Xadrez: O papel da prática e idade de início

Fernand Gobet e Guillermo Campitelli da Universidade de Brunel, na Inglaterra, ambos professores de psicologia e enxadristas (para os brasileiros) e xadrezistas (para os portugueses), escreveram um artigo em que trabalham o papel, da prática de um domínio específico (expertise), a mão (destros e canhotos) e a idade, em relação ao xadrez. Este artigo trouxe alguns resultados interessantes.


Algumas questões poderiam ser levantadas sobre isso, por ex., se existe uma relação entre destros, canhotos e ambidestros na habilidade enxadrística, ou quanto tempo de treino é necessário para se atingir uma certa pontuação (elo)? Qual é a idade máxima para se começar a aprender xadrez? O que é mais importante, talento ou prática?


A dupla de investigadores trabalhou numa primeira etapa com 104 jogadores de xadrez argentinos (?!), sendo que 3 eram Grandes Mestres (GMs), 10 Mestres Internacionais (MIs), 13 Mestres FIDE (MFs), 39 não titulados com elo FIDE (NT)e 39 sem elo internacional (SE). Os pesquisadores indicam em seu artigo que o mais importante de usar essas categorias de acordo com o elo de cada jogador e não precisar criar categorias arbitrarias de experts, intermediários e novatos. Trabalharam então com questionários de três partes, a primeira avaliava questões praticas de como os jogadores treinavam, se usavam um programa específico, se tinham treinador, etc. A segunda parte tratava sobre o tempo de treino do jogador ao longo da carreira e a terceira parte avaliava se o jogador era (no xadrez) destro, canhoto ou ambidestro.

No que diz respeito o número de horas de treino a investigação revelou uma relação importante entre o elo actual e o tempo de treino: Enquanto os MIs treinaram em média 27.929 horas, os MFs treinaram 19.618, os Não titulados com elo FIDE 11.715 e os sem elo internacional 8.303 horas como pode ser visto na tabela abaixo extraída do próprio artigo.


Clique na tabela para ver melhor

É importante perceber que em todos os casos citados acima o desvio padrão é bastante alto chegando a ser quase equivalente ao valor da média no caso dos jogadores sem elo. Este resultado é uma comprovação de algo que poderíamos intuir, o treino é muito importante e a famosa regra popular das 10.000 horas (a regra diz que para se tornar realmente bom em algo é preciso 10.000 horas de treino ou 10 anos de experiência) parece ser válida aqui.

Um ponto importante identificado na pesquisa trata-se da quantidade de canhotos que jogam xadrez. De fato ela é superior a média da população em geral, quem gira em torno de 10 % enquanto que o numero de enxadristas canhotos está em 17%. Uma possibilidade de explicação seria com as funcionalidades cerebrais que se situam do lado direito do cérebro, nomeadamente, funcionalidades espaciais-visuais, lado este que tem bastante controle sobre o lado esquerdo motor do corpo. No entanto não foram identificadas diferenças com relação aos níveis dos jogadores destros e canhotos. Parece que este factor está mesmo relacionado a dedicação.

Outra vertente interessante dessa pesquisa diz respeito a idade em que se inicia no jogo. Os autores perceberam que existe uma forte correlação entre idade de início e o elo do jogador, em seu livro sobre pontuação no xadrez, Arpad Elo se perguntava se não existiria uma idade limite a partir da qual seria muito difícil alcançar altos níveis no xadrez. Os resultados da pesquisa foram:

A idade média em que os xadrezistas começaram a jogar seriamente foi, para cada grupo, a seguinte: jogadores sem elo, 18,6 anos; jogadores com elo, 14,2 anos; MF, 11,6 anos; MI, 10,3 anos; e GM, 11, 3 anos. A tabela abaixo dos autores mostra as correlações (são negativas pois idade e elo são inversamente proporcionais).

Clique na tabela para ver melhor

O gráfico abaixo deixa esta relação clara:


Desta forma os autores apontam para essa marcante relação, entre a idade de início e a o nível do jogador. Existe então uma idade limite por volta dos 12 anos em que os jogadores conseguem atingir altos níveis no xadrez. Particularmente eu fico muito triste com esse resultado já que comecei a jogar com 29 anos o que talvez não me torne um Grande mestre :-P.

O conjunto de resultados desse trabalho aponta para uma importância da prática sobre o talento, porém essa importância não é suficiente, outros factores podem influenciar como a idade de início. Já a destreza manual só se revelou importante em termos de quantidade e não nos níveis dos enxadristas apontando para uma relação entre a funcionalidade espaço-visual do hemisfério direito do cérebro.

Como sequência deste post recomendo a leitura de um post que escrevi recentemente sobre as relações entre o Xadrez e o Ensino/aprendizado escolar, mesmo com este resultado apresentado com relação a idade nada impede que possamos aprender a jogar com 14, 29 ou 99 anos (desde que não tenhamos pretensões a Grandes Mestres) isso por que outras habilidades e competências podem ser adquiridas com o jogo de xadrez, tais são, concentração, percepção, raciocínio, etc.

Vale a pena ler o post: Xadrez na Aprendizagem Escolar

Para finalizar um video divertido de xadrez:


Referências:
GOBET, F.; CAMPITELLI, G., The Role of Domain-Specific Practice, Handedness, and Starting Age in Chess. Developmental Psychology by the American Psychological Association, Vol. 43, No. 1, 159–172, 2007.
Site: Xadrez (28.º delegado de Xadrez de Portugal eleito)
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