Tinha que ter protestado antes!

Este argumento de que agora é tarde, faltam poucos dias para a copa do mundo e não adianta protestar, é um dos mais usados contra quem é contra a copa do mundo. Todavia é, na minha opinião, o mais fraco. Sempre que leio, ou ouço, imagino que a pessoa, decididamente ou não, não parou nem 5 minutos para pensar no assunto.

Não é usado por todos que são contra quem é contra. Os PTistas, por exemplo, usam outros argumentos, como “vocês são contra o Brasil”, “a copa vai trazer desenvolvimento, vocês não querem desenvolvimento?”, “a copa SÓ custou o valor equivalente em educação de um mês”, este último argumento eu teria vergonha de usar.

Normalmente quem usa o argumento do “tinha que ter protestado antes, agora não adianta” são pessoas que sentem certo incomodo com a copa do mundo no Brasil, mas querem assistir os jogos. Ao mesmo tempo são pessoas que não costumam ir para as ruas se manifestar. Não obstante, não percebem que as conquistas das ruas afetam diretamente elas mesmas.

futebol vapor

Quando digo pensar 5 minutos no assunto, é para perceber que há 7 anos atrás quando foi decidido que a copa do mundo seria no Brasil não houve nenhuma consulta popular. Não houve um plebiscito. Imagino que um evento desta magnitude deveria ser decidido de maneira mais democrática. Há 7 anos atrás a promessa foi a de que não haveria gastos públicos com a copa. Mentira.

agora

Há 7 anos atrás não existia a lei geral da copa. Esta é a lei que dá plenos poderes a uma empresa sobre o nosso país. Esta empresa é a FIFA e ela tem poderes de inclusive influenciar a mudança e criação de leis, como a lei anti-terrorismo, que caracteriza/tipifica manifestações populares como crime.

bigbang

A lei geral da copa também permite que a FIFA registre e explore comercialmente qualquer termo que ela decida interessante para o lucro. Já registrou, por exemplo, a palavra Pagode e a expressão Natal 2014.

Esta mesma lei estabelece um raio ao redor dos estádios da copa onde o comércio é controlado. Ambulantes, comerciantes de rua que vivem do movimento nos estádios não poderão trabalhar neste lugar. Há 7 anos atrás não sabíamos que nossa soberania seria ferida por uma mísera empresa.

Há anos atrás também não dava para saber que teríamos elefantes brancos espalhados pelo Brasil. Isso mesmo, os estádios das moscas. Só para citar dois, Manaus e Brasília. Quando vão encher aqueles estádios?

Há 7 anos atrás também foi dito que nenhuma família perderia sua casa por causa da copa do mundo. No entanto, hoje vemos um sem numero de remoções.

Também não era possível saber que teríamos operários mortos nas obras da copa do mundo. 9 operários foram mortos. Devemos ignorar isso e levantar nossa bandeira verde e amarela? (pra mim, corintiano desde criança, já basta a vergonha de ver pela tv que no primeiro jogo no novo estádio do Corinthians o minuto de silêncio foi para um cartola da CBF e não para os 3 operários mortos na obra do estádio).

Também é importante pensar que o governo do PT em 2007 não foi o primeiro a tentar trazer o evento para o Brasil. Existe um histórico de fracassos, como o do governo FHC em 1999 que perdeu feio na tentativa de trazer a copa do mundo para o Brasil em 2006. Entre outros existe a resposta categórica do presidente Figueiredo anos antes, que traduzindo para o bom português foi algo assim: Não Vai ter Copa!

Ou seja, trazer a copa do mundo para o Brasil, sempre se configurou numa ótima plataforma eleitoral, mas mal sabia o governo do PT que os movimentos sociais e populares sairiam tão fortalecidos de Junho de 2013.

Diante de tudo isso – somado o imediatismo que nos assola – somos contra a copa do mundo no Brasil.

As pessoas me perguntam, mas faltam apenas duas semanas e você continua dizendo #NãoVaiTerCopa?

Sim, continuo.

Para responder isso é preciso antes de mais nada entender o valor de um símbolo. Uma ação some do esquecimento das pessoas, uma palavra de ordem deixa de ser ouvida logo depois que as vibrações sonoras se transformam em sinapses no cérebro. Um ato concreto qualquer só existe por um instante. Mas um símbolo não. Um símbolo pode durar para a eternidade. São os símbolos que sobrevivem, não as ações, nem as pessoas. Lutar contra a copa do mundo, um ano antes ou um dia antes – ou mesmo durante a copa – é um símbolo muito forte. Um símbolo de que não podemos mais deixar que o capitalismo, através de seus tentáculos empresariais, seja um rolo compressor de pessoas. Um símbolo que diz que não devemos mais nos sujeitar e que devemos e podemos lutar. Que uma outra sociedade é possível, mas que ela não virá sozinha, nem do curso natural da história, nem das reformas do capitalismo, nem de obra divina, o outro mundo possível virá da luta dos oprimidos por sua libertação.

Depois de Junho de 2013 com os grandes protestos de rua, algumas pessoas disseram e dizem que foram apenas 20 centavos. Outras dizem que nosso movimento foi cooptado, mas eu não vejo assim. Vejo que o que sobrou de lá foi o símbolo. O cheiro do gás passou, as bombas e balas de borracha já estão em algum lixo ou na reciclagem para virar novas bombas e balas, mas o símbolo ficou. Muitas pessoas hoje têm coragem de ir para a rua protestar porque aprenderam naquele mês de Junho.

Um símbolo não morre e por isso continuaremos dizendo, Não Vai Ter Copa!

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