Repensar a escola e o sentido do trabalho escolar – Parte I

Por F e r n a n d o I l í d i o F e r r e i r a

O tipo de investigação que tenho privilegiado nos últimos anos – a pesquisa

etnográfica – tem-me permitido manter um contacto e uma presença directa e

prolongada em contextos educativos concretos. Tem sido em situações diversas, de

envolvimento em projectos, de participação em acções de formação, de observação de

reuniões, de visitas a escolas, de entrevistas com alunos, professores, pais, autarcas,

gestores escolares e outros actores educativos, que tenho construído um conhecimento

por dentro da vida quotidiana das escolas. Mas nem sempre esse conhecimento tem sido

fruto da investigação mais estruturada e planificada. Frequentemente, tem sido nas

situações mais informais, de conversa com as pessoas, nas quais escuto, mais do que

faço perguntas, que esse mundo se revela com maior clareza. Essas conversas revelam,

muitas vezes, um conhecimento diferente — um conhecimento da escola, vista de fora,

por quem não vive no seu seio e para quem ela se apresenta como uma realidade mais

estranha. E este conhecimento da estranheza é essencial, sobretudo quando o que está

em causa é uma realidade que tende a ser encarada como naturalmente boa

independentemente das suas práticas e experiências concretas.

Poderia contar vários episódios reveladores deste tipo de conhecimento, mas

refiro aqui apenas uma conversa recente com um casal jovem que tem uma filha de seis

anos que acabou de entrar na escola. Como outros pais e mães, estes estão interessados

na vida escolar dos filhos. Neste caso, pude aperceber-me que eles não estão apenas

interessados, como já estão também bastante preocupados, apesar de a menina só ter

entrado para a escola há duas ou três semanas. Contavam-me, receosos, que a professora

lhes dissera que a filha estava atrasada no i. Poderíamos discutir amplamente o

significado desta expressão, que é profundamente reveladora de concepções e práticas

de ensino, mas o que provocou maior estranheza foi o facto de eu próprio ter verificado

que a criança identificava e desenhava o i perfeitamente. Durante a conversa, pude

perceber, no entanto, que não era isso que estava em causa. Estar atrasada no i

significava que a criança não escrevia tantas linhas de iiiii quantas a professora

pretendia.

Este episódio ilustra uma das características mais enraizadas da forma escolar

tradicional – o trabalho desprovido de sentido, baseado na mera repetição – que as

sucessivas reformas educativas das últimas décadas conduzidas pelo Ministério da

Educação não conseguiram alterar, apesar de tanta retórica e de tanta legislação

produzidas. Neste período, têm-se desenvolvido, apesar de tudo, experiências que

questionam profundamente a forma escolar tradicional e mostram que a escola da

repetição não é uma fatalidade e que é possível construir uma escola com sentido para

os saberes e para as pessoas que os trabalham no contexto escolar.

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A Escola da Ponte é talvez o exemplo mais marcante de uma escola com sentido

que nasceu e se desenvolveu no período democrático em Portugal, com a qual temos

muito a aprender. E é possível aprender com ela, não apenas nas suas dimensões

endógenas, mas também sobre os mecanismos das reformas educativas e de outras

decisões do Ministério da Educação que frequentemente criam dificuldades,

inviabilizam e até destróem experiências e projectos inovadores, tal como está a

acontecer hoje em relação ao projecto educativo da Escola da Ponte.

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