Da Dogmatização à Desdogmatização da Ciência Moderna – Parte III

Onde paramos mesmo?

Ah, sim! Em um conflito entre a ciência e a ação social sobre ela. Está é a Ciência Moderna, aquela que conhecemos, que é estereotipada pela física, mas que também é química, biologia, ciências sociais e outras, as ciências humanas não estão imunes aos critérios de objetividade e neutralidade que se propõe à ciência moderna, de fato, elas se aproximaram muitos das ciências naturais quando quiseram obter seu status social, mas estas, ciências humanas, com toda sua dificuldade em ser ciências como as outras, também tiveram mais facilidades em sair (ou tentar) sair deste foco, e pela filosofia, epistemologia e sociologia de grandes autores vamos reconhecer o nascimento do que chamam hoje ciência pós-moderna, embora este termo ainda tenha definições muito vagas. Para já, podemos saber que possui ligações com o pós-modernismo e pós-estruturalismo. (confesso que esses “pós” dificultam uma visão clara)

Muito da ciência que conhecemos hoje é aquela que chamei até agora de ciência moderna, principalmente aquela que grande parte das pessoas acha que conhece, isto é a ciência moderna, aquela que continua, ingenuamente, achar que é neutra e que supõe possuir uma objetividade clara e definida.

Como falamos antes o apogeu da dogmatização da ciência moderna foi no final do século 19, com o positivismo lógico do Círculo de Viena. Nesta abordagem a ciência é uma forma privilegiada (senão a única possível) de conhecimento sobre o mundo.

Esta dogmatização teve “apoio” a contrario no fracasso de Husserl em fundar uma epistemologia transcendental e nos sucessos de Nietzsche e Schopenhauer ao anunciarem a morte da metafísica. Como na maioria dos processos sociais, após um auge segue-se um declínio, BSS propõe que este declínio continua até hoje.

Alguns pontos marcantes deste declínio podem ser citados aqui, como partindo do próprio Circulo de Viena, na crítica às proposições elementares na fundação dos conhecimentos universais (indutivismo) ou com Popper e seu falsificacionismo, a dificuldade de encontrar as bases fundamentais da ciência, nas dificuldades de enquadramento (conceitualização e método) dos processos científicos da virada do século 19 para o 20, tendo este processo sido descrito pelos próprios cientistas como, Mach, Einstein, Bohr, Poincaré e outros além do apoio filosófico e epistemológico de nomes como o de Koyré, Bachelard, Kuhn ou Feyerabend (que embora difiram muito em suas filosofias específicas, como já foi dito, tentam dotar a ciência da filosofia que ela merece). A análise da maioria destes nomes citados se ocupou dos procesos psicológicos dos cientistas na produção do conhecimento, dos mecanismos sociais envolvidos, ou seja, num processo de humanização que era alheio a análise da ciência moderna. Outro ponto como sinal de declínio da ciência moderna vem de um ramo mais filosófico, tendo seus representantes principais Heidegger e Dewey (aparecendo de alguma forma em Habermas, Gadamer e Rorty ) em defesa do papel histórico do homem no mundo e sua relação com a ciência, (embora como nos nomes anteriores eles difiram entre si na abordagem, Heidegger alemão, simpatizante do nazismo e pessimista e Dewey, americano, democrata e otimista) o que possuem em comum é que ambos desdenham os fundamentos últimos da ciência e ambos avaliam a ciência em função do seu papel na constituição da construção do projeto de vida em sociedade. Para o primeiro a ciência como degradação e redução à sua instrumentalidade e para o segundo ela com valor por sua capacidade de imaginação e criatividade que deveria ser também apoiada no plano político. Diante de todas questões levantadas ao longo dos últimos séculos e por múltiplos argumentos destituindo a ciência de seu posto (que é quase um altar) ao menos no sentido de conhecimento do mundo preferencial ou pela postura da maioria dos cientistas do passado (e alguns do presente) distanciados da filosofia, sequer aproximados da filosofia da ciência, procedendo por múltiplas aproximações, por desvios, soluções ad hoc, para resolver os problemas do seu trabalho, é que a ciência moderna nos é apresentada hoje.

Em contrapartida uma espécie de ser mítico vai se formando nas sombras, nas falhas do projeto teórico anterior, deram-lhe o nome de pós-moderno, mas ainda é difícil de lhe ver a face.


Referências

CHALMERS, Alan F., O que é Ciência Afinal? Editora Brasiliense. 1993.

SANTOS, B. S. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna, Edições Afrontamento, 1989, Porto.

https://mundodeoz.wordpress.com/epistemologia/paradigmas

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1 comentário

  1. Não acho que a Física (ou a Química) estereotipe a ciência, talvez alguns físicos ou químicos tenham ainda uma visão positivista do assunto da objetividade per se, e não como a ciência pranteia o problema hoje, em virtude da inter-subjetividade. Na realidade, como no outro artigo (acho que o parte I) pranteava o Ale, a ciência como produto humano tem todas as virtudes, fraquezas e defeitos que seu criador, ou seja a ciência é um objeto a “imagem e semelhança do criador”, e em muitos casos do produtor ($$).
    Talvez o que acontece que em muitos casos o produto do cientista é julgado com olhos mercantilistas, e visto como algo que é produzido e avaliado em virtude do resultado “estatisticamente válido”. Faz algum tempo, teve a oportunidade de conhecer a um excelente pós-graduando de Física que estava trabalhando em mecânica muscular, e tinha escolhido um tema (bastante popular em Uruguai) como era a discussão de que tanto poderiam correr os dinossauros. Para defender seu estudo e indicar que era um problema físico, o futuro jovem doutor caiu numa frase que a maioria dos defensores mal queria: “mas eu fiz um monte de contas e tenho modelos matemáticos para provar que isso é um estudo cientifico”, usando como único argumento para a validez o fato de um estúdio numerológico.
    Parece que todo o que tiver números, funções complexas ou esteja analisado muitas vezes receberia a santificação da matemática e a validez estatística. E parece assim que a matemática e a estatística logram colocar um manto de neutralidade e pureza sobre o descobrimento ou o estudo. Mas voltando aos dinossauros… esse problema surgiu quando alguém nos EEUU tentou levantar um processo contra a cientificidade do filme de Spilberg. Algo que pessoalmente considero ridículo pelo fato de que filme é filme, ou talvez algum dia alguém tente levantar processo conta a Disney porque os ratos não falam?
    Cada vez que há dinheiro envolvido sempre há um momento em que a ciência ou algum cientista é convocado a resolver o problema segundo o interesse do inversor; isso está acontecendo agora que inúmeras indústrias mineiras estão contratando milhares de engenheiros, químicos e meteorologistas para mostrarem que o aquecimento global é um processo periódico do planeta e que as emissões de CO2 mesmo parando não ajudariam em nada. Pensar que a ciência é tão imaculada como a virgem Maria só serve para o interesse de uns poucos. Mas graças a que (mesmo às vezes sendo pouco e criticado) as pessoas têm algum conhecimento secundário de ciências da natureza, nem sempre as pessoas estão dispostas a engolir a pílula. Mas no caso das ciências sociais a formação geral é bem mais fraca, e por tanto é mais fácil enganar as pessoas nessa área. E as políticas de ensino na América latina são a prova mais fatível disso.

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