Escolas que Sempre Sonhei (Escola da Ponte e Amorim Lima)

Na chegada, um portão aberto convidando à entrar.

Ao entrar no grande salão, uma reunião? um debate? Não, uma pequena assembleia. Alunos de 10, 11 anos deliberando sobre os problemas da escola, em um preparativo para a grande assembleia que haveria mais tarde. Foram essas minhas primeiras impressões na Escola da Ponte, em Portugal, deste lado do oceano. Do outro lado do oceano, alunos correm no que um estranho pensaria logo em desordem, em bagunça, mas logo se organizam, alguns grupos vão para o grande salão, outros para salas específicas. Uma oficina vai começar.

Deste lado do Atlântico, na Escola da Ponte (1), vejo o fim das deliberações e o início do trabalho, sim, é assim que os alunos falam dos estudos. Também em pequenos grupos escolhem em um mural, temas que desejam conhecer, as estantes com livros lhes dão suporte, computadores disponíveis também.

Alunos na oficina de Astronomia

Do outro lado do Atlântico a oficina é de Astronomia, pessoas que conhecem um pouco do assunto ganham o espaço e o tempo da escola para compartilhar com os alunos. Compartilhar, poderíamos ficar por aqui um bom tempo, a definir esta palavra, mas me prendo nas ideias de Paulo Freire sobre as Palavras Geradoras (2), aquelas dotadas de potencial para mudar o Mundo, se bem que ele me corrigiria e diria que palavras não mudam o Mundo, a educação não muda o Mundo, palavras e a educação mudam Pessoas e Pessoas mudam o Mundo. Compartilhar é com certeza uma palavra geradora. Em ambos os lados do oceano essa palavra faz parte do dia-a-dia dessas escolas.

Nesta escola, no Brasil, Escola Amorim Lima (3), uma menina corre pois vai começar uma aula, aula de cultura, qual o melhor lugar para se realizar uma conversar sobre cultura? Essa é fácil, na Oca que existe no quintal da escola. (!!!)

Ainda do lado de lá do Atlântico, no Brasil, uma outra escola, Escola Lumiar (4) – que também gosta de usar a palavra compartilhar – tem suas crianças em um grande salão com os tijolos a vista, não foi falta de dinheiro para rebocar, pintar, etc, é para mostrar que algo não está completo. Nada está. Para Paulo Freire (2005: 50), “Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente.” (5)

Alunos do primeiro ciclo jogando no intervalo

É hora do intervalo na Escola da Ponte, vejo uma miúda pegar um tabuleiro e um bocado de peças que estão disponíveis no pátio, coloca tudo na mesa e começa a arrumar, o peão vai aqui, o cavalo vai ali, a Rainha acolá… Um rapazito da mesma idade (uns 6 ou 7 anos!!) chega e começam a jogar. Não julguem meu espantamento, mas não era uma aula ou oficina, era intervalo e eles simplesmente quiseram jogar.

É chegada a hora da assembleia, todos os alunos da escola (na ordem de 200) se reúnem num espaço e debatem, por eles mesmos, propostas para a escola, a primeira proposta: Podemos ter uma animal de estimação na escola? Desta vez o debate foi intenso, não chegaram à uma solução. Para mim não importa. O exercício de cidadania envolvido está para além do problema específico.

Para além mar, o dia faz-se noite, os alunos observam algumas pessoas que trazem, nos braços, para dentro da escola, objectos grandes, seriam instrumentos? seria um show de música? Os objectos são levados para a quadra da escola e montados, os alunos já percebem o que são e já fazem fila para olhar, pela primeira vez, em um telescópio. A euforia é imensa.

Não podemos ser ingénuos e imaginar que tudo são flores. Para além dos tijolos a vista da escola e dentro dos tijolos a vista das casas o Real se torna mais palpável. Como diz a poesia, “Para o mundo ser mais perfeito, tenho que ser alheio a isso e tudo. Não pensar na fome dentro das paredes de tijolo a vista, não pensar nas crianças, nem nas mudas nem nas telepáticas”(6). Mas como sabemos o mundo não é perfeito. Estas escolas também enfrentam problemas diversos, como a crença ingénua que elas podem resolver todos os problemas sociais, a ideia que elas podem abrigar todas as crianças com problemas, trabalhar na escola o que é diariamente reafirmado no contrário em casa por alguns pais ou no caso da escola do Brasil que não pode ter como cá período integral para os pequenos, já que contam com um número muito maior de crianças.

Não, elas não são perfeitas, mas mesmo assim eu reafirmo, assim com Rubem Alves (7), são escolas que eu sempre sonhei sem imaginar que pudessem existir (e eu particularmente posso dizer com conhecimento de causa, já que estudei em 10 escolas diferentes).

A observação do céu acabou, a roda de poesia acabou, a pizza acabou, acabou mais um acantonamento na escola Amorim.(8)

Crianças já é tarde…É hora de dormir.

Mas onde?

Na escola, por que não?!

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Referências

(1) http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt ou http://escoladaponte.blogspot.com

(2) FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, RJ. Paz e Terra, 2005.

(3) http://www.amorimlima.org.br/tiki-index.php

(4) http://elisakerr.wordpress.com/concepcao-de-aprendizagem-de-carl-rogers

(5) FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, RJ. Paz e Terra, 2005.

(6) https://mundodeoz.wordpress.com/contos/se-a-vida-fosse-so-isso

(7) ALVES, Rubem. A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Campinas, SP: Papirus, 2000.

(8) http://sputnikers.blogspot.com/2008/09/acantonamento-da-escola-amorim-lima.html

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