O Sentido das Coisas

Durante uma palestra sobre educação, daquelas bem teóricas e sem aplicação imediata dos conceitos apresentados, um amigo virou para mim e perguntou: qual o sentido de tudo isso?

Eu respondi com outra pergunta: qual o sentido de tudo aquilo que acabamos de ver no curso de relatividade?

Isso me fez pensar nos conhecimentos mais abstratos da física que conhecemos na universidade.

Alguns podem não gostar de ler isso.

Pensar no sentido das coisas não é mais que elencar por nível crescente de importância aquilo que damos valor. Não sei se existe um sentido último das coisas, que seria mais importante que os outros se conseguíssemos eliminar as paixões humanas.

O que sei é que o ato de “ver sentido” em algum assunto, está muito ligado a forma como vejo o mundo e as relações (dialéticas?) entre aquele assunto e o mundo como eu vejo.

Outra vez ouvi uma frase que dizia que o sentido da vida é não ter sentido nenhum. Embora o autor tenha carregado uma pretensão de imaginar ter descoberto o sentido da vida (ainda que seja contraproducente), é a frase que faz mais sentido pra mim.

Em retrospectiva olho para as folhas soltas da disciplina de relatividade e penso em onde e quando usarei aquilo e qual o sentido de tudo isso?

Se for escolher uma resposta, a que me convenceria mais seria aquela que abarca o ego e o conhecimento (tipo de poder) que ganhamos. Possuímos um conhecimento por que ele nos dá poder. Nos coloca em um patamar diferente dos outros mortais e as relações de valor que a sociedade estabelece com a ciência moderna, ratifica quase tudo que o detentor deste conhecimento diga. Hedonista mas verdadeiro.

Outra resposta possível, está na maneira que se passa a ver o mundo sobre a ótica do novo conhecimento, de uma forma ou de outra, não é o mesmo mundo que estamos encarando. O detentor do conhecimento passa a interpretar de outra forma os fenômenos do seu dia-a-dia. A queda de uma pedra nunca mais será a mesma. Será?

A resposta menos válida desta minha lista é a do conhecimento necessário para a sala de aula. Nem acho que seja necessário, nem acho que seja possível. Em primeiro lugar, dadas as condições das escolas do nosso tempo – as públicas nunca chegam neste conhecimento as particulares não querem chegar nele (não cai no vestibular), o que acaba como conhecimento de apêndice dos conhecimentos que o professor de física possui e que impressionará algum aluno ou aluna mais curioso/a.

Os estudantes da escola básica (como ela está estruturada hoje) ainda estão muito longe de conhecimentos e de uma visão de mundo que possibilite uma atuação cidadã e autônoma na sociedade, estão muito longe de uma formação crítica para o mundo do trabalho, estão longe de aprender conceitos importantes como o de atuação política e poder de decisão, coisas que considero mais importantes que quaisquer outras para o mundo de hoje, de forma que os conhecimentos mais abstratos da ciência são, na minha visão, de segundo plano.

Como olhar para todo esse conjunto de conhecimentos abstratos e não estar diante, simplesmente, de um show da física conceitual?

Obviamente para um assunto tão complexo eu não tenho respostas prontas, ou fáceis, acho que ninguém as tenha, mas pensar de maneira mais crítica sobre aquilo que aprendemos na universidade é uma tarefa, em minha opinião, fundamental.

Já que não tenho respostas, procuro saber ao menos as perguntas certas a se fazer.

Como pensar nos conhecimentos (abstratos) que a universidade nos apresenta e confrontar com os conhecimentos práticos que a escola enfrenta todos os dias?

Alguém poderia responder que a pós-graduação não é para a formação de docentes mais qualificados para a escola básica e sim para a formação de pesquisadores e formadores de professores. Ok, esta resposta seria válida, mas ainda assim não resolve o problema. Como esses formadores de professores vão encarar o conhecimento abstrato e confrontar com o chão-da-escola (que não tiveram) e poderão formar (enfim) aqueles que trabalharão nas escolas?

Como sempre, deixo mais perguntas que respostas…

 

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