Ciências Naturais e Emancipação

(Para ler mais sobre o assunto veja o post Alfabetização Científica e Questionamento na Escola)

Procurei no dicionário Paulo Freire (2010) o verbete Ciências para começar este texto e não encontrei. Logo pensei que talvez não estivesse na letra C e sim na letra N. Lá encontrei o que procurava. O verbete correto era Natureza. Experimentar esta pequena epifania me fez ter a impressão de que estava começando a compreender o pensamento freireano.

Para apresentar as ciências naturais como atividade que critica o senso comum, mas que busca e mantém o que nele existe de bom senso, recorro a filosofia da praxis de Gramsci, termo que ele encontrou para iludir a repressão da prisão caso usasse materialismo histórico e dialético. Ela se constrói como crítica a todo pensamento precedente, ou seja, às filosofias e ao universo cultural existente (MOCHCOVITCH, 1992 p. 17).

Nos interessa a crítica ao senso comum que deve considerar o bom senso, nas palavras de Gramsci, não se trata de introduzir uma ciência na vida individual de todos, mas de inovar e tornar crítica uma atividade já existente (GRAMSCI apud MOCHCOVITCH, 1992). No sentido de inovar e tornar crítica uma atividade existente, podemos pensar que não seja possível sem trazer o questionamento para esta atividade. Quando a atividade nasce pronta para os estudantes a crítica se torna muito mais improvável.

A visão de Paulo Freire sobre a Natureza (ciências naturais) herdada claramente de uma visão marxista, entende a natureza como palco (suporte) que é moldado pelo Ser Humano através do trabalho. Neste movimento de mudar social e historicamente a natureza o homem e a mulher vão fazendo cultura.

A análise da natureza traz consigo uma grande carga de senso comum, principalmente nas escolas. O papel das ciências naturais, através da arte do questionamento e da dúvida, é criticar este senso comum e entender o que nele existe de bom senso.

Paulo Freire considera basilar […] a noção de que o saber epistêmico, científico, não resulta de uma ruptura com o senso comum, mas de um avançar com este saber na direção de uma curiosidade e de rigorosidade metódica intencionadas pela busca da “razão de ser” dos fenômenos e dos seres em intenração (FIGUEIREDO, 2007 apud STRECK, et al, 2010).

Pensando na ideia do homem e da mulher que moldam a natureza através do trabalho formando cultura, entendemos que esta transformação dá pertencimento (empoderamento) para estes Seres no mundo. Eles passam a não estar apenas em contato com a realidade (neste caso natureza = mundo = realidade), mas estar no e com o mundo. E esta assunção emancipa.

Existe uma diferença aí entre o universo humano e o universo natural, o primeiro regido pela intencionalidade, pela construção e reconstrução de cultura, e o segundo pela necessidade. O ensino de ciências naturais e a dialética bom-senso/senso comum, através do exercício da dúvida e do questionamento pode fazer a transição suave entre estes universos.

O Ser Humano que está alienado (com trabalho pertencente ao outro), que não se questiona, está vivendo apenas em função da satisfação de suas necessidades, sendo assim está apenas no mundo natural, no suporte do mundo. O exercício da dúvida na escola e do questionamento da natureza na área de ciências naturais pode tirar o homem e a mulher do papel de realizador de necessidades imediatas para o papel de construtor e reconstrutor de cultura.

Referências

STRECK, D.R., REDIN, E., ZITKOSKI, J.J. Dicionário Paulo Freire. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

MOCHCOVITCH, L.G. Gramsci e a escola. 3 ed. São Paulo: Ática, 1992.

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3 comentários

  1. Oz, está ficando bem legal o texto!
    Eu acho que sua dissertação ficaria melhor alternando entre um texto mais impessoal na maior parte do texto, mas com trechos em 1a pessoa do singular para trechos mais pessoais, como por exemplo “Eu procurei no dicionário”… Não faz sentido dizer nós nesse caso, ninguém procura no dicionário acompanhado, =)
    Quando forem interpretações de questões polêmicas, em que o Menezes concorda com você, aí acho que cabe bem a 1a pessoa do plural.
    No resto dos casos, por questão de estilo, acho que fica melhor um texto impessoal, não pra fazer “bonito” pro meio acadêmico, mas por que as ideias ficam mais claras. É importante na dissertação separar o que é o suposto “consenso” da área, as interpretações que você herdou de outros autores e o que é sua contribuição pessoal.
    Um abraço e boas festas!

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