AVATAR e a Colonização

Acabei de chegar da estreia do filme AVATAR de James Cameron um filme que segundo notícias da internet tem o potencial de mudar os rumos da industria cinematográfica mundial. Um filme que está com a simples marca de “O filme mais caro do cinema”, vindo do mesmo produtor de Titanic não será nenhuma surpresa se tudo isso for verdade.

Fiquei pensando muito no que escrever sobre o filme…

Poderia falar da beleza que ele trás, de uma certa sensibilidade tocante nas relações de poder e família, poderia também ser mais chato e falar dos problemas do filme, como por ex., num planeta qualquer do universo, num tempo qualquer, os seres demonstrarem seus sentimentos por beijos românticos como humanos, ou mesmo dos corpos humanóides, ou os animais classicamente inspirados nos nossos acrescidos de duas patas ou um cavalo com cara de tamanduá.

Poderiamos até falar de relações entre machismo, feminismo ou homofobia no cinema, a incidência do mito do herói sendo este herói sempre um homem ou na ideia lançada sutilmente de que um homem deve sempre procurar uma mulher para não ferir a natureza. Eu poderia também dizer que agora Newton e Darwin estão revirando nos seus respectivos caixões, mas eu estaria sendo mais cômico do que quero ser.

cena do filme Avatar
cena do filme Avatar

O autor tem uma veia ambientalista e isso declarado por ele mesmo, que diz querer colocar uma flor em cada cano de arma que existe, então percebemos claramente no filme a ligação dos habitantes do planeta Pandora com a natureza local (Neste ponto eu chegaria a ousadia de dar uma sugestão ao James, que poderia colocar o acasalamento dos Pandorianos pela união daqueles fios essenciais que eles possuem entre as tranças). Essa ideia de conexão, de rede foi mesmo muito bem trabalhada. Num trecho a personagem principal coloca em causa a ideia de vida e morte e diz que a energia está somente emprestada, uma hora teremos que devolver, isso para mim é como juntar física e poesia.

Poderia falar da maravilhosa tecnologia, os belíssimos efeitos especiais que visto em 3D principalmente, impressionam. Não. Não quero falar de nada disso, até por que aparecerão outros chatos, cômicos e sérios para fazer esses papéis. Mas quero falar do simples, que pode ser muito complexo dependendo da análise, que é aquilo que me chamou a atenção durante o filme.

Eu fico imaginando como seria para um certo povo ver chegando no seu planeta, não, vamos mudar, como seria para um certo povo, ver chegando no seu Mundo outro tipo de Ser? Mais avançado tecnologicamente? Um povo que chega para destruir seu Mundo, um povo que só tem interesse em algum bem material advindo de uma riqueza natural. Acham que ainda estou falando de Avatar não é? Não estou. Já estamos a algumas linhas em outro assunto e se não fosse o título do Post isso passaria totalmente despercebido.

Como é difícil de imaginar essa situação que acabei de descrever. Fico tentando e não consigo. Como foi para meus antepassados, olhar para o mar e ver caravelas enormes chegando? Como foi ver pela primeira vez aquele povo de pele estranha, clara, diferente, com tecidos por todo o corpo, invadindo o Mundo deles? Imaginem o choque, a perplexidade. Como foi ouvir pela primeira vez o som de Tiro?

Em Avatar, podemos apenas aventar (desculpem o trocadilho) essa perplexidade.

Ainda pelas linhas cinematográficas, no filme 300 de Zack Snyder, que foi inspirado na história em quadrinhos homônima de Frank Miller, que por sua vez foi inspirado na lenda, que por sua vez foi inspirada na realidade (?), podemos perceber uma situação semelhante, quando o narrador diz que eles foram incessantemente atacados por Monstros Enormes e Seres Bizarros, que outro nome poderíamos dar, ao ver pela primeira vez um Rinoceronte ou um Elefante?

colonizaçãoQuisera eu que meus antepassados fossem inspirados numa história de James Cameron, por que assim eles teriam expulsado os invasores europeus da nossa terra, do que hoje chamamos de América, teriam vencido a guerra. Mas na vida real não se vence a pólvora com arco e flecha.

Quisera eu, assim como Oswald de Andrade, que os europeus tivessem chegado num dia de calor, por que seriam eles a tirar a roupa. Mas não, na vida real, eles chegaram num dia de chuva e os índios tiveram que cobrir o corpo.

Eu continuo tentando e ainda não consigo me colocar no lugar desse meu “tata(…)tataravô” e imaginar seu mundo sendo invadido, sendo tomado, por estes seres estranhos.

Quem for assistir o filme AVATAR vai ouvir uma frase diversas vezes, como uma espécie de bordão: “Uma hora temos que acordar!”, eu acrescentaria: “Mesmo que seja tarde!”

13 Comments

  1. Gostei muito da sua reflexão. Analogia interessante, na verdade vendo o filme eu não tinha pensado nesses aspectos, mas agora estou com o pensamento nisso.
    Parabéns.

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  2. Muito interessantes suas reflexões.

    Há muitos anos, quando assisti filmes como: A missão (que retrata o choque de culturas na América do Sul do século XVII) ou ainda, Blade Runner (que trata da colonização em termos de Ficção Científica) também me defrontei com questionamentos sobre o “estranhamento” que o choque cultural produz.

    Costumamos idealizar o nativo (ou indígena) como o puro, aquele que não agride o meio ambiente.
    Em contraposição, nos deparamos com o explorador, que é visto como o detentor de tecnologia, e aliado a isso, parece sempre priorizar interesses mercantis, bastante devastadores.
    Essa fórmula de colonização me parece a única que conhecemos (tanto em termos históricos, quanto na Ficção Científica).
    Será que algum dia, poderemos, pelo menos na Ficção, vislumbrar outras possibilidades de contato?

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  3. O Último dos moicanos com smurfs anabolizados, só isso. James Cameron dedicou mais de dez anos ao filme, e pelo visto, deste total, nem um ano foi concentrado no roteiro. Um filme belíssimo visualmente, mas que possui conteúdo requentado, visto a exaustão em qualquer filme de sessão da tarde.

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  4. Como disse o Michel, eu não havia pensado em analogias desse tipo. Enquanto assistia o filme, somente pensei num mundo que está aquém da nossa realidade. Mas, como você mesmo relatou, aconteceu aqui em nossas terras há mais de 500 anos, ou seja, não há nenhuma questão futurista nisso. Parabéns pela reflexão.

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  5. Oi Osvaldo,

    legal o seu texto! Até porque eu não vi o filme como um ‘Salve a Natureza!’, mas sim a busca por uma qualidade de vida melhor do que estava vivendo.

    Beijo,

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  6. Dinho,

    Vi o filme duas vezes,uma antes,e uma após ler o seu testemunhal. Posso acrescentar que os “Avatares”tem o pomo de Adão,isso me fez lembrar de você,e de seus momentos de revolta com coisas sem explicação..rs…
    Sua reflexão é ótima,o que me faz pensar em como temos sorte e azar ao mesmo tempo.

    Sorte,pois nascemos em um momento da estadia humana no universo,em que podemos imaginar o inimaginável(quando as caravelas surgiram na ponta do mar,não davam “margem”para nossos antepassados imaginarem “beija flores” de metal,”baleias” que deslizam em cima d’água com dezenas de metros,ou cavalos com rodas…)nos sim,temos o privilegio de voar conectados a rede web pelo mundo e para fora dele,mesmo não sendo via weia damos nosso jeito.

    O azar vem pelo tempo limitado que temos aqui,seja o nosso propriamente dito,ou da nossa especie. Terremostos que matam 100 mil,chuvas que matam centenas em segundos,vulcões,tsunamis…isso não tem fim,não tem mais solução.Isso é a natureza(te lembra algo do filme?)fazendo o possível para a Terra sobreviver…

    O filme tem tanta beleza que a reflexão é mais fácil após alguns dias,quando as imagens se perdem um pouco,mas no meu ponto de vista,a maior “mensagem”do filme,é uma mensagem atrasada demais…

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    1. Muito bom seu comentário Klauber… A questão é justamente essa e tbm sempre penso nessa sorte/azar que temos. As vezes penso q viver nessa época é um privilégio. Mas tbm podemos pensar que quando não se tem algo não se sente falta. Tbm concordo q só depois de uns dias é que dá pra pensar melhor.. Eu escrevi isso logo depois pq esse ponto me chamou a atenção… Mas conforme os dias passaram outras questões surgiram.
      Abraços..

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  7. Olá Osvaldo.

    O tema da colonização é um tema caro a mim, cheguei a pesquisá-lo como problema da minha monografia. Creio, entretanto, que a questão seja mais sutil do que a invasão de um povo e a violência armada, dado o cenário contemporâneo tão permeado de tensões que vivenciamos.

    Quero trazer, de início, um efeito decorrente da configuração atual de nossa sociedade. Trata-se da globalização, da homogeneização das vidas. Além da discussão sobre o consumo, que se tornou o imperativo da vida contemporânea por todo o globo terrestre, podemos trazer à baila nessa discussão os pressupostos mais arraigados na sociedade ocidental que acabam por passar intocados por nossas análises do presente. Aqui me refiro ás ciências.

    Temos como um legado da modernidade a confiança no progresso do conhecimento, mais especificamente no progresso das ciências. Estamos acostumados a não destronar as ciências dessa vanguarda e efeitos decorrentes da ocupação desse lugar específico podem nos passar desapercebidos. Um desses efeitos, no mundo contemporâneo, seria a redução de todas as experiências humanas em termos de modelos explicativos precisos – modelos científicos. Caso a experiência não atravesse o crivo do controle e da precisão, tão caros ao mundo ocidental europeu branco nascidos na Revolução Francesa, ela corre o risco de ser desqualificada como misticismo, superstição, costume, cultura. Talvez estejamos muito próximos de um contexto de colonização sendo concretizada justamente pelo conhecimento ao qual atribuímos a qualidade do progresso. Talvez a desconfiança do progresso possa nos ajudar a afinar nossos questionamentos… Sempre talvez.

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