Educação e Política ou Educação-política

Obviamente este tema pede uma discussão muito ampla, principalmente a questão da formação política dentro da educação escolar, contudo vamos fazer aqui uma breve discussão de alguns pontos que considero relevante sobre estes conceitos.

Entendemos que a política não tem que ser inserida na escola, a escola é política, ela é um componente importante do processo político da nossa sociedade. Pode, inclusive, ser transformada através da política em meio de conquista de massa de manobra, formadora de mão-de-obra barata e/ou especializada, formadora de intelectuais orgânicos, tanto para a classe dominante quanto para a dominada etc.

Dos sistemas superestruturais como saúde, segurança, esporte, religião etc., a educação é um dos poucos que abarca virtualmente todas as pessoas. Desta forma podemos imaginar o poderio político que o sistema educacional possui.

Se a política não for tratada de maneira explícita na escola, será da pior maneira, será tratada de maneira implícita, nas transações burocráticas, nas decisões autoritárias, nas mudanças estruturais internas e externas, enfim, acontecerá de alguma forma.

Paulo Freire ao fazer uma meta-análise sobre a relação entre política e educação diz:

Aos poucos, como Paulo Freire relata, a educação popular foi se tornando “ato político”: “Houve um momento na minha vida de educador em que eu não falava sobre política e educação. Foi meu momento mais ingênuo. Houve outro momento em que comecei a falar sobre os aspectos políticos da educação. Esse foi o momento menos ingênuo, quando escrevi a Pedagogia do oprimido. No segundo momento, entretanto, eu ainda pensava que a educação não era política, mas que só tinha um aspecto político. Hoje, no terceiro momento, para mim, a educação é política. Hoje, digo que a educação tem a qualidade de ser política, o que modela o processo de aprendizagem. A educação é política e a política tem educabilidade” (FREIRE & SHOR, 1987, p. 75-76).

As vinculações entre política e educação não são novas e talvez estejam em todas as experiências escolares, contudo em alguns momentos elas aparecem mais explicitamente, como os círculos de cultura de Paulo Freire (2006), as experiências das escolas democráticas já citadas em outro texto deste blog, que remontam a Tolstoi no século XIX, a escola única de Gramsci, particularmente a “Escola de cultura e propaganda socialista” (GRAMSCI, 1987, p. 361-362 apud NOSELLA, 2005, p. 1), o Ginásio Vocacional aqui no Brasil (NEVES, 2010) e tantas outras.

Pegando a ideia de democracia e inspirado pela hipótese principal do livro de Elie Ghanem, Educação Escolar e Democracia no Brasil (2004), pensamos que o modelo atual de democracia que temos deve ser repensado e a reboque sua aplicação na escola. Não pode ser apenas a oferta de escola para todos ou a instalação de procedimentos eleitorais para gerir a escola (GHANEM, 2004), que vai tornar uma escola mais ou menos democrática.

É preciso que a própria política faça parte da escola de maneira natural, orgânica, com a democracia direta permeando e orientando as relações e decisões dos indivíduos e dos coletivos.

Neste sentido, uma escola nos moldes tradicionais, com estudantes sem nenhum poder decisório sobre a estrutura física da escola, sobre os componentes curriculares, sobre as rotinas da escola, não pode se dizer democrática, não serve.

Referências

FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. 3 ed. São Paulo: Centauro, 2006.

NOSELLA, Paolo. Gramsci e o ensino noturno. Site Gramsci e o Brasil. Disponível em: <http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=440> Acesso em: Junho 2012.

FREIRE P., SHOR, I. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

NEVES, J. O Ensino Público Vocacional em São Paulo: Renovação Educacional como Desafio Político – 1961 – 1970. 2010. 347 f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo. 2010.

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3 comentários

  1. Quando você diz “a escola é política”, o que está dizendo é, na realidade: “Eu, Osvaldo de Souza, acredito que a escola é política”.. Nada mais que isso! Não há nada aí além de retórica e a tua opinião..
    Quando você fala que se a política não for tratada de maneira explícita, será implícita.. Você esquece que em idade escolar, um aluno não leu ainda quase nada (na maioria das vezes não vai ler quase nada até o fim da vida), tem pouco ou nada pra debater, exceto sua própria experiência de vida.. O que acaba acontecendo na realidade objetiva é que o professor ensina ao aluno como analisar a própria experiência, quase sempre aplicando luta de classes em tudo.. Assim, longe de politizar o aluno, o que acontece é a inculcação na cabeça do aluno, da mesma cartilha a que o professor teve acesso..
    Aí precisamos nos perguntar o que é que esse professor leu, o que seus colegas e professores liam, quais eram suas opiniões..
    Quando você vê isso acontecendo na vida real, se não for a favor de “abrir a cabeça da criançada para lutar contra o capital”, certamente verá que a educação socio construtivista é nociva.. E se você perceber isso, mas for a favor da esquerdização do discurso desde a mais tenra idade, então nesse caso você é desonesto, isso deveria tipificar crime.

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