Entre Newton e Einstein

Escrever fazendo qualquer tipo de separação entre aquilo que se pensa e aquilo que nos fazem pensar é uma tarefa pouco construtiva para não dizer inútil. Como conseguirei separar aquilo que penso (se é que existe um absoluto: “aquilo que penso”) daquilo que li, ouvi, vi ou senti?

Começo meu texto desta forma por que quando pensei na relação entre a mecânica clássica e a relatividade não me veio nada na cabeça que não fosse T. Kuhn, uma das melhores referências epistemológicas que li até hoje. Se o que pretendo escrever é meu de fato, incorporado e apropriado não sei precisar.

A relação entre a mecânica clássica e a relatividade é de ruptura!

Não é uma relação de continuidade.

Em diversos momentos da história da ciência tivemos rupturas. Saturações de conhecimentos que só podem ser transpostos por meio de um novo paradigma (difícil não usar os termos kuhnianos), uma nova maneira de ver a teoria, de observar o experimento e enxergar o mundo. Na verdade esse último ponto me parece o mais importante, enxergar o mundo está relacionado com nossa capacidade de se comunicar com ele. Uma expressão mais apropriada poderia ser “sentir o mundo”, já que a visão não pode ser apresentada como única forma de relacionamento com o mundo. Para não sobrar (muitas) ambiguidades, estou usando a palavra mundo como ideia de universo físico, basicamente.

Pensando desta maneira a ruptura epistemológica ocorrida entre a mecânica clássica e a relatividade proporcionou mais que uma mudança de teoria, ela proporcionou uma nova forma de interagir com o mundo, “ver” o mundo. Uma transição em continuidade não tem esse poder. Uma continuidade adapta as causas e efeitos e geralmente não muda paradigmas.

Falar em transição nos apresenta uma dificuldade a mais, além do próprio tema. O conteúdo etimológico da sentença. Quando ocorreu de fato a “transição”? O que é transição? Não dá impressão de continuidade?

Não sei dizer se esta passagem não está ocorrendo até agora. Será que a passagem de uma teoria à outra ocorre (se completa) na publicação do artigo? Ou quando está incorporada por todos os membros da comunidade específica? Ou ainda, quando está incorporada por todos as pessoas da sociedade? Isso nos leva a pensar se esta transição ocorreu por meio de uma descoberta ou invenção. Se foi descoberta, ou seja, se a “verdade” já estava lá, escondida, esperando. Deveremos pensar de uma forma, que tende para a primeira pergunta acima. Se a relatividade (e sua forma de ver o mundo) for uma invenção, uma construção de realidade (como acho que é) tenderemos mais para a segunda e terceira perguntas (de fato a terceira nos traria um problema antropológico que é melhor evitar).

Se pensamos então na ciência como construção e a relatividade como uma construção de visão de mundo, pensaremos que a assunção de sua verdade já é bem estabelecida pelos membros de sua comunidade.

Já “progresso” é um termo complicado, indica uma melhora na forma de ver o mundo. Melhora numa necessidade que os antecessores não tinham!

Estarei sendo subversivo se responder, neste final de texto, que o que eu ando aprendendo sobre o assunto, influenciaram minha resposta. Um pouco de subversão é bom. Digo isso porque nem tudo que escrevi, está de acordo com estes aprendizados, mas de uma forma ou de outra isso é influência. Como escrevi lá no começo do texto, é difícil separar o (possível?) pensamento puro, das influências externas que recebemos a todo momento. Estes aprendizados são com certeza uma influência forte na maneira de pensar, o problema ou vantagem, reside na incorporação que fazemos entre os conteúdos que já possuímos e essa influência externa formando o que muitos chamam, ingenuamente, de “meu pensamento”.

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