O Bêbado e a Escada

Conto publicado na Revista da ECA-USP em Novembro/2009

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E o Bêbado rolou escada abaixo como só mesmo um bêbado sabe fazer.

Rolou comicamente diria o comediante. Piedosamente, diria a senhora caridosa . Não rolou, deslizou suavemente como a água que flui inexoravelmente num rio, diria o poeta. Caiu e pronto, diria o pragmático. Rolou e tenho certeza que não vai sobreviver, diria o pessimista. Diriam todos eles, se estivessem lá, mas não estavam e sim ocupados demais com suas vidas para perder tempo com bêbados rolando escada abaixo.

Estavam lá apenas o Bêbado, o Gordo da pasta, o Dono da porta na qual o Bêbado bateu e a escada sem dúvida, pois ainda não inventaram, os cientistas inventivos, maneira de se rolar escada abaixo sem que no local exista escada.

Já lhes adiantei que o Bêbado bateu na porta, não entro aqui nos pormenores das dificuldades que o Bêbado enfrentou para subir a tal escada, dado a fragilidade frente à gravidade, quando a entidade álcool incorpora seu cavalo.

Bateu na madeira rugosa carcomida por cupins e pelo tempo em igual proporção, já que existe uma relação linear no Universo entre cupins e tempo, tão misteriosa quanto a própria origem deste Universo. Não digo que tenha batido com reticência sincera; diria, pelo contrário, que bateu com uma credibilidade débil e arrependimento – não necessariamente nesta mesma ordem.

Mas de qualquer forma, nem a debilidade nem o arrependimento impedem que o som se propague no ar, o que ali certamente existia, não dos mais puros, concordo, mas nem isso impede a propagação. E assim o som das batidas bêbadas se propagou pelo ar impuro da casa e atingiu os ouvidos do Dono da porta.

–         Já vai!  – Gritou com a impaciência da voz arrogante.

Caminhou até a porta – que dentro e fora é a mesma – e a abriu.

Não descrevo também os pormenores dos olhares trocados pelo Dono da porta, que após abri-la continua segurando-a com a intensidade da posse e o Bêbado de olhar cômico e atrasado – a cabeça se move sempre mais rápido que os olhos – não conto isso, pois não tem relevância na queda. Só conto que os olhos bêbados percorreram o interior da casa processando o que dizer, uma vontade sincera da boca, mas nestes casos as sinapses não colaboram com os desejos.

Ficou em silêncio.

Bastou um empurrão.

O que queria o Bêbado ali? Jamais vamos saber, já que ele não abriu a boca. Queria abrigo? Morada? Reivindicar seus direitos de bêbado que passa diante de uma casa aconchegante e pedir um canto para dormir e molhar as calças? Ou então mais uma dose – é claro que está afim – pois as anteriores já não faziam os primeiros efeitos. Não saberemos e isso causa a dor de morte, dor da palavra: nunca. Sentimento de impotência.

Na primeira meia volta que seu corpo deu entorno do seu eixo bateu com a cabeça em um degrau, a gravidade – impiedosa – continuou convidando a descer e ele, obedecendo.

Quem via isso e tudo mais, ao pé da escada – posição privilegiada,  diga-se de passagem – era o Gordo da pasta.

Carregava, naturalmente por ser o Gordo da pasta, uma pasta, além disso, um terno preto que oprimia sua carne e suor na testa.

No exato momento do toque – se assim posso chamar – do Dono da porta no Bêbado, o Gordo colocou o primeiro pé no primeiro degrau da escada, distribuindo assim seu peso para aquele inocente degrau, degrau este que levaria, segundos depois, uma pancada dada pela cabeça do Bêbado. Que fez este inocente para sofrer assim? Nem você leitor nem eu responderemos a esta pergunta, eu por que prefiro a brevidade e você por que se deixa controlar pela impaciência.

Rolemos juntos com nosso Bêbado então.

Pois o primeiro pé Gordo já tinha sido posto na escada quando o Bêbado começou a rolar, e aí chegamos num dilema. Ele vai subir com a mesma obstinação que irá apresentar os contratos para o Dono da porta, como se dar lugar a um bêbado fosse rebaixar-se aos obstáculos da vida. Encarou aquele corpo que desce como mais um obstáculo. Venceria na vida. Venceria na vida.

Quando a cirrose que desce encontra o colesterol que sobe, os mundos se fundem num só.

O Gordo da pasta utilizou dos apoios da escada para pular o Bêbado que tocava, ora com a cabeça ora com as costas degrau por degrau.

Logo depois nosso amigo alcoólatra chegou aquele primeiro degrau (sofredor) onde bateu com a cabeça e caiu (finalmente) desfalecido (como mais haveria de ser?) no chão.

O sorriso do Dono da porta se escancarava de orelha a orelha, mas não pensa aí o maldoso leitor que vai maldade neste homem, isto deixo com você que lê este relato com prazer escorrendo-lhe pelos cantos da boca.

Não vai maldade no Dono da porta, o sorriso vai para o Gordo da pasta que termina a subida, com um pouco mais de suor na fronte.

Trocaram algum cumprimento e entraram.

Afinal, lá fora, estava frio.

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