Da Dogmatização à Desdogmatização da Ciência Moderna – Parte II

Continuando a conversa…

Boaventura de Sousa Santos para fazer uma discussão mais acurada desta dogmatização e Dogmatização precisa antes de uma boa definição da epistemologia e seu papel neste processo. Ele elenca diversas definições de epistemologia, vindas de Piaget, Morin, Bachelard e muitos outros, para nos mostrar o quão duvidosa (e as vezes contraditória) esta definição pode ser, tanto em função de seu objeto de estudos como em função do seu lugar nos saberes.

Uma que quero ressaltar aqui vem de Bachelard, a epistemologia é a filosofia que a ciência merece, uma filosofia da ciência, que é não-filosófica, ou seja, é uma filosofia que se aplica, não é de especulação.

Nos seus objetos a epistemologia tem duas vertentes o estudo das normaticidades e critérios formais da cientificidade e a Facticidade da prática científica

Aí vem um exemplo, segundo Armando Castro a epistemologia tem critérios epistemológicos de científicidade próprios, tem autonomia, desta forma as condições sociais em que se produz o conhecimento são “corpos estranhos do saber teórico” embora o atinja de alguma forma. Uma frase provocativa que se poderia colocar é: “A Ciência avança (não quer dizer progride) para a sociedade, contra a sociedade e apesar da sociedade”.

E por outro lado segundo Ferreira de Almeida e Madureira Pinto: As condições sociais de produção teórica são determinantes dessa produção e pertencem por inteiro a intervenção epistemológica.

Ainda sobre este assunto, conversamos no nosso grupo de discussões filosóficas (?) o Tucumãs, sobre essa abordagem e o que se segue disso, nomeadamente, uma dicotomia entre a influência social na ciência e a neutralidade/imunidade desta. Algumas opiniões são interessantes de se ressaltar aqui.

Segundo Alexandre Bagdonas, certamente há influencias culturais, sociais, políticas, subjetivas etc… sobre a prática científica. a briga entre os filósofos e historiadores é o quanto essa influencia é importante.

Levantei a questão sobre o investimento em teorias que podem passar longe dos contextos sociais comuns, como por ex., a Teoria das Cordas, ao que respondeu:

Elas são financiadas por que os caras que decidem para onde mandar a “grana” acreditam que os cientistas que estudam isso são os seres mais inteligentes da Terra, como o Stephen Hawking, por exemplo… eles não tem a mínima ideia do que seja essa teoria mas acham que tem algo a ver com o Big Bang e a origem do universo, e acham que talvez um dia isso sirva para fazer algo consumível… aliás teoria das cordas já rendeu muito dinheiro em livros de divulgação, programas de tevê, etc..

Podemos perceber que este assunto embora pareça a primeira vista, não é nem um pouco trivial, cada vez mais podemos ver a influência social dentro dos contextos científicos e é apenas uma impressão pensar que ela não existia antes e só agora se mostra verdade, ela sempre existiu, a ciência sempre foi feita por seres humanos (ao menos neste planeta), o que podemos pensar é que agora com um número maior de estudos isso se torne mais claro.

Ainda é bastante comum a chamada visão empírico-indutivista da ciência, segundo a qual a ciência seria neutra, universal e racional, uma vez que o conhecimento científico é provado objetivamente. Contudo, atualmente se reconhece que a ciência é uma atividade humana, e que as características dos cientistas, tais como sexo, idade, ideais políticos, etnia, etc. podem influenciar como estes enfatizam certas evidências ou interpretam os dados experimentais. Ou seja, interesses particulares têm influência sobre a prática científica (Chalmers 1995).

Voltando ao nosso grupo de discussão Bruno L´Astorina acrescentou:

Eu começaria uma resposta trazendo aquela coisa do Morin de sistemas complexos e propriedades emergentes. O que eu diria é o seguinte: a ciência, como um produto de grupos humanos, obviamente depende desses grupos, mas essa dependência é complexa no sentido do Morin, significando que ela possui uma dinâmica própria. Alem disso, vale a pena também, no estudo da historia da ciência, analisar a interacão dessa ciência com outras atividades humanas que também possuem dinâmica própria; e é por meio dessas interações que a sociedade age sobre a produção da ciência.

No exemplo citado, dos financiamentos e tal, há uma interação entre os cientistas e os políticos (o grupo de pessoas que existe para representar o todo da populacao mas que tambem funciona com uma dinâmica em certa medida independente da populacao). Como os políticos sao os responsaveis por administrar o dinheiro da populacão, e os cientistas sao sustentados por esse dinheiro, é nessa dinamica que se decide quais áreas têm sustento e quais não têm.

Essa relação dinâmica e dialética entre ciência e política que o Bruno levantou é facilmente perceptível dentro dos institutos, nas Universidades.

Continua… (Não percam os próximos capítulos)

Referências

CHALMERS, Alan F., O que é Ciência Afinal? Editora Brasiliense. 1993.

SANTOS, B. S. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna, Edições Afrontamento, 1989, Porto.

(1) https://mundodeoz.wordpress.com/epistemologia/paradigmas

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