O Debate entre o Moderno e o Pós-moderno – Parte II

Neutralidade

O autor não se define claramente em nenhum momento como ser neutro dentro de sua investigação, contudo não podemos pensar em neutralidade quando a pesquisa empírica consistiu de um ano e meio de observação dentro do terreno de estudos, no caso, a escola. Esta participação, como foi descrita, foi em conversas com todos os elementos escolares (Director, Assistente, Coordenadora pedagógica, Agentes escolares, Professores (as), alunos (as), comunidade), assistindo aulas, participando de actividades culturais, participando de reuniões internas, ou seja, de forma alguma a neutralidade pode ser invocada neste processo, o que o tira de uma abordagem de investigação positiva/moderna.

É interessante notar que nestas conversas citadas muitas são oficiais em forma de entrevistas, porém outras tantas são, como ele diz, “de pé-de-ouvido” quando um comentário é proferido informalmente por um dos elementos. Trazer estes elementos para a pesquisa creio ser importante em vários níveis, na medida em que leva em conta os discursos dos sujeitos envolvidos e suas subjectividades, já que em entrevistas formais, muitas vezes, o sujeito se torna o próprio discurso e normalmente leva à uma exaltação da situação para salvar as aparências. Já nestes comentários informais outros elementos podem ser revelados, como no exemplo de uma reunião de professores e coordenadores, em que os professores esperavam a chegada da coordenadora para começar e uma professora lhe falou ao pé-do-ouvido:

Houve um caso curioso desvelado por uma professora. Quando estive com uns 15 professores do ensino básico a espera, por mais de 25 minutos, da coordenadora pedagógica para iniciar uma reunião, uma professor me “cutucou” e disse: “você já viu um exército perder uma guerra simplesmente por que seu comandante não apareceu para a batalha?”, eu sem saber o que responder, ela completou, “pois é o que está acontecendo aqui agora, um monte de professores que sabem o que fazer e ficam esperando a coordenadora chegar para começar os trabalhos.”.

Este trecho além de ser interessante pelo seu conteúdo o é também na medida em que mostra que discursos informais são incluídos como elementos de investigação pelo pesquisador. Desta forma podemos perceber que o autor “dá voz” aos elementos da escola, que de certa forma são seus elementos de pesquisa também. Podemos perceber que o autor relata sua investigação empírica baseando-se e argumentando muitas vezes de acordo com os relatos dos elementos da escola. Em outras palavras, as vozes desses elementos são de fato material para a investigação. Não fazendo inclusive distinção entre dos tipos (hierárquicos) de vozes, agentes de escola, coordenadores (as) e professores (as), parecem ter voz igualmente na pesquisa.

Isso pôde ser percebido em grande parte do texto, por exemplo na definição e explicação do Projecto Político Pedagógico (PPP), contudo na descrição de um outro documento importante da escola o Contrato Escola-Aluno não apareceu explicações ou comentário por parte do pessoal da escola.

Ainda com relação a este “dar voz” aos elementos da escola ele os interroga sobre o papel da escola em nossa sociedade e em nossos tempos, na contemporaneidade. É importante perceber que alguns dos discursos são carregados dos ideários modernos, de formar um cidadão, livre, independente, capaz de escolher e ter um bom futuro.

Retirando do texto os elementos que mais nos interessam para esse trabalho, nomeadamente, aqueles com viés científicos/epistemológicos, o autor cita Lyotard (1986) para tratar do fim das grandes narrativas proposta pelo pensamento e discurso pós-moderno, além de narrativas como o socialismo, o liberalismo, a democracia, isto inclui também a narrativa científica e seu poder de proferir ideias com estatutos de verdade, para este autor a ciência seria então apenas mais uma narrativa dentre outras possíveis para se explicar o mundo. De forma geral isso foi discutido durante o curso e nos remete para textos como o de Boaventura de Sousa Santos.

Por outro lado propõe que existe um casamento de alguns conceitos pregados pelo pós-moderno com ideologias capitalistas dominantes. Deixando pouco espaço para a educação. E como uma crítica específica ao pós-moderno lança mão do trabalho de Tomás Tadeu Silva, que trabalha na área de currículo e defende a teoria pós-crítica do currículo, dizendo que o pensamento pós-moderno pode ser útil para o projecto educacional crítico na medida que nos torna conscientes dos efeitos de verdade de todos os discursos, mas pode também ter consequências regressivas e conservadoras quando essa desconfiança em relação aos discursos e ao carácter ilusório de todos os discursos nos impede de fazer uma crítica de estruturas sociais que são bem reais e concretas (SILVA, 1995).

A ideia seria então ter cautela ao assumir o discurso pós-moderno. Mas é bom lembrar que o objectivo é chamar a atenção para o debate e não tomar partido do outro lado, onde o pensamento moderno casa muito bem com o liberalismo burguês, com a ciência positivista e com as instituições capazes de perpetuar as relações de poder e dominação existentes.

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre (1991) Estruturas sociais e estruturas mentais. In Teoria & Educação, 3, 113-119.

CHALMERS, A. (1993) O que é ciência afinal? Brasília: Editora Brasiliense.

FERNANDES, Uirá (2007) O currículo na encruzilhada pós-moderna – um estudo de caso de uma escola pública paulistana. Mestrado. Universidade de São Paulo.

HARAWAY, Donna (1988) Situated Knowledge: The Science Question in Feminism as a Site of Discourse on the Privilege of Partial Perspective. Feminist Studies 14.3, 575-99.

KUHN, T (2007) A estrutura das revoluções científicas. Série Debates. Editora Perspectiva.

MATTOS, Cristiano R. (sem ano) O ABC da ciência. Universidade de São Paulo – Instituto de Física.

NUNES, Adério Sedas (1984) Questões preliminares sobre as ciências sociais. Lisboa: Editorial Presença, 35-43.

SANTOS, Boaventura S. (1989) Introdução à uma ciência pós-moderna. Porto: Edições Afrontamento, 17-32

SILVA, Tomaz Tadeu da. (1995) O projeto educacional moderno: identidade terminal?. In: VEIGA-NETO, Alfredo. (org.) Crítica pós-estruturalista e educação. Porto Alegre: Sulina, p.245-260.


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