Rosi conta como foi torturada na USP

Rosi não estava na reitoria naquela madrugada. Mas isso não a impediu de ser presa. “Em vários momentos achei que fosse morrer”

30 de Novembro de 2011 às 12:55

Alceu Castilho

Rosi não estava na reitoria naquela madrugada. Uma semana após a ocupação do prédio da Cidade Universitária pelos estudantes, ela cedera a barraca para um casal de amigos que visitava a ocupação. Dormiu no conjunto residencial dos estudantes, o Crusp, a poucos metros da reitoria. Mas isso não a impediu de ser presa, após uma decisão judicial que determinou a reintegração de posse do prédio.

A estudante de 25 anos, nascida no Paraná, foi uma das 73 pessoas detidas por um aparato de 400 policiais – da Tropa de Choque e da Cavalaria (PM), do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do Grupo de Ações Táticas Especiais. Era o dia 6 de novembro, quase manhã de terça-feira. Profissionais de imprensa, informados da ação, acompanhavam a movimentação policial antes mesmo de os estudantes perceberem o cerco ao prédio.

Vários helicópteros (só um da PM) sobrevoavam o local. Rosi acordou assustada com o barulho e com a luz. A janela de seu quarto estava iluminada, mas ainda estava escuro. Ela desceu e foi ao prédio da reitoria. “Lá embaixo, os PMs impediam as pessoas de sair, inclusive as que tinham que ir trabalhar”, conta a estudante de Filosofia – hoje no terceiro ano da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Humanas, a FFLCH.

O Crusp também foi atacado. A polícia jogou uma bomba de gás lacrimogêneo (o que pode ser visto no vídeo abaixo)

nos corredores da moradia estudantil e reprimiu repórteres do Jornal do Campus, o jornal-laboratório do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP). Uma repórter tentou registrar imagens, mas não teve a mesma liberdade que veículos da grande imprensa.

– Chegando próximo à reitoria, eu comecei a tirar fotos em frente do cordão de isolamento da polícia, para registrar o que acontecia. Havia barulho de coisas sendo jogadas, quebradas. Nisso apareceu um policial por trás de mim, apontando uma arma de grosso calibre. Eu fiquei paralisada. Na minha frente estava o cordão de isolamento. Atrás, um cara armado.

Exatamente esse policial se aproximou de Rosi, pegou em seus braços, disse a ela que estava detida e a mandou deitar no chão.

– Chegaram mais dois PMs, que já me jogaram no chão para me imobilizar. Comecei a gritar, já que eu não estava lá dentro e eles não tinham justificativa legal para me deter. Eu só estava filmando! Foi quando um deles falou: “É melhor levá-la pra dentro”.

DENTRO DO PRÉDIO

A estudante (de 1m 59 e 60 kg) conta que, na delegacia, falaram que ela foi presa por ter tentado entrar na reitoria. “Como eu vou entrar em um lugar cheio de polícia, passando pelo cordão de isolamento?”, questiona.

Rosi foi levada para a frente da reitoria – arrastada. Ela conta que os policiais quebraram o vidro e entraram. Era uma sala escura. Não havia nenhum aluno. Só policiais. Homens. “Alguns estavam mascarados”, conta, “com pano embaixo do capacete”.

– Lá, me colocaram de pé e me mandaram deitar no chão. Como eu não fiz imediatamente o que me pediram, porque eu estava em estado de choque, eles chutaram minha perna, que ficou roxa.

Após levar o chute na perna, Rosi foi atirada ao chão, de bruços.

– Quando me jogaram no chão, um homem sentou nas minhas pernas, próximo ao meu bumbum. Outros dois sentaram no meu tronco, pressionando meu corpo no chão com o joelho. Havia vários policiais em volta, fazendo uma roda. É que, como eles estavam ao lado do vidro, se alguém estivesse passando por ali poderia ver.

A única visão que a estudante tinha era das botas. A sala estava toda escura. Ela calcula que havia uns 12 homens ali, “todos para imobilizar uma mulher”. Falaram a ela que iam levá-la presa e botaram um lacre em suas mãos. “Também pegaram minha câmera, roubaram o cartão de memória e a quebraram”. Eram aqueles lacres de plástico, com buraquinhos. “Provavelmente não tinham algemas para prender todo mundo”.

A TÉCNICA DO “PORCO”

A partir daí começou um período marcado pelo que ela chama de “requintes de tortura”. Os relatos chocaram os advogados que estão cuidando do caso:

– Nesse momento os policiais apertaram meu pescoço e taparam minha boca e meu nariz. Sou asmática. Quase desmaiei. Eles são sádicos, riam de mim, falavam que eu não ia sair dali. Eu gritava de dor e batia as mãos no chão, e eles falavam: “Você está pedindo arrego?”.

Ela pensava que ia morrer. “Em vários momentos achei que fosse morrer, principalmente por falta de ar, asfixiada. Que iam alegar que eu morri no meio do movimento. Eles não pouparam esforços. Era um clima de criar terrorismo”.

Rosi não conseguiu falar nada. E, mesmo assim:

– Um deles pegou na minha nuca, bateu várias vezes minha cabeça no chão, na parte do couro cabeludo, para não deixar hematoma. Eu tentava respirar e não conseguia. Aí mordi a mão do PM que tapava minha boca e nariz. Quando fiz isso, eles me falaram: “Ah, então você quer conhecer o porco, você conhece o porco?”.

O porco era uma espécie de bolacha de plástico, um material muito resistente que enfiaram em sua boca. Era um objeto achatado, conta com detalhes a estudante, que a impedia de falar e de respirar pela boca. “Um típico instrumento de tortura, até porque eu tenho dificuldade de respirar pelo nariz”.

Ela ficou com o tal “porco” na boca enquanto eles recomendavam: “É melhor ficar quieta, senão vai ser pior”. Enquanto isso, puxavam sem cessar seu braço para trás, ao mesmo tempo em que pressionavam ainda mais seu corpo contra o chão.

– Pensei que não havia mais ninguém lá dentro, que todo mundo já havia sido retirado e que iam fazer o que quisessem comigo. Depois eu soube que tinha uma sala ao lado, onde as meninas ouviram tudo o que aconteceu ali, elas são testemunhas. Onde eu estava não tinha uma mulher, ninguém.

Após vários minutos nessa situação, prenderam Rosi com um lacre, com as mãos pra trás. Apertaram muito forte e a levantaram do chão – pelos cabelos. Somente então retiraram o “porco” de sua boca e a levaram pra outro lugar, mais iluminado.

NA MIRA DA IMPRENSA

A iluminação revelaria as marcas da tortura. Com dor no braço, viu que ele estava roxo. E reclamou de dor. Ela faria muito mais tarde o exame de corpo de delito, obrigatório para os 73 estudantes detidos – somente 21 horas após a reintegração de posse.

– Os PMs me arrastaram para um corredor iluminado. Reclamei que meu braço doía muito. Eles olharam e falaram que realmente estava muito apertado. Pegaram uma faca enorme, pediram pra eu ficar quieta, para não cortarem meu braço, e cortaram o lacre.

Nesse momento começava outra luta de Rosi: contra a indiferença da imprensa que cobria os eventos na USP. Os dias anteriores tinham sido marcados por conflitos entre os estudantes e repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Havia provocações de ambos os lados. Do lado da imprensa, a ofensa recorrente era a de que todos eram “maconheiros”. Os estudantes criticavam a imprensa “burguesa”, vendida – e nada independente.

– Nisso passou um repórter da Globo, o primeiro a chegar no local. Ele fez toda a cobertura da desocupação. Quando eu o vi achei que era minha salvação: comecei a gritar e falar o que estava acontecendo. Ele me olhou com o maior desprezo e passou direto. Estava mais preocupado em filmar a reitoria!

A estudante diz que a emissora fez um acordo de exclusividade com os policiais. “Não foi à toa que a Rede Globo foi a emissora que mais atacou o movimento”, teoriza.

Mesmo assim, conta ela, alguns cinegrafistas filmaram algumas cenas que lhe servem de provas. As imagens do Jornal Nacional mostram-na reclamando da mão machucada. “Mas não me colocaram falando o que tinha acontecido, a violência contra mim eles não colocaram”, reclama.

Diante da indiferença dos repórteres, um policial ainda falou para ela: “Viu, não adianta nada você reclamar!” E ordenou: “De pé. Fica de pé!”.

– Eu não conseguia ficar de pé, mas eles queriam que eu ficasse. Um PM pegou o cassetete e apertou contra a minha garganta pra eu ficar em pé, junto à parede. Minha garganta desde então está inflamada e estou rouca.

A CHEGADA DA POLICIAL

Foi quando chegou uma policial, loira. A estudante diz que pode identificá-la no processo. Até porque eram 25 mulheres presas entre 400 policiais – mas apenas três policiais mulheres. E, entre essas três, aquela era a única loira.

– Achei que ela fosse ter o mínimo de sensibilidade. Aí aproveitei para falar para o PM: “Você vai me bater de novo?”. Nisso ela chegou, tirou ele de lá e falou: “Ele não pode te bater, mas eu sou mulher e posso”. Pegou na minha blusa e me jogou duas vezes contra a parede. Reagi com o cotovelo e ela saiu.

Mas os policiais continuaram por ali.

– Eles continuaram em volta de mim. Essa loira veio em seguida com minha máquina dentro da caixinha. Pensei: “Olha, que gentileza”. Mas estava quebrada e sem o cartão. A policial ainda me falou: “Se você colaborar eu vou te levar junto das meninas, senão você vai ficar aqui com os meninos, viu?”.

“SÓ UMA LOUCA GRITANDO”

Rosi foi levada para a sala, onde as demais 24 mulheres detidas estavam sentadas no chão, com vários policiais no recinto. Eles tapavam o vidro com escudos para que, do lado de fora, não pudessem vê-las. A quantidade de policiais era maior do que a de detidas.

Nesse momento a estudante ficou sabendo que, minutos antes, diante de seus gritos, os policiais diziam o seguinte às suas colegas, atemorizadas: “Não se preocupem com os gritos, é procedimento normal”. Outro policial deu uma explicação diferente: “Não é nada, só uma louca que entrou gritando”.

Pelo relato de suas colegas, Rosi ficou cerca de 30 minutos sozinha com o grupo de PMs – sem testemunhas diretas, sob a tutela do Estado.

– Ficamos horas nessa sala e começaram a me ligar. Eu atendi e disse que estava lá dentro. Contei que estava passando mal, que precisava da minha bombinha. Só nesse momento eles acreditaram que eu tinha asma. Vinte minutos depois trouxeram minha bombinha, que meu namorado levou. Depois me mandaram desligar o celular e ficamos incomunicáveis.

A estudante conta que havia vários policiais militares sem farda, à paisana, filmando os rostos de todos. “Todos eles estavam sem identificação, dentro e fora da reitoria”, afirma. Elas reclamaram desse detalhe, mas a policial loira perguntou: “O que você entende de Polícia Militar pra saber o que PM pode ou não pode?”.

“VOCÊ ESTAVA LÁ, VOCÊ ME AGREDIU”

No 91º Distrito Policial, na Vila Leopoldina, Rosi foi atendida por uma delegada.

– Tentei falar para ela o que aconteceu comigo, dizendo que eu nem estava na reitoria naquele momento. Ela me disse que o questionário partia do pressuposto de que eu estava lá dentro, e que não havia uma lacuna onde ela pudesse relatar o que queria falar.

Então a estudante resolveu ficar em silêncio – declarar somente em juízo. Quando saiu da delegacia deparou-se com um policial gordinho, de olhos azuis. Como algumas meninas estavam fumando, ele queria colocá-las logo dentro do ônibus.

– Questionamos isso e ele me disse: “É pra você acatar, que você conhece minha força”. Eu não aguentei e disse: “Então você estava lá, seu filho da puta, você me agrediu”. Depois disso ele desapareceu. Não o vi mais.

Orientada pelo advogado, Rosi diz que tentou registrar a agressão em um boletim de ocorrência, mas a delegada teria se negado a registrar. “E ela teve a pachorra de dizer depois, em entrevista, que nenhum estudante alegou ter sido agredido”.

Sobre o motivo do protesto político na reitoria, a estudante rejeita a ideia de que os estudantes estavam ali somente para defender o direito de fumar maconha:

– O que defendemos é o direito de ter uma universidade de fato pública e aberta, para que as pessoas não tenham suas bolsas revistadas ou apenas pelo fato de serem, por exemplo, negras. E polícia na universidade põe em risco o direito mais elementar numa democracia, que é o de ir vir.

MEDO E INDIGNAÇÃO

A estudante ainda tem medo.

– Achei que ia sair incólume, mas tenho tido sonhos com polícia todas as noites. Nem que sejam breves. Eles me batendo, como remake, eles me parando, eu sendo revistada, amigos meus sendo abordados e eu assistindo. Vou tentar marcar uma psicóloga.

Ela diz que alguma coisa mudou em sua vida. Na USP, mudou até o jeito de andar. “Agora ando assustada, olhando para os lados. Não ando mais sozinha pelo campus. E as pessoas ficam olhando”. Por isso prefere ficar em casa. “Penso que pode ser um deles, que podem me reconhecer. Você acaba ficando com mania de perseguição”.

Rosi já trabalhou como babá, monitora escolar, bóia-fria, frentista de posto de gasolina, em fábricas, em telemarketing, no comércio. Hoje, é professora na rede pública estadual. Dá aulas de filosofia para crianças. “Quando eu voltei para a escola as crianças falaram: ‘Eba, a professora foi solta!’”.

Ela nasceu no Sul. É filha de militante político (do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST). Morou em acampamentos, durante a infância, e isso lhe soava algo natural. Chegou à USP porque lhe parecia um lugar livre, “onde os jovens podiam pensar livremente”. “Era tudo engano”, diz.

Quando seu pai ficou sabendo do que aconteceu, queria levá-la de volta para o interior paranaense. “E lá eles tinham as notícias da Rede Globo e da Bandeirantes, que trataram a gente como criminosos”, conta. “Mas ele sabe como é isso”. No Crusp, ganhou a presença constante de seus companheiros de militância, de seu namorado e amigos.

Rosi diz que sempre teve uma veia crítica. “Não sou xiita ou radical, apenas uma estudante que se indigna, que quer uma universidade que não seja só para ela. A USP pra mim foi um sonho, e eu queria que outras pessoas pudessem compartilhar isso”.

Militante do grupo trotskista Práxis – Socialismo ou Barbárie, ela considera-se “uma indignada”, que gosta de estudar, de fazer política e de morar no Crusp. Está mais resguardada, para não ser presa, mas já voltou a militar – nesta segunda-feira, compareceu à audiência pública sobre o tema na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

– Espero que eu não seja jubilada e possa prestar concurso para dar aula como professora efetiva. Não cometi nenhum crime, foram eles os criminosos, desejo não sofrer nenhuma represália, principalmente da própria universidade.

Ela reconhece que seu caso pode ajudar na luta de mulheres que sofrem violência. “Sem dúvida foi um abuso diante da minha condição de mulher. Se fosse um homem não seriam tão enfáticos”.

Mas não quer se considerar uma vítima, individualmente. “É todo um movimento”, define. “Não foi em vão. Ainda bem que o movimento está vivo e dando uma resposta a tudo o que aconteceu. Assim ganho força para falar”.

DIANTE DA IMPRENSA – PARTE 2

Duas semanas após a prisão em massa na reitoria, no dia 22, os estudantes da USP realizaram um ato no vão livre do Masp. Era uma “aula pública de democracia”, em resposta ao governador Geraldo Alckmin – para quem os estudantes é que deveriam ter aulas de democracia.

Em sua fala, Rosi tomou o microfone para protestar – com veemência – contra a mídia “podre” que, segundo ela, ignorou seu caso. “Eles não quiseram publicar minhas denúncias de tortura”, bradava. Ela diz que expôs o que a mídia não quis saber o que de fato aconteceu na USP – mas sim caluniar o movimento e seus participantes.

Minutos após eu a procurei. Ela estava com seu namorado, calma, ambos abraçados, escutando os demais discursos. Apresentei-me e demonstrei interesse em publicar toda a história – conforme o seu relato. Peguei seu telefone e marcamos a entrevista.

Eu não fui o primeiro. Dias antes, Rosi dera entrevista a um repórter da Folha de S. Paulo. A transcrição do depoimento – gravado – foi a base do relato publicado na agência Carta Maior e (com vários adendos exclusivos) nesta entrevista.

Durante o depoimento à Folha, ela chorou. Foi o mais difícil. Agora está mais calma – e mais confiante por eu ser, além de jornalista, estudante da USP. Tanto que permitiu publicar seu nome – na Carta Maior, apareceu como Nadya.

A reportagem da Folha, porém, nunca foi publicada. “Seria importante sair num jornal de grande circulação. Mas não quiseram”.

Era contra a linha editorial.

Alceu Castilho é jornalista e autor do blog Outro Brasil.

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