Repensar a escola e o Sentido do trabalho escolar – Parte III

A Escola da Ponte como símbolo de esperança e de coragem

A lógica de reforma é avessa às experiências inovadoras que escapam à sua

obsessão pela uniformidade e pelo controlo. Ignorando o valor dessas experiências, a

lógica de reforma impõe-lhes enquadramentos legais, aplica-lhes decisões e inviabilizalhes

projectos, acabando muitas vezes por as destruir. Frequentemente, esses

enquadramentos e decisões são apresentados como uma espécie de desígnio nacional,

com base no argumento de que é necessário proceder a reformas. Acontece, porém, que,

apesar da difusão de slogans como em cada escola fazer a reforma ou a escola no

centro das políticas educativas e da retórica da autonomia da escola, da possibilidade

de as escolas construírem um projecto educativo próprio, da necessidade da

participação de todos os interessados no processo educativo, as reformas educativas

conduzidas pelo Ministério da Educação têm-se desenvolvido quase sempre em função

de crenças, interesses e estratégias muito particulares, parecendo por vezes mais o

resultado de um capricho do que de um processo de produção de políticas públicas.

Sendo, embora, apresentadas como reformas, as ditas decisões tornam-se, na realidade,

muito voláteis. E é, em grande medida, esta volatilidade que está na origem do

desalento que se vive hoje no interior das escolas, face à constatação de que essas

reformas intensificaram o trabalho, mas não em benefício da construção de uma escola

com sentido.

Uma das últimas ideias difundidas pelo Ministério da Educação é a de que agora

pretende que a rede escolar privilegie a integração do 1º e do 2º ciclos do ensino básico

e não a integração dos três ciclos, na modalidade que ficou conhecida, desde os anos 90,

como a escola básica integrada. Apesar desta matéria de tipologias de rede escolar já

estar esgotada no debate educacional e de, ao longo das duas últimas décadas, já ter

esgotado a paciência de muitos autarcas, gestores escolares, professores e outros actores

do sistema escolar, elas continuam a ser apresentadas pelos responsáveis do Ministério

da Educação como prioridades educativas. Tal não significa que a tipologia e os níveis

de ensino que uma escola deve abranger sejam aspectos irrelevantes; o que significa é

que a questão se torna relevante apenas quando inserida num projecto educativo que não

fique refém dos aspectos de morfologia. Esta é a característica essencial do projecto

educativo da Escola da Ponte — quando pretende desenvolver uma experiência de

integração dos três ciclos do ensino básico —, mas paradoxalmente é com base em

argumentos de natureza gestionária e de mera morfologia que a continuidade desse

projecto é ameaçada pelos responsáveis pelo Ministério da Educação.

A Escola da Ponte e o seu projecto educativo assumem hoje, por isso, redobrada

importância. Importância para todos quantos nela têm estado envolvidos directamente,

mas também como símbolo de esperança e de coragem para todos os que levam a sério

o desafio de repensar a escola e o sentido do trabalho escolar.

Na minha actividade de investigador e de formador de professores, um dos

objectivos que procuro não perder de vista é o de promover um pensamento reflexivo e

crítico que tenha em conta os constrangimentos e as possibilidades da acção humana. Os

diversos contactos que tenho mantido com as escolas e os professores têm revelado uma

enorme descrença em relação às possibilidades de transformação da escola, nos seus

aspectos mais substantivos. Surgem, porém, nesses contactos, momentos em que os

professores encaram essas possibilidades a partir de experiências inovadoras que

observaram. E a experiência da Escola da Ponte é a que é referida mais frequentemente.

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Já participei em diversos encontros onde a experiência da Escola da Ponte foi

apresentada e pude observar o grande entusiasmo e interesse demonstrados pelas

pessoas presentes, não apenas professores, mas também alunos, pais, autarcas,

investigadores e outros interessados nas questões educativas. Em diversas acções de

formação contínua e mesmo em cursos de formação inicial costumo referir e suscitar a

reflexão em torno de experiências inovadoras que existem no nosso e noutros países.

Mas amiúde são os próprios participantes que referem o exemplo da Escola da Ponte,

quer porque já ouviram falar dela, quer porque já a visitaram. A Escola da Ponte é, hoje,

portanto, um símbolo de esperança.

Ao pretender alargar esta experiência até ao 3º ciclo do ensino básico, o projecto

educativo da Escola da Ponte assume um grande desafio, face à dificuldade ainda maior

de transformar o trabalho escolar numa realidade mais segmentada, de estrutura

disciplinar. Este projecto representa, assim, um exemplo de coragem que deveria ser

apoiado por todos, a começar pelos responsáveis pelo Ministério da Educação. No

entanto, ao invés de o apoiarem e incentivarem ameaçam a sua continuidade.

Tal posição põe a nu a hipocrisia que tem caracterizado o discurso sobre a

Educação. O discurso tem sido fértil em referências à autonomia da escola, à gestão

flexível do currículo, ao trabalho em projecto, à educação para a cidadania, etc., mas as

posições concretas do Ministério da Educação relativas à Escola da Ponte mostram que

se trata apenas de um discurso balofo. Se se tratasse de genuínas intenções, o projecto

educativo da Escola da Ponte não seria silenciado. Pelo contrário, seria encarado como

um caso exemplar de práticas e experiências de autonomia, de gestão flexível do

currículo, de educação para a cidadania, de trabalho em projecto, de vivência

democrática. Com a diferença de, no caso da Escola da Ponte, não se tratar de palavras

ocas como as que têm invadido os textos das sucessivas e desacreditadas reformas

educativas.

Sobre o que está em causa, o subtítulo de uma obra de Boaventura de Sousa

Santos – contra o desperdício da experiência – é elucidativo. No período que estamos a

viver, em que é visível uma enorme descrença nas possibilidades de mudança da escola

e das práticas educativas e um grande desalento dos professores, a experiência da Escola

da Ponte não pode ser desperdiçada. Sob pena de deixarmos de acreditar que é possível

construir mudanças em educação e pela educação.

Referências

BALL, Stephen (2002). Reformar escolas/reformar professors e os terrores da performatividade.

In C. V. Estêvão, A. J. Afonso e L. C. Lima (Org.). Política e Administração da Educação:

Investigação, Formação e Práticas. Actas do 2º Congresso Luso-Brasileiro, 18, 19 e 20 de

Janeiro de 2001. (9-20). Braga: CIED – Universidade do Minho.

NÓVOA, António (1999). Os professores na virada do milénio: do excesso dos discursos à

pobreza das práticas. Educação e Pesquisa. 25 (1): 11-20.

SANTOS, Boaventura de Sousa (2000). A crítica da razão indolente: contra o desperdício da

experiência. Porto:

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