadores não moveu uma palha sequer para unificar os movimentos. A conquista desta greve então, foi no plano do desenvolvimento e elevação da consciência de classe. Da saída da greve de pijama no passado para realidade de assembleias massivas e atos de rua gigantescos com até 70 mil pessoas. Da elevação da consciência e do método que passou para os bloqueios de rodovias onde a produção é parada automaticamente.

No Paraná, no mês de Abril, o movimento grevista ainda contou com a mais brutal repressão que os professores já sofreram no estado. Um verdadeiro massacre, cenário de guerra em Curitiba. Mas de fato, é como uma guerra que os governos do PSDB têm tratado os embates na educação. Basta lembrarmos do áudio que vazou da reunião dos dirigentes de ensino de SP com o assessor do secretário, Padula, onde ele chama de guerra contra o movimento de ocupações de escola.

As ocupações de escolas

Toda esta efervescência de luta pelo país no primeiro semestre do ano foi a escola que os estudantes precisavam para organizar sua própria luta no final do ano. Esta é a verdadeira escola!

O governo do PSDB de SP não estava satisfeito em ter feito os professores saírem da greve sem uma conquista material, e, no segundo semestre, colocou na pauta do dia um projeto de reorganização das unidades escolares de SP. Neste projeto os estudantes seriam separados nas escolas por ciclos, escolas de ensino fundamental 1, escolas de ensino fundamental 2 e escolas de ensino médio. Nesta dança das cadeiras que os estudantes fariam trocando de escolas o governo “percebeu” que “sobrariam” 94 escolas, e que estas poderiam ser fechadas.

O tema foi pauta na discussão sindical dos professores, mas não existia condições concretas de se levantar outra greve no mesmo ano. Ainda levantamos a bandeira de “escola fechada escola ocupada!” em uma assembleia da APEOESP.

O que não estava muito claro é se os estudantes teriam condições de encampar esta luta. Afinal suas entidades encontram-se corrompidas por direções carreiristas e/ou oportunistas. UMES, UBES e até mesmo a UNE poderiam, caso tivessem trabalho de base, levantar os estudantes contra a bandeira de fechamento de escolas.

Neste vácuo deixado pelas entidades (pelas direções) surgiram grupos organizados que tocaram as primeiras ocupações. O grupo mais expressivo neste sentido foi O Mal Educado, que se dizia contra partidos, mas ele mesmo é uma entidade organizada tal como um partido. Eles apoiaram e organizaram as primeiras ocupações como na EE Diadema e EE Fernão Dias, entre outras. Em seguida as ocupações foram sendo feita pelos próprios estudantes das escolas e o número cresceu rapidamente.

A primeira escola ocupada, EE Diadema, aconteceu em 09/11. No dia 12/11 já eram 06 escolas ocupadas. Na semana seguinte mais de 50 escolas estavam sendo organizadas pelos estudantes. Em três semanas o número já chegava em 200 escolas por todo estado. O governador Geraldo Alckmin, que no primeiro instante ironizou dizendo que não aguentariam um final de semana sequer, teve que amargar a derrota ao ver sua popularidade chegar aos míseros 28 % no início de dezembro, a menor aprovação em mais de 10 anos de gestão em momentos alternados, segundo pesquisa do Datafolha.

A opinião pública foi determinante neste sentido. Os estudantes foram para as ruas, assimilaram os métodos corretos da classe proletária, ocupando e parando a produção pelo bloqueio das ruas e avenidas. Fizeram isso com maestria e a repressão cruel que se sucedeu obrigou mesmo a mídia burguesa a mostrar a violência policial. Estudantes sangraram na avenida Paulista, mas infelizmente sabemos que isso é fato corriqueiro nas periferias sem a mesma atenção da mídia comprada. Os atos centralizados mais importantes foram em 04/11 e 09/11, ambos com uma dura repressão, colocando a população do lado dos estudantes.

O projeto de Reorganização das escolas, que afetaria mais de 300 mil estudantes, estava oficializado apenas no discurso do governador e no decreto (61.672) que transferia os funcionários das unidades que seriam fechadas. Em 05/12 o governo é obrigado a recuar e publicar em diário oficial a revogação do decreto de transferência (61.692). Uma vitória dos estudantes. As escolas não serão fechadas em 2016.

Não devemos ter ilusões com as intenções do governo burguês do PSDB, este projeto vai voltar para 2017, talvez com a mesma cara, talvez como uma aparência diferente, mas a verdadeira intenção deve estar clara. O motivo é econômico e não passa nem perto de ser pedagógico como dizia o governador e o secretário Herman, que aliás caiu junto com o decreto. Outra vitória dos estudantes.

O projeto é parte de algo muito maior. O enxugamento da educação pública para em seguida passar para a iniciativa privada. Modelo aplicado em alguns países como os EUA, onde já vem recebendo críticas há muitos anos.

A luta em Goiás

O estado de Goiás, também sob o comando do PSDB na figura de Marconi Perillo, foi além e nem passou pela “etapa” da reorganização. Decidiu entregar as escolas do estado para as Organizações Sociais (OSs), além daquelas que já foram entregues para a gestão da Policia Militar.

Isto significa que a gestão da escola seria feita pela iniciativa privada. Os dados referentes aos países onde este modelo foi aplicado mostram que as escolas se tornaram grandes centros de preparação para testes onde a educação é ranqueada. As escolas passam a competir entre si, o foco passa a ser as linguagens oral/escrita e matemática, já que estas linguagens são testadas nos exames. Pesquisas nestes países também indicam que estas escolas realizam filtros sociais e étnicos para um “melhor” desempenho nos exames.

Já a entrega para a polícia militar que já acontece há um certo tempo, amplia a diciplinarização como método para melhorar o aprendizado. Usa da homogeneidade (roupas iguais, cabelo igual, material igual) e a repressão dura para qualquer estudante que fuja da normal.

O exemplo dos estudantes de São Paulo, dos professores de vários estados e mesmo dos grandes movimentos que ocorrem no país desde 2013, podem ter sido motores para os estudantes de Goiás se levantarem e dizer NÃO para a privatização da educação no estado.

A escola José Carlos Almeida (JCA), em Goiânia, foi a primeira a ser ocupada. Ela já estava sem atividades escolares há um ano, sob a justificativa de reformas, mas isso não impediu que os estudantes se organizassem com o apoio de universitários para ocupar a escola. Em seguida foi o Liceu de Goiânia, uma escola central, centenária e referência do estado. Na sequência as ocupações se espalharam pelas cidades de Goiânia (12), Anápolis (7), São Luis de Montes Belos (1), Aparecida de Goiânia (3) e Cidade de Goiás (1), totalizando 24 ocupações até o momento.

O quadro atual das ocupações de Goiás é de descaso do governo, afinal estamos em período de férias e Perillo conta que os estudantes não resistam até o início do ano letivo. Este descaso vem da ausência de declarações do governador na mídia. Contudo o descaso não acontece no âmbito repressivo. As escolas periféricas têm sofrido pressão. A escola Cecília Meireles na periferia de Goiânia tem sofrido ataques anônimos com certa frequência, na noite do dia 28 de dezembro quatro bombas foram lançadas dentro do colégio. Já escolas centrais recebem a repressão psicológica, com carros de polícia que passam todos os dias lentamente na frente da escola. Situação muito similar aconteceu em SP. As escolas centrais não sofreram repressão direta, já escolas periféricas como a EE Salvador Aliende (Zona Leste), EE José Lins do Rego (Zona Sul), EE Prof. Antonio Firmino de Proença (Mooca), Coronel Antonio Paiva Sampaio e Francisca Lisboa Peralta (Osasco), entre outras sofreram ação direta da polícia militar com violência e prisão de estudantes e professores e infiltrados que depredaram as escolas para colocar a responsabilidade no movimento.

Os próximos passos

Em São Paulo o recuo do governador e a queda do secretário fez com que as escolas começassem a ser desocupadas, contudo algumas escolas se mantiveram ocupadas e transformaram suas pautas para aproveitar o momento. Isso provocou uma divisão no movimento. O comando das escolas ocupadas ficou rachado entre aqueles que queriam a desocupação e aqueles que queriam manter. As escolas ficaram sem uma direção e a crise de direção se manifestou outra vez neste movimento. O que ocorreu foram as decisões isoladas em ficar ou sair. A maior parte das escolas foram desocupadas. Hoje menos de 50 escolas permanecem ocupadas com novas reivindicações como a não punição dos envolvidos nas ocupações, pautas estruturais locais e algumas escolas que se colocaram abertamente contra os diretores. Em Campinas, a EE Carlos Gomes conseguiu uma vitória neste sentido com o afastamento da Diretora Mirian Shimizu, outras escolas como a EE Anhanguera, na Lapa, estão com esta mesma pauta contra uma direção autoritária.

É importante neste momento perceber que este movimento foi vitorioso em sua luta, fez o governo recuar. Porém com a diminuição das escolas ocupadas precisará se organizar de outras formas. A principal forma de organização dos estudantes no retorno as aulas em 2016 é a formação de grêmios de luta. Grêmios independentes da gestão que possam levantar as reais bandeiras dos estudantes das escolas. Inclusive lutar para que as suas instituições representativas saiam das mãos de oportunistas e carreiristas. A elevação da consciência política dos alunos e alunas deste movimento foi sua maior conquista sem dúvida e isso não poderá se perder. Mas para isso precisa de uma direção realmente revolucionária que não vai desviar o foco da luta para questões eleitorais ou que se limitem ao âmbito da democracia burguesa.

Um viva aos estudantes que aprenderam, lutaram e nos ensinaram a não desistir.

Ou como diz a palavra de ordem: Ocupar e Resistir!