FisMat vs. FisBrinque ou A Matemágica da Física

Obviamente este título é provocativo, mas existe no mundo real (?) do instituto de física da USP, e revela preconceitos de ambos os lados. Também em ambos os lados temos fundamentalistas e, o fundamentalismo nessas horas, é o que menos ajuda para resolver conflitos.

Não se trata de uma posição conciliadora/diplomata ingénua, se trata de perceber (ou tentar) os fundamentos (sem ismos) destes embates constantes entre estes pólos.

 Muitos acham que a carga reduzida de matemática no curso de licenciatura em física é que a torna uma brincadeira. Esta análise é extremamente reducionista, já que não considera toda a carga pedagógica que vem no pacote. O bom licenciado tem que entender de física sim, mas também tem que entender de ciências da educação, de psicologia, de história da ciência, de epistemologia, e por aí vai. Pensando por esta linha cunharam a frase: “quer moleza? Vai para o bacharelado!”

Do outro lado reside a ideia de que há um excesso de matemática no curso do bacharelado e que muitos não conseguem chegar à física de verdade e se perdem na matemática que a precede. Segundo os “ismos” estas pessoas se tornam bons “fazedores de contas” e não conseguem aplicar a física à situações concretas.

Como isso pode ser verdade se é esta mesma matemática que foi usada para destrinçar a física, principalmente do século XX?

Acho que podemos acreditar que existe acertos dos dois lados e ismos também.

Dito isso, emendo logo, parte do que vai escrito contra a matematização é fruto do medo adquirido ao longo dos anos do curso e da carreira acadêmica como um todo. Por que será que tantas pessoas se dizem avessas a matemática? Por que tantas pessoas dizem não entender nada (muitas vezes estão falando a verdade) de matemática?

Por outras experiências podemos induzir o medo do desconhecido, daquilo que não dominamos, desta forma, afastamos o alheio e nos encostamos na zona de conforto que é onde está aquilo que dominamos.

Para um texto que começaria criticando a matematização não está indo por um bom caminho… Vamos mudar um pouco.

Já ouvi muita coisa da polêmica sobre a necessidade de ensinar física com matemática. Uns dizem que não é possível de forma alguma, outros dizem que é totalmente possível. Se tivesse que escolher eu ficaria com o segundo grupo proposto.

A questão aí é, o que queremos ensinar? Os professores não se questionam sobre o conteúdo, apenas sobre sua forma. Colocando esta pergunta, assim, bem explícita, podemos repensar se é mesmo importante, no ensino fundamental ou médio, conceitos como os de momento ou velocidade angular com a profundidade que é pedida nos livros didáticos. Por mais polêmico que isso soe, e sei que é possível pegar qualquer conhecimento de física e dizer onde ele pode ser aplicado no ensino médio, e também sei que é possível colocar tanta matemática quanto se queira em um determinado conhecimento físico, digo que não devemos ter tantos assuntos, tantos conteúdos como são apresentados hoje no ensino médio e fundamental. Creio que estejamos pecando pelo excesso. Essa quantidade abusiva só ilude o professor e a professora que será possível “passar” toda a matéria, frustração. A matéria será parca, mal ensinada e ainda é capaz de criar no educador a impressão de ineficiência e nos estudantes a desilusão com a escola e com a física.

Acabei de pensar que um dos prazeres dos físicos é justamente dizer que faz/fez física e parecer um ser superior para o restante da sociedade. Desta forma, não lhes interessa a mudança, não interessa para quem pensa assim que a física seja acessível para todos. A relavidade restrita, para essas pessoas, recebe este nome por que deve ser para um grupo reduzido de pessoas. Já ouvi em algum momento que certos professores colocam o assunto em um patamar tão elevado de abstração ou matematização que fica parecendo que de fato, não que seus estudantes entendam e assim manterá o conhecimento em um pequeno grupo. (isso foi um devaneio com pouca reflexão, ainda assim vou manter no texto)

Fico me perguntando como eu construí estas ideias, quais foram os subsunçores ativados, quais foram as ligações sinápticas que fiz, quais foram as experiências que me levaram à estas construções?

Estes exemplos servem para nos fazer pensar a respeito de qual conhecimento nós queremos que nossos estudantes adquiram ao entrar na escola. Devemos nos perguntar “o que seria desejável que os alunos e alunas saibam quando saírem da escola?”, o grande problema é que pouquíssimos professores se fazem esta pergunta. Pegam o livro ou apostila e acreditam que aquele conhecimento foi validado para que todos os estudantes, de diferentes, lugares, épocas, culturas, etc.

Obviamente, para isso não ficar completamente subjetivo, existem balizadores, como os parâmetros nacionais, que organizam as habilidades e competências necessárias/desejáveis aos estudantes do ensino fundamental e médio. Eles dizem por exemplo que os estudantes devem…

Reconhecer que a humanidade sempre se envolveu com o conhecimento da natureza e que a Ciência, uma forma de desenvolver este conhecimento, relaciona-se com outras atividades humanas.

 Ou ainda

Identificar diferentes tecnologias que permitem as transformações de materiais e de energia necessárias a atividades humanas essenciais hoje e no passado;

confrontar as diferentes explicações individuais e coletivas, inclusive as de caráter histórico, para reelaborar suas idéias e interpretações.               

Esses balizadores não dizem, nem devem dizer, que devemos ensinar MRU, depois MRUV, em seguida vetores, depois movimento circular, etc. Isso vem nas apostilas e estas escolhas é que devem ser pensadas. O que deveria ser pensado pelos educadores (não digo que seja fácil fazer isso, pelo contrário) é “como fazer que meus alunos e alunas percebam a ciência como construção, como atividade humana?”, “que atividade devo usar para atingir este fim?”, por exemplo. E para chegar neste objetivo específico “quanto de matemática eu precisarei?” Esta seria uma pergunta bem útil numa sala de aula de ensino médio. A matemática não vem acoplada a física na minha visão. Como disse no começo creio que seja possível sim ensinar física no ensino médio e fundamental sem matemática, mas o pensamento matemático é fundamental para a vida em nossa sociedade, os estudantes/cidadãos serão beneficiados ao longo da vida se conseguirem fazer abstrações matemáticas, realizar contas, perceber que uma determinada promoção não é tão atraente como aparece na propaganda, entender uma notícia de jornal e até acompanhar melhor seu extrato bancário. A matemática esta intrincada em nossa sociedade. O que não acredito é que devemos usar este argumento para encher a física de matemática. Desta forma, creio eu, não se aprende nem física e nem matemática. A matemática pode estar imbricada tanto quanto se queira nas aulas de física de acordo com os objetivos propostos, de acordo com a escola, com o público, etc. Não se trata então de discutir se A física deve ou não ter matemática, imagino que a discussão seja sobre o quanto de matemática precisamos para atingir nossos objetivos e estes objetivos devem estar bem claro aos estudantes para que não pareça uma escolha arbitrária.

Minhas experiências me levaram a ter estes pensamentos sobre a matemática na física. O conhecimento físico pode causar grande impacto nos estudantes e muitas vezes o pensamento acrítico sobre a matemática faz com que os conteúdos de física fiquem escondidos atrás dos números e letras que simbolizam a matemática na lousa. É preciso então, desvelar a física antes, apresentar o conhecimento físico da forma encantadora que lhe é natural. O passo seguinte pode ser aprofundar os conhecimentos e aí sim, a matemática pode aparecer para que as conclusões mais sólidas façam sentido para os estudantes.

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