Mais articulada, cultura da periferia de SP ganha visibilidade

15/07/2012 – 02h30
GUILHERME GENESTRETI e RAFAEL GREGORIO da Folha de SP

Passa das 21h e as mesas já estão cheias quando o primeiro poeta assume o microfone no Bar do Zé Batidão. O time de futebol mais popular da cidade disputa sua primeira final da Libertadores, mas a TV está desligada. “Aqui é a ‘La Bombonera’ da poesia periférica, mano!”, brinca Sergio Vaz, 48, escritor e fundador do Sarau da Cooperifa, citando o estádio do argentino Boca Juniors.

Sem investimentos públicos ou privados, a Cooperifa completa 11 anos em outubro, oito deles no Jardim Guarujá, na zona sul. O pioneirismo se tornou referência e inspirou projetos semelhantes em outros bairros afastados do centro. Nas contas de Vaz, são mais de 60 saraus hoje na capital.

A profusão de atrações não se resume à poesia. Há muita música –principalmente hip-hop, samba e reggae–, teatro, circo e dança. Iniciativas que atraem, cada vez mais, as atenções de quem mora nos bairros mais centrais.

“A dinâmica cultural não é nova. O que é novo é a visibilidade desses movimentos”, explica Frederico Barbosa, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que estuda o acesso à cultura no país.

Christian von Ameln/Folhapress
Integrantes do grupo de dança Sansacroma, no Capão Redondo, zona sul
Integrantes do grupo de dança contemporânea Sansacroma, nos entornos do bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo

Segundo ele, iniciativas como os Pontos de Cultura, lançados em 2004 pelo governo federal, ajudaram a dar fôlego às produções periféricas. “Essas políticas de fomento deixaram uma margem de autonomia muito grande para os grupos.”

Rose Hikiji, professora de antropologia da USP e estudiosa da cultura da periferia, concorda. “Por muito tempo, as políticas públicas tentaram tornar a cultura acessível. Houve uma inversão. Percebeu-se que já havia práticas culturais enraizadas, como o samba e as danças de rua, que precisavam ser desenvolvidas.”

Para Hikiji, o momento é de “instigar o centro”. “A favela sempre interessou para o cinema, para a literatura, mas, em geral, a produção era feita a partir do olhar da elite. Agora, é pela ótica da própria favela, fora dos estereótipos.”

“O momento é bom, mas a movimentação cultural sempre existiu”, diz Vagner Souza, 27, um dos organizadores do sarau Poesia na Brasa, que ocorre há quatro anos na Vila Brasilândia, zona norte.

Segundo ele, o que mudou, além da visibilidade, foi o contato entre os movimentos. “Antes, a Brasilândia não sabia o que acontecia no Capão. Hoje os saraus se conversam, têm uma solidariedade graças às redes sociais.”

BOTECO E CENTRO CULTURAL

Diante da ausência de espaços culturais, muitos desses recitais ocorrem em bares. “Esse tipo de estabelecimento acaba sendo o único espaço de socialização da periferia”, afirma Dennis de Oliveira, professor da USP e especialista em comunicação popular.

De acordo com a jornalista Tatiana Ivanovici Kwiezynski, 33, que criou em 2008 a rede DoLadodeCá para divulgar ações na periferia, o sarau transformou o boteco em centro cultural. “Não faltam histórias de moradores que voltavam do trabalho, viram pela primeira vez um recital e tiveram suas vidas modificadas”, diz.

Mas, apesar da falta de espaços, a arte na periferia começa a se beneficiar de ações mais afortunadas, com sede, programação fixa e financiamento.

O Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso capitaneia o time da fartura. Espaço municipal inaugurado em 2006 na Vila Nova Cachoeirinha, na região norte, o CCJ tem biblioteca, anfiteatro, teatro de arena para mil pessoas, estúdio de gravação musical e ilhas de edição em vídeo. Só neste ano, receberá cerca de R$ 5,5 milhões.

No outro extremo está o Sarau do Binho. O bar em que era realizado havia oito anos, no Campo Limpo, zona sul, foi fechado em junho. Desalojado, Rob-son Padial, o Binho, 47, leva o evento para um lugar novo a cada segunda-feira. “Começaram alegando que não tenho licença, depois, estacionamento, depois, ligação com gás, depois, que o banheiro não condiz com a planta.”

Segundo a Subprefeitura do Campo Limpo, o estabelecimento não tinha licença para funcionar naquele local. “O subprefeito se comprometeu, desde que o zoneamento do novo endereço permitisse a atividade, a dar orientação técnica para agilizar a regularização”, afirmou em nota.

Neste mês, o sarau ganhou um financiamento coletivo na internet. A ideia era angariar verbas para quitar dívidas, estimadas em R$ 8.000. A arrecadação já supera os R$ 7.000.

UNIÃO E AUTOAFIRMAÇÃO

A rede de fomento que alimenta a cultura periférica é amparada, principalmente, por microcrédito e agentes culturais engajados. No Jardim Maria Sampaio, zona sul, o Banco Comunitário União Sampaio faz circular em 30 comércios uma moeda chamada “sampaio” e empresta a juros de 2%.

O poeta Luan Luando tomou emprestados R$ 2.000 para editar 500 unidades do seu primeiro livro, “Manda Busca”. Ao preço de R$ 15, a obra já vendeu 450 unidades, o suficiente para repor o custo e ainda gerar ganhos.

“Luan Luando é o best-seller da quebrada!”, diz Thiago Vinicius de Paula da Silva, 23, que se define como articulador cultural e é ligado à agência Solano Trindade. Idealizada em 2009, a entidade atua com força desde novembro, quando lançou sua própria moeda, chamada “solano”.

Com 200 agentes, a instituição ajuda os artistas em três frentes: fomento, produção e comercialização.

“Todo mundo fala em classe C, mas ninguém sabe falar com essas pessoas”, diz Tatiana Ivanovici, que já ajudou marcas como a Kaiser a articular campanhas nos subúrbios da cidade.

As empresas, aliás, estão de olho na periferia. Vivo e Adidas têm seus logotipos expostos na quadra da Unas (União de Núcleos, Associações e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Clímaco), na zona sul, onde ocorre todo mês a Balada Black Sem Álcool, que tem apoio do site Catraca Livre (catracalivre.com.br) e patrocínio da Ambev, gigante multinacional do setor de bebidas alcoólicas.

“Nossa balada nasceu em um CEU, e lá não podia ter álcool. Quando mudamos, resolvemos manter a proposta”, explica o DJ Reginaldo José Gonçalves, 35. Ele e Ivon Alves, 34, o Ivonverine, reúnem de 500 a 800 jovens ao som de pancadões eletrônicos com pop internacional e hip-hop.

Por outro lado, há casos em que a visibilidade incomoda os criadores dos projetos. O Samba do Monte, no Jardim Monte Azul, na zona sul, é organizado desde 2008 por Jaime “Diko” Lopes, que tem a missão de exaltar as raízes paulistanas do gênero. O evento, que chegou a juntar 800 pessoas por edição, está interrompido até 2013. “Estava ficando difícil transmitir qualquer mensagem, então paramos antes que se tornasse só mais uma festa”, conta ele.

Outra vítima do próprio sucesso é o projeto Samba Autêntico, cujo fruto mais vistoso é a Rua do Samba. Realizada no último sábado de cada mês desde 2002, a roda já reuniu 5.000 pessoas na avenida São João, segundo seu idealizador, o sambista e sociólogo Tadeu Augusto Matheus, 39, o T. Kaçula.

O projeto está há três meses parado. “Chegamos ao local e fomos impedidos de atuar por policiais”, diz. Em nota, a Subprefeitura da Sé informou que não autoriza mais a realização da Rua do Samba por causa da venda de bebidas alcoólicas.

Kaçula concentra-se agora em terminar as obras de sua sede, o Instituto Cultural Samba Autêntico, em seu bairro natal, a Freguesia do Ó, zona norte. “Queremos construir teatro e auditório e reforçar nossa biblioteca.”

Sergio Vaz, da Cooperifa, chama o momento atual de “primavera periférica”, em alusão às movimentações recentes no mundo árabe. “É a mesma efervescência cultural que a classe média viveu nos anos 1960 e 70. Canibalizamos o que veio do centro. Fizemos a antropofagia da periferia.”

O escritor Ferréz, que despontou no fim dos anos 1990 e começo dos anos 2000 com livros como “Capão Pecado”, não vê este como a melhor fase da cultura da periferia. Mas ressalva: “É o momento menos nebuloso. A gente já viveu cercado de fumaça. Agora, sabe com quem conversar, como chamar a atenção para conseguir as coisas”.

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