Paradigmas e Revoluções – Parte II

Na postagem anterior falamos um pouco sobre os paradigmas, citamos Thomas Kuhn, mas não definimos o que este autor entendia sobre essa palavra.

Encontraremos suas definições sobre o assunto no livro, A Estrutura das Revoluções Científicas, colocarei um pouco dessa ideia neste texto, mas como sempre digo, isso não passa de um trabalho, criminosamente resumido.

Kuhn tratou em seus estudos do Como a ciência evolui, como se dá a dinâmica, no que poderíamos talvez chamar de sociologia da ciência ou até psicologia da ciência. De fato em um ponto de seu livro ele recorre ao conceito da Gestalt para trabalhar certas ideias.

Para este autor a ciência teria uma dinâmica específica, consistindo em algumas fases, e a primeira dessas fases pode ser chamada de pré-paradigmática, nesta fase diversas (duas ou mais) propostas de explicação dos fenómenos coexistem numa espécie de competição. O importante desta fase é que não existe uma teoria que explique um certo aspecto do mundo de forma hegemónica. Acontece que em algum momento uma dessas teorias conseguirá sobrepujar as outras e se tornar a explicação dominante para os fenómenos, isso é o que chamamos de Paradigma.

Paradigma então, pode ser entendido como um conjunto de leis, regras e teorias que explicam um determinado fenómeno num determinado tempo. Assim a ciência é uma construção (além de social) temporal.

Durante o paradigma estabelece-se o que Kuhn chama de Ciência Normal, o período em que os cientistas estão engajados em articular o paradigma dominante, fortalecendo-o, abastecendo-o de técnicas, metodologias e ferramentas cada vez mais precisas e eficazes. Este é sem dúvida o período em que se passa mais tempo ao longo da evolução da ciência.

É importante perceber que o (a) cientista normal, não está interessado em descobrir novidades. Como foi dito, seu objectivo é articular o paradigma. Para tal, ele (a) vai corrigir pequenos problemas no paradigma, torna-lo mais amplo, mais abrangente, sendo as explicações cada vez mais, capazes de explicar os fenómenos adjacentes. Tomemos como exemplo o Paradigma Geocêntrico. Nele a Terra era o centro do universo, e o (a) cientista normal deste período procurava melhorar essa visão de mundo para que cada vez mais ela abrangesse as observações. Nesse intento podemos perceber os epiciclos e deferentes que foram propostos para que o paradigma continuasse creditado, salvando as aparências.

Os articuladores do paradigma geocêntrico foram muitos e creditar apenas Ptolomeu por isso seria injusto. De fato seu Almagesto teve grande influência, mas houve articulações que apontavam para a Europa e mundo árabe. Da mesma forma que creditar Copérnico pela retomada do movimento da Terra também é algo injusto. Já no século XV na Alemanha eram apontados problemas no modelo de Ptolomeu.

Isso indica que nesta época a ciência normal já não consegue resolver todos os problemas e cada vez mais vão sendo criados pequenas rachaduras, quando são muitas, a casa pode cair. Resultado do aprimoramento constante da técnica que falei acima, o que permite que melhores observações sejam feitas e a ciência normal precisa dar conta. Quando não consegue, surgem tentativas paralelas de explicação. Neste ponto a ciência vive seu período de crise.

Outras proposições são feitas para explicar os fenómenos que a ciência normal já não explica ou não consegue explicar muito bem. Abre-se uma concorrência para a explicação desses eventos. Repare que não é um ciclo, não estamos de volta a fase pré-paradigmática, neste ponto existe um paradigma, porém ele está em crise e normalmente surge um paradigma emergente tentando substituir o anterior, é isso que está proposto nos dias de hoje com relação a ciência moderna e a pós-moderna (por mais mal definido que isso seja), contudo na abordagem de Kuhn os paradigmas são menos amplos do que propõe os debatedores da ciência moderna e pós-moderna. Ele trata por exemplo, da transição de paradigma do modelo newtoniano para o modelo einsteiniano, ou seja, paradigmas contidos dentro de uma matriz disciplinar. O modelo gravitacional de Newton ainda era o paradigma dominante quando se percebeu que não era possível usá-lo para explicar a órbita do planeta mercúrio, por exemplo.

Para Kuhn o paradigma que vem substituir outro, aniquila (palavra usada por ele) o anterior. Outros autores não sustentam essa ideia, Lakatos, por exemplo, propõe que existam um conjunto/sistema de teorias que prevalecem, mas que existem outras que coexistam com o paradigma. Na substituição não existe a aniquilação total. Isso me parece representar melhor a transição Newton-Einstein.

É chegada a hora em que o paradigma emergente consegue suplantar o anterior. Eis que surge a Revolução Científica, mas não pense que isso se da de forma rápida. As revoluções científicas são diferentes das revoluções sociais principalmente no que diz respeito a temporalidade. Voltemos aos exemplos das visões de mundo da Astronomia e percebamos pela figura abaixo a coexistência e a temporalidade, a revolução ocorrida na passagem do modelo geocêntrico para o modelo heliocêntrico, que pode ser datada, aproximadamente, em 1450 tem ainda em 1609 com Galileu aceitação muito baixa.


Quem é que faz as revoluções? Não é alguém externo ao paradigma que provocará a revolução, é alguém que foi criado dentro do paradigma que terá conhecimento deste e conseguirá provocar sua ruptura, também são cientistas que não estão totalmente “agarrados” ao paradigma anterior, mas o conhecimento deste e de seus mecanismos é fundamental para sua ruptura.

A sequência dessa postagem voltará para o debate Moderno vs. Pós-moderno na ciência, não percam os próximos capítulos!


Referências

KUHN, T (2007) A estrutura das revoluções científicas. Série Debates. Editora Perspectiva.

PESSOA, Osvaldo. Diversos textos e anotações de aulas.

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s