A Física, a Escada e Eu.

Para entender e explicar o que é a física para mim, precisarei ir bem fundo, colocar lama até os joelhos, em um terreno arenoso e escorregadio, como um peixe, como a memória.

Para chegar até este lugar preciso descer uma escada, ou subir, dependendo do referencial (sociológico?) que esteja usando agora. Mas algo na escada é absoluto, o número de degraus. São 14, antes fossem 13. Estes 14 degraus representam as 10 escolas do ensino básico pelas quais passei (e já citei em outro texto), além da faculdade de administração que larguei, o CEFET, a graduação na USP e agora, o último degrau (até o momento) a pós-graduação. Os primeiros degraus são pouco firmes e fugidos, distantes. O décimo degrau é mais claro na memória, a escola onde quase passei todo meu ensino médio e onde tive o primeiro contato com a física. Não gostei.

Tenho lembranças horríveis deste tempo, não gostava desta matéria, e lembro em particular de uma aula, eu olhava para a lousa, aqueles infinitos códigos indecifráveis eu pensei: “Onde é que vou usar isso na minha vida?!”.

Quem diria?

Saí do décimo degrau, escorregando, sem saber o que fazer. Sem saber o que fazer com o que me deram, não era prático, não era útil. Fui para o décimo primeiro, uma universidade privada para fazer administração, um degrau rápido, baixo e curto, apenas um ano, pouco que se podia aproveitar. Um longo passo até o próximo degrau, eu diria até que foi um salto, um salto que durou 4 anos, e neste salto eu olhei um dia, por acaso, para o céu sem olhar para cima. Foi numa revista, que vi a imagem mais fantástica e que mudaria tudo. Uma foto, que hoje sei, do aglomerado globular Omega Centauro. Me tornei um apaixonado pela astronomia, lia tudo, queria tudo, não estava em nenhum degrau-formal da minha vida académica, estava ainda naquele salto, mas foi o que fez mais sentido.

Partiu daí, 7 anos depois daquela frase na aula de física, a vontade de estudar (quem diria?) física. Não pela física em si, pela astronomia, a física neste momento era um outro degrau, apenas. Entrei no CEFET, logo saí por que só teria astronomia no último ano, queria mais. O degrau seguinte foi a USP, também com muita física, mas muita astronomia.

Esses degraus psicológicos e/ou ideológicos que surgem são os mais secos e claros que existem. Eles aparecem como sub-degraus, derrepente se tornam sua única fonte de apoio, se tornam Todo seu chão. Naquele momento outro degrau apareceu enquanto estudava física. A educação. O ensino de física. A vontade de trabalho com o ensino foi maior que a vontade pela astronomia, mudou outra vez meu Sul. Me levou ao último (até agora) degrau, a pós em ensino de física.

A física passou na minha cabeça, de odiada e sem sentido, à função ontológica e axiológica da minha vida, da minha prática. Ela tem hoje um sentido completo, mas que não teve a 12 anos atrás (no dia da frase). Este é o maior problema que posso imaginar neste momento. Como fazer com que algo completamente sem sentido em um dado momento para uma dada pessoa faça sentido, claro e transparente que faz para mim hoje?

Uma possibilidade pode ser eu pedir que esta pessoa espere por 12 anos e quem sabe fará sentido. Não fará.

Entender o sentido da física não leva necessariamente a pessoa a estudar física, leva a compreensões mais amplas, sobre o funcionamento do mundo, das coisas. Não tenho pretensões do entendimento direto disso por um adolescente de 16 anos, por um ou outro tudo bem, mas a grande maioria deles ficará alheio. Os sentidos têm que estar mais embutidos, mais implícitos e vez ou outra, serem mais imediatos. Os alunos e alunas devem descobrir qual parte da física explica seu mundo, ou melhor, qual parte do seu mundo pode ser visto melhor pela ótica da física. Essa descoberta leva tempo, a minha demorou muito mais, e ainda está em curso.

Assim acho que as pretensões de se explicar tudo e fazer a física fazer sentido (interno) aos adolescentes, devem ser abandonadas! Afinal em um olhar um pouco mais amplo podemos perceber o tamanho de nossa ambição, por que da mesma maneira que a física, a história deve fazer um sentido completo aos educandos, a geografia, a matemágica, a biologia, a química e todas as regras misteriosas do nosso código secreto, o português, deveriam fazer sentido para uma pessoa que nem seu corpo ainda faz sentido, as emoções não fazem sentido, os desejos, menos ainda.

Neste momento, estou sentado sobre o último degrau, avaliando o próximo passo, imaginando se o próximo degrau será forte o suficiente para aguentar meu peso.

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