A Teoria do Burro de Presépio

O que você pensaria se estivesse sentado numa sala de cursinho comunitário e entrasse um professor dizendo não saber bem o assunto que iria tratar na aula. Pensaria em movimento. Vontade de correr? Pensaria na inércia. Vontade de ficar parado ali, sem movimento. Aula de física, cinemática, movimento uniforme, movimento. Só que aquele que domina melhor que todos os outros estaria te revelando assim, de uma maneira crua e nua que não domina bem. O que sentiríamos no lugar desta aluna ou deste aluno? Decepção? A falta do chão?

Muitas teorias educacionais propõe que esta sinceridade aconteça e que o professor revele e construa junto com os alunos e alunas o conhecimento. O mais estranho é que não obstante ao meu começo de texto, eu acredito nisso. Apenas não aplico.

Estas teorias pregam que o conhecimento seja construído na relação, na interação. Pedem que as barreiras rígidas entre professor e aluno sejam abolidas, mesmo assim, não acredito que seja possível revelar sua ineficiência (muitas vezes justificada) para uma turma logo na primeira aula. A decepção é bem grande e nada mais é que o não cumprimento da expectativa. O restante do curso pode estar comprometido.

Coloquei o exemplo acima, pois foi assim que comecei. Lecionando para uma turma de cursinho comunitário a 7 anos atrás. Nesta época eu estava apenas começando o segundo ano da faculdade carregando nas costas, além do peso da ignorância (os livros), 3 meses de cursinho semi-popular e um péssimo ensino médio numa escola da rede estadual. Não tinha como estar certo das coisas que eu teria que ensinar logo mais, tive dúvidas, mas a convicção que eu carregava até então era do professor como detentor do conhecimento, daquele que sabe que vai iluminar aqueles que nada sabem e tudo precisam.

Menti.

Como eles mesmos sabiam ainda menos que eu, tirar o S = So + v.t do delta “S”/delta “t” parecia mágica. E eu pareci, para aqueles olhos inocentes, o próprio Einstein.

Com o passar do tempo essa concepção foi mudando em minha cabeça, depois de muito pensar, estudar, ler, etc., passei a acreditar que seja preciso mesmo mais sinceridade. Mas ainda acho que é muito difícil essa revelação (coragem de dizer que não sabe) nas primeiras aulas de uma turma, isso por que não adianta o professor ter essa consciência da construção, de que o professor não é o detentor (único) do conhecimento, se os próprios alunos e alunas, não. Ou seja, ele ainda continua esperando para receber os conteúdos passivamente.

Tenho essa relação com o conhecimento de relatividade, por exemplo. Isso quando abordo esse conhecimento sob a forma de curiosidade. Este fato não impressiona ninguém, com o currículo atual existente no Brasil, seja em escolas públicas ou privadas, a possibilidade de um trabalho mas sólido de relatividade é remota. Mas mesmo sob a forma de curiosidade a sensação de não pertencimento, não propriedade deste conhecimento é grande.

Não foram as duas horas por semana por 4 meses na faculdade que fariam com que eu me apropriasse de um conhecimento tão anti-intuitivo, tão sobre-natural, como é o conhecimento da relatividade. Mesmo apresentando sob (sobre) a forma de curiosidade percebo nos olhares (como dizem os populares) a expressão do “burro de presépio”. Burro de presépio é aquele ser que está presenciando o Maior acontecimento da história da humanidade (perspectiva cristã) e não está nem percebendo o que está acontecendo, não dá a mínima importância, não faz sentido. Pois, é exatamente assim que muitos alunos meus se sentem. Mas sou solidário a eles e por mais de uma, duas ou três vezes tive essa mesma sensação na universidade. Diante de um professor que explicava um assunto, de maneira empolgada ou entediada, olhar para ele e para o conteúdo, não ver relação. E lá vem, em mim, a sensação… a expressão do “burro de presépio”. Imaginava que aquilo era de uma importância impar, mas não conseguia perceber qual. Não consigo estabelecer as relações cognitivas e/ou sinápticas que me mostrariam que aquele conhecimento era importante. Que aquele entendimento daria “barato”.


Neste momento entendo meus alunos, e de uma forma ou de outra é diante desta situação que tenho coragem de dizer à eles que não sei bem de um assunto e fingir que não se decepcionaram em ouvir aquilo!

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1 comentário

  1. Gostei muito deste texto. Passei por algo semelhante. Ensino línguas. Quem conhece todas as palavras que estão no dicionário? No início da minha carreira, tinha muito receio de que algum aluno me perguntasse o significado de alguma palavra que eu não conhecesse. Primeiro tentei dar a volta, dizer-lhe que não estava relacionado com a matéria – péssima resposta – ou pedia-lhe que fosse ver ao dicionário para se tornar autónomo e depois dissesse na aula o que tinha descoberto – menos mal. Mas vivia com ansiedade.
    Encontrei a minha libertação quando aprendi a reconhecer diante dos alunos que não sei tudo e os fiz ver que isso é normal. Quando me perguntam alguma coisa que não sei, digo com simplicidade “Não sei. Vou ver e depois digo-te.”
    Eles também têm de ser educados neste sentido. Há alunos que fazem troça de um professor que não se lembra de um determinado ponto da matéria. Há até alunos que inventam perguntas difíceis de propósito para humilharem o professor. A esses eu costumo dizer: “Só Deus sabe tudo.”

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