Alfabetização Científica e Questionamento na Escola

Começo este post com a hipótese de que uma forma de atingir a alfabetização científica é através do questionamento, do exercício da dúvida na escola.

Para atingir este fim é preciso que a proposta pedagógica da escola aponte nesta direção, é preciso uma postura ativa dos/das estudantes, mas essencialmente é preciso uma postura reflexiva e dialógica dos educadores e das educadoras. Sua função, nesta perspectiva, deixa de ser a de transmissor/a de conhecimento e passa a ser de mediador/a, sustentador/a das inquietações dos/das estudantes.

É natural uma certa vontade de dar a resposta pronta quando se sabe. Além disso existe uma certa dificuldade em dizer que não se sabe, que é preciso pesquisar junto.

Sobre isso, Paulo Freire (1985) nos diz que,

antes de qualquer tentativa de discussão técnica, de materiais, de métodos para uma aula dinâmica assim, é preciso, indispensável mesmo, que o professor se ache “repousado” no saber de que a pedra fundamental é a curiosidade do ser humano. É ela que me faz perguntar, conhecer, atuar, mais perguntar, reconhecer.

Precisamos de no mínimo um parágrafo para apontar o problema da expressão “alfabetização científica” como caracterizando apenas as ciências naturais. As ciências humanas também são ciências e no âmbito das escolas democráticas, libertárias, de resistência, onde as disciplinas perdem força para um currículo de arquitetura aberta, mais integrado, é importante ressaltar este problema. De fato, a proposta de alfabetização científica por meio da pergunta e do questionamento, que estamos defendendo aqui, passa por características próprias das ciências humanas, como o entendimento do contexto social da pergunta, a posição de quem faz a pergunta e sua influência na resposta, a questão da pergunta aberta que aponta para varias respostas e não limita, etc. Continuaremos utilizando a expressão “alfabetização científica” pensando principalmente nas ciências naturais, já que é oriunda desta área, mas deixemos claro as outras possibilidades que o termo pode sugerir.

Antes então, de nos questionar sobre como a alfabetização científica se dá, ou deveria se dar, temos que falar um pouco do porquê ela deva existir. Qual é, para nós, a importância da alfabetização científica?

A área de ciências naturais é, como todas as demais áreas do conhecimento na escola, uma construção humana e sendo entendida desta maneira é possível perceber suas idas e vindas na história, seus erros e acertos, suas tentativas de solução e destruição da vida humana e seduções ao capitalismo, gerando maiores lucros, etc.

A alfabetização científica é importante na medida em que – juntamente a outros conhecimentos importantes – empodera o ser humano para viver e atuar no mundo. Serve então para entender o funcionamento do mundo e das coisas do mundo e, detentor deste conhecimento, atuar de maneira crítica. Por isso a alfabetização científica deve ser acompanhada de uma formação humana crítica, no mundo.

O que a alfabetização científica pode trazer para o ser humano e sua vida?

O ser humano pode passar a se reconhecer mais neste sistema, se reconhecer como parte integrante e importante dele.

Pode deixar de ser apenas um usuário passivo das tecnologias criadas e passa a questioná-las. Pode também descobrir o custo, impactos ambientais, formas de produção e relacionar tudo isso para escolher melhor ou até decidir não escolher.

Pode passar a se questionar mais sobre eficácia milagrosa de produtos e serviços (o famoso “cientificamente testado e aprovado” das propagandas) e conseguir descobrir pela pesquisa e fontes confiáveis a verdadeira eficácia destes itens.

Passa a entender os mitos e mitologias como devem ser, criações humanas para diversão ou conforto existencial, podendo assim se afastar das ilusões de benefícios em outras vidas, para imaginar o que pode fazer de verdadeiro nesta vida.

Pode se tornar, por consequência, crítico do sistema do capital que hoje usa as tecnologias e os mitos citados como algumas das suas principais formas de exploração e lucro.

Em sua dissertação de mestrado Vitor Fabrício Machado de Souza (2012) escreve alguns capítulos sobre o significado da pergunta e seu uso no ensino de ciências. Em apoio a importância que estamos dando para o papel da pergunta na alfabetização científica, ele nos diz:

o ensino de ciências deve servir como meio de investigação, possibilitando habilidades do pensar científico que promovam a criticidade indócil como forma de pensar um problema, de elaborar hipóteses e justificativas, de usar a argumentação como capacidade de expressão de opinião e convencimento (Ibdem).

O exercício da dúvida e do questionamento na escola podem ser os motores da alfabetização científica crítica neste espaço. Isso fará mais sentido nas propostas pedagógicas que estiverem mais abertas para esta possibilidade, a possibilidade de questionar e não necessariamente obter respostas.

Um efeito colateral que aparece deste exercício é o desenvolvimento da capacidade argumentativa dos/das estudantes. Quando estes e estas se propõe a questionar, precisam desenvolver hipóteses, organizar dados, justificar o questionamento e argumentar em favor de possíveis respostas.

Diversos estudos apontam o desenvolvimento da habilidade argumentativa como indicador e promotor de alfabetização científica, por exemplo, Lucia Helena Sasseron, hoje professora da Universidade de São Paulo em sua tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Educação da USP, trabalha com a ideia de alfabetização científica na sala de aula e propõe diversos indicadores. Neste sentido coloca a argumentação como indicador e a define como todo e qualquer discurso onde educador/a e estudante apresentam suas opiniões em aula descrevendo ideias apresentando hipóteses e evidências, justificando ações e conclusões a que tenham chegado e explicando resultados.

Desta forma, os/as estudantes praticando o exercício da dúvida e do questionamento na escola podem desenvolver habilidades argumentativas importantes para a vida na escola e depois dela.

Aqui na Politeia como já trabalhamos com espaços de argumentação dos/das estudantes, este processo é retro-alimentativo. Espaços como assembleias, fóruns, comissões, etc., são propícios para o desenvolvimento da argumentação na escola o que contribui para a construção da argumentação apresentada anteriormente.

Retornando para a dúvida e finalizando, o exercício da dúvida e do questionamento é instrumental no sentido de promover a alfabetização científica e desenvolver a capacidade argumentativa, mas mais importante que isto, é sua capacidade de situar o sujeito no mundo como ser ativo e consciente de seu papel.

Sobre este papel mais filosófico da dúvida Moacir Gadotti em seu livro Educação e Poder: introdução a pedagogia do conflito (1989) nos coloca diante do Manifesto Filosófico (Manifeste Philosophique, vers une Philosophie de l´Éducation) escrito por ele e Claude Pantillon em 1976 em Genebra. E nele, uma longa discussão sobre o ato de duvidar e sobre o que chamaram de dúvida filosófica.

A dúvida filosófica se opõe radicalmente ao princípio da submissão passiva, de demissão ou de alienação, gerado pelas ideologias e dogmas que nos formam.

É a este princípio que a dúvida filosófica toma posição diretamente, a que se opõe radicalmente, ao qual decide derrotar. A dúvida é pois um ato de liberdade e de responsabilidade pelo qual um homem empunha, retoma a situação na qual vive, colocando-se como sujeito dela. Umato, não uma ação entre outras; uma maneira de se reerguer, de levantar a cabeça e fazer frente, caminhar e avançar. Se a dúvida significa agir como sujeito, podemos dizer como Descartes queduvidar é existir. E pouco importa que, contrariamente àquilo que desejava Descartes, não nos seja mais permitido sonhar com um refúgio tranquilo, nem esperar alcançar alguma verdade em si, definitiva e absoluta; pouco importa se toda a verdade fica doravante provisória, relativa, contestável, dimensionada pela nossa fragilidade e historicidade, se questões se sucedem às questões, as situações às situações, se ficamos sempre sendo. Nossa tarefa, nossa dignidade, nossa liberdade surgem quando, rompendo com o papel de expectador submisso, resignado, quando, abandonando o estatuto de objeto modelado pelos conformismos do momento, tomamos a decisão sempre inconfortável de fazer face e de nos situar (Ibdem).

Neste sentido, pensamos que os estudantes e as estudantes que não têm oportunidade de questionar, de duvidar, estão imersos num processo de alienação do sujeito. O ser humano é mais que um ponto material inerte no planeta, é também um marco histórico e político. Desta forma, estes seres humanos que não questionam não existem. Não existem como posição política no mundo.

Referências

FREIRE, P. Por uma Pedagogia da Pergunta. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

GADOTTI, M. Educação e Poder: introdução à pedagogia do conflito. 9 ed. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1989.

SOUZA, V. F. M. A Importância da Pergunta na Promoção da Alfabetização Científica dos Alunos em Aulas Investigativas de Física. Dissertação de Mestrado. Universiade de São Paulo, 2012.

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