V de Vingança e as pessoas que desligam a tv na hora do noticiário

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O texto do David Lloyde (Abaixo) me fez flutuar por um instante e me jogou no chão logo depois…

Me fez pensar que hoje eu sou daqueles que não desliga na hora do noticiário, mas não foi sempre assim. O que me fez mudar? O que faz as pessoas mudarem? O que leva à percepção do outro como outro de verdade, não como uma mera projeção ou intenção de si mesmo.

O dia de hoje teve altos e baixos como qualquer outro dia, mas quando esbarrei com o V de Vingança na livraria, me senti melhor, mais animado, comprei e queria começar a ler logo. Decidi ir para casa naquele instante. Na porta do shopping percebi que o céu desabava em forma de água, não dava para sair daquele jeito, estava de bicicleta. Voltei, procurei um banco e comecei a leitura ali mesmo.

Foi neste momento que li o texto do Lloyde, um instante antes do ponto final, fechei o livro num impulso e tive vontade de gritar. As regulações que nos são impostas e ensinadas ao longo da vida nos impedem de seguir cegamente nossos impulsos, quem não segue a risca estas regulações normalmente tem problemas na vida.

Olhei para a frente e estava justamente na frente de uma vitrine enorme que exibia uma moça fazendo yoga (?!) para usar o computador. Ela se contorcia toda e de todas as maneiras conseguia ficar de frente para a tela ao mesmo tempo que tocava com as mãos e os pés no teclado. De maneira alegre e descontraída.

Me perguntei o porquê de todos parecerem tão alegres e descontraídos. Deve ser minha condição emocional falando mais alto. Não, todos parecem mesmo muito alegres e descontraídos. Eles desligam a tv na hora do noticiário.

De repente uma mulher chega gritando para o marido que se encontrava sentado no mesmo banco que eu: “amor… amor… você não acredita, nenhum era de ouro!!!” Numa mistura de empolgação e desdém. Falava de um presente que ganhou e foi na loja conferir sua “autenticidade”. Pensei: esta desliga a tv na hora do noticiário há muitos anos…

Olhei para a frente e a alegria da mulher que praticava yoga para mexer no computador, me incomodava. Pensei que o texto se referia a Inglaterra e que talvez esta lógica não se aplicasse ao Brasil. Este pensamento deve ter durado dois segundos e foi descartado em menos de um.

Olhei mais uma vez para a mulher do yoga, corpo bonito, escultural, mas de qual escultura estou falando? Sim, o corpo nos padrões de beleza que nos foram impostos e introjetados, acho bonito e agora sei o porquê acho, isso não muda nada. Queria um computador daqueles… mas não sei fazer yoga.

Decido tentar ir embora novamente. Na porta percebo que a chuva ainda cai forte, olho para a bicicleta e para a chuva. Viro as costas para o shopping, para a mulher do yoga, para a família que desliga a tv na hora do noticiário, para a minha bicicleta e saio andando na chuva. Estou indo para casa.

Ao chegar na rua de casa percebo que moradores de rua se amontoam sob o toldo do prédio para fugir da chuva. Um deles está sentado no degrau da portaria. Quando eu abro a porta nos olhamos por uns 3 segundos. Ficamos suspensos por um olhar que dura até agora e vai durar para a vida toda. Sinto no seus olhos uma cobrança. Uma pergunta, “por que você pode entrar aí e eu não?”. Este olhar tem mais de sociologia que muito trabalho de pós graduação por aí… Ele me cobra pela escravidão, pela história. Justo eu, descendente de escravo e de índio caçado com cachorro. Justo eu, que quando passo por aquela porta fico branco.

Aqui dentro de casa lembro que a chuva continua caindo lá fora. Procuro desesperadamente um noticiário na tv. Mas hoje é sábado e não tem. Então vou escrever estas palavras para aliviar a minha dor e esquecer que lá fora ainda existem pessoas em baixo de toldos, pessoas ganhando presentes falsificados e lindas propagandas de computador para quem sabe yoga.

Texto de David Lloyde na abertura do livro V de Vingança
Texto de David Lloyde na abertura do livro V de Vingança
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