A Ditadura dos Conteúdos

Minha questão neste texto é o histórico caso do currículo como refém do conteúdo escolar.

O currículo é muito mais que um conjunto de conhecimentos expressos principalmente em forma de conceitos. O currículo se expressa nas relações de sala de aula e escola/faculdade, nas habilidades e competências intencionadas, mas nos vemos sempre reféns dos conteúdos e elaborando esta parte do currículo como se fosse o todo.

Quantas vezes não ouvimos, como definição de currículo, “aquilo que deve ser ensinado”, isso é um reducionismo absurdo e qualquer teoria de complexidade passa longe desta definição.

Para ter apenas mais um parágrafo sobre isso, é bom lembrar que o currículo também atravessa questões de micro e macro poder, ou seja, desde o poder de instâncias altas como governo e sistemas econômicos como micro poder, de departamento e até mesmo pelo interesse dos professores.

Sendo assim a decisão pelo que deve ser ensinado deixa de ser uma tarefa fácil e passa a incorporar a complexidade natural de uma ação humana.
Eventualmente a nanoesfera de poder (@s estudantes) podem participar desta escolha, é um fato incrível, mesmo com a assunção de que é para eles e elas que este currículo é construído. Basta saber neste momento se este poder é real ou fictício. Opinar sobre a construção de uma disciplina/matéria pode ser real?


Tomemos como exemplo o ensino de relatividade e a questão histórica. A história da relatividade, relegada de alguma forma à periferia do conhecimento é um processo de escolha. Na execução de nossa tarefa em sala de aula faremos escolhas o tempo todo. Uma dela será trabalhar pelo viés da história ou reforçar a parte técnica dos conceitos. Não sei dizer qual é mais importante, qualquer movimento aqui será uma expressão do meu ponto de vista e não corresponderá ao que meus alunos e alunas acreditam.

O viés da história, em meu ponto de vista, é fundamental para os processos de aprendizagem, isto porque trás aos alunos e alunas uma dimensão do conhecimento que normalmente não vem nos livros didático, a dimensão da história e da construção do conhecimento (que carregam consigo as dimensões epistemológicas, ontológicas e (um pouco mais escondidas) axiológicas). Os alunos e alunas começam a perceber a ciência como construção e colaboração, feita por pessoas reais e não Einsteins (uma vez li numa revista que Einstein não era nenhum Einstein e essa expressão me causou grande impressão e alegria). Os estudantes começam a perceber através do viés histórico as idas e vindas, acertos e erros na construção de teorias e modelos e isso faz com que aproximem o mundo da ciência do seu próprio mundo (naturalmente cheio de erros e acertos, idas e vindas num processo de construção). A ciência como vem na maioria dos livros didáticos, apostilas escolares e aulas de física, é uma verdadeira caixa de Pandora, misteriosa e fechada. Se cometem o erro de abrir se arrependem. Esta ciência não foi construída, veio pronta, com manual de uso e tudo mais, mas quem lê manual de uso?

Esta é minha opinião sobre a importância da história da ciência na educação. Perceba que em nenhum momento ela veio em detrimento de outro tipo de conhecimento, como o conhecimento técnico. E está aí o problema elencado no começo do texto, a ditadura dos conteúdos. Acho a parte técnica tão importante quanto a parte histórica e essa necessidade de “Tudo” e que faz com que, muitas vezes, tenhamos “Nada”. Não sabemos abrir mão do (falso) Tudo.

Para ler mais:

Artigos sobre currículo 

Apresentação sobre currículo

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