Pedagogia da Astronomia

Este texto, com este título, pretende ser mais que um simples trocadilho com o livro do Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia. Ele pretende introduzir de maneira séria as relações dialéticas que vejo entre as lições de humildade que a astronomia pode nos dar e as lições de superação e força que Paulo Freire nos trouxe.

Foi quando, pela enésima vez, vi o vídeo do Carl Sagan, Pálido Ponto Azul, que comecei a pensar nestas relações.

Para seguir nesta leitura é preciso que, você leitor/a, veja o vídeo para continuarmos essa conversa.

Começo a perceber que não é suficiente atingir a emancipação completa, a libertação da opressão, se não tomarmos consciência do sentido desta libertação numa escala um pouco maior. Quem somos nós no universo? A consciência de que somos uma simples espécie que foi criada pelo acaso, que vive num simples planeta do Sistema Solar, regido por uma simples estrela, nosso Sol. E que mesmo esta estrela é apenas uma entre outras bilhões de estrelas da Via Láctea, que é apenas uma simples galáxia entre outras bilhões de galáxias que existem no Universo. Ter esta consciência é essencial para a emancipação de qualquer sujeito.

Isso porque estamos entendendo a emancipação não só como libertação física dos sujeitos, mas como libertação da mente. Libertação da consciência do opressor que reside e resiste no oprimido.

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É preciso descobrir o que existe por trás das coisas, das formas e dos conceitos…

Para atingir essa libertação é preciso, como já nos disse Paulo Freire (1988), nos perceber como seres incompletos, inconclusos e eu acrescento, como seres que procuram respostas no universo infinito.

É preciso pensarmos dialeticamente no micro e macro sistema de emancipação.

No micro, pensar nas amarras do sistema opressor que nossa sociedade enfrenta, o capitalismo, onde a ilusão das oportunidades iguais, a meritocracia, a exploração da força de trabalho do outro em nome do lucro, a propriedade privada etc., massacra um sem número de pessoas no mundo e as vantagens deste sistema são para uns poucos, os detentores dos meios de produção social, os exploradores. A emancipação deste sistema virá com a luta, com o fim deste sistema para a construção de outro. Um sistema em que a produção social esteja nas mãos dos trabalhadores!

No macro sistema de emancipação, estou falando em perceber nossa finitude e pequenez no cosmo. Perceber que estamos limitados no tempo e no espaço. Perceber que o conhecimento do universo nos coloca diante de uma questão fundamental, “quem sou eu?”, e a resposta para esta questão já vou aventada por muitas ceitas, religiões e filosofias, mas prefiro imaginar que ainda estamos longe dela, mas que é a astronomia que nos dá a direção. Como o próprio texto do Carl diz, não existe indício nenhum de que a “ajuda” virá de outro lugar. Ou seja, somos nós por nós mesmos.

Que baita responsabilidade hein? Se a única espécie no universo (que sabemos até agora) que consegue se colocar estas questões.

(até agora) A Terra é o único planeta com vida. E que nós, seres humanos, somos aquele Ser que consegue olhar para tudo isso e contemplar a obra da natureza, do acaso. Somos o Ser que por meio da curiosidade começou a explorar outros mundos em busca de um sinal de que não estamos sozinhos. Fomos atrás de companhia, mas não sabemos o que vamos encontrar… Contraditoriamente a todo esse avanço, não sabemos ainda conversar entre nós mesmos. Não percebemos que existe vida aqui mesmo, no planeta Terra. E não conseguimos respeitar esta vida.

E acredito que só a percepção dialética entre esses dois sistemas de pensamento, o micro e o macro, vai alcançar a verdadeira emancipação dos sujeitos.

Ter apenas a percepção do nosso lugar no universo sem entender as amarras que nos prendem os pés aqui mesmo na Terra, é alienante.

Porém fazer a luta pela emancipação das pessoas aqui na Terra, não nos traz para uma consciência completa.

O que estou propondo então é a relação entre estas duas percepções para que atinjamos a emancipação completa dos sujeitos.

Referências:

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 18ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

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