Educação que destrói, educação que constrói

Hoje tivemos um ótimo debate na Espaço Autonomo casa Mafalda em SP. Assistimos o filme acima, Escolarizando o Mundo, e em seguida falamos um pouco sobre educação e sociedade.

Não vou fazer aqui aqui uma discussão profunda do filme, mas só alguns comentários que me chamaram muito a atenção.

O filme faz uma dura crítica a educação, principalmente ao modelo de educação que o mundo ocidental impõe sobre o mundo oriental, particularmente o filme fala muito das culturas indianas que são/foram massacradas pela ideia de escolarização.

Uma coisa que me chamou a atenção no filme foi que uma palavra que eu considero chave não apareceu em nenhum momento. Contudo foi o tempo todo tangenciada. Apareceram as palavras, mercado, industrialização, modernização, sistema econômico, etc. mas em nenhum momento o filme fala a palavra Capitalismo! (seria de propósito esta negligência?)

O capitalismo se apropria dos espaços, dos conceitos e dos sistemas do mundo. Neste caso, o capitalismo se apropriou da educação e faz dela seu instrumento de dominação cultural. Pensando que praticamente todas as pessoas passam pelos sistemas educacionais formais, ela é uma ótima ferramenta de propaganda e formação de mão de obra. Arranca as pessoas de suas culturas para que sejam inseridas na cultura de massas, aquela que possui produtos que podem ser consumidos. Não é interessante para o sistema uma cultura que permaneça as margens do sistema de produção e de consumo.

Contudo, é colocado uma carga muito grande na educação como sendo o mal concreto e destruidor de culturas. Neste momento me lembro de Paulo Freire e daquela ideia de que a educação sozinha não vai transformar o mundo. É preciso todo um complexo de sistemas, superestruturas para que uma transformação seja possível. Sendo assim, por extensão, podemos pensar que a educação sozinha também não vai destruir o mundo, ou seja, para que o capitalismo consiga eficientemente massacrar todos e todas ele precisa lançar mão de outras estruturas para este feito. O que destrói as pessoas hoje em dia não é apenas a escola reprodutora, é também a mídia, o trabalho alienante, o lazer (ou falta dele), a precariedade dos serviços básicos, etc.

De fato esta educação capitalista existe nos dias de hoje. Basta olhar para as escolas de maneira geral, seu formato, seu sistema de doutrinação e pacificação de pessoas. As escolas que preparam a mão de obra barata (normalmente as públicas) e as escolas que preparam para a gerência e administração (no geral as privadas), a escola de fato reproduz o sistema capitalista que existe fora dela.

Contudo podemos pensar, na esteira de pensadores como Gramsci, Giroux e Paulo Freire, que existe também um embate dentro da escola, existe uma luta de classe interna e, assim como no mundo externo, a luta de classe é quem promove a transformação.

Pensemos então que é possível a transformação da escola e também da sociedade, mas é importante perceber que esta escola precisa estar vinculada ao mundo exterior. Não pode ignorar, por mais feliz e libertadora que ela seja, que fora dos limites dos seus muros existe um sistema opressor capitalista que que massacra e reduz pessoas e culturas.

Segue a luta!

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5 comentários

  1. Grande Oswaldo! Ótimo debate, sem dúvida.
    Há um elemento do filme que me leva a prorrogar o debate aqui nos comentários.
    Me refiro à intencionalidade do uso da palavra capitalismo. Concordo que o discurso do filme a todo momento coloca o modelo de escola como à serviço da ordem econômica pautada no capital, da garantia da reprodução da lógica da divisão de tarefas, da homogeneização do consumo e dos consumidores… são incontáveis no filme os elementos que evidenciam como o capitalismo rege o modelo de escola vigente e que tem atravessado as fronteiras para globalizar a ordem econômica. Aliás, o filme insiste tanto nisso que chega a ser cansativo em alguns pontos – mas não quero reclamar do filme. Creio que o caráter homogeneizador, docilizador e inculcador da escola esteja hoje principalmente e indiscutivelmente à serviço do capitalismo que, espero, um dia dê lugar a outras ordens econômicas, múltiplas e que sejam condizentes à diversidade cultural que imaginamos conhecer. Mas a escola, por ser política, pode corresponder não apenas à perpetuação de um sistema econômico opressivo, mas também a outros sistemas de opressão. Claro que os sistemas de opressão se fortalecem mutuamente, e capitalismo (o mais “forte” deles, sem dúvida) toma para si tudo o que possa fortalecê-lo para se perpetuar e, conforme se perpetua, reproduz também os outros sistemas de opressão, como o fascismo, o etarismo, o patriarcado, o nacionalismo… Porque a escola é elitista, fascista, etarista, cissexista e todo o resto. Então acho mesmo que alguém tem que fazer o papel (político, diga-se de passagem) de apontar como a escola hoje reproduz esses sistemas todos junto com o sistema econômico – claro, em especial o capitalismo, mas os outros não podem ser negligenciados, pois a transformação do modelo econômico não destrói automaticamente os outros sistemas de opressão. Faltou mesmo um asterisco, mas eu não deixaria de fora os outros asteriscos. O que acha disso?
    Forte abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Bom dia Osvaldo:
    “Segue a luta!”
    Embora eu não encare essa tarefa como luta, continuo acreditando (por mais de 40 anos) na autopoiese e na adaptação de todo ser vivo ao contexto não como um ato involuntário ou alienado, mas como “o ato de amar”. Se eu não acreditasse nisso, sinceramente já teria largado há muito a pedagogia. Minha tarefa entre as crianças é exatamente essa: humanizar. Essa impressão que temos sobre a educação – como ação de influenciar as crianças-, não ocorre de fato dentro ou fora dos muros da escola e sim em qualquer convivência entre os seres. Penso estar aí mesmo essa confusão que gera o paradoxo: educação libertária X educação “capitalista” como você mesmo definiu. Se é libertária, porque tirar da criança ou da família a escolha de ser capitalista? A escolha de deixar-se penetrar (enquanto célula que regula o que recebe com autonomia) por qualquer tipo de influência é, em última análise, de cada indivíduo na relação com o ambiente. Nesse sentido, como professores/pedagogos também fazem parte do ambiente externo ao indivíduo, não há controle possível sobre as decisões tomadas pelas famílias e crianças/jovens a partir daquilo que elas aceitem como integrantes da sua realidade/vida. Minha tarefa transforma-se em: “refletir sobre” ou “dar a conhecer” aos menos experientes os prós e contras de cada escolha feita com autonomia para que respeitemos a todo momento a formação contínua do ser humano na convivência amorosa. E continuar a acreditar que cada humano constrói-se a si mesmo a partir da convivência social. E lutar pra mim, significa combater, ir contra. Onde fica o respeito aos desejos e anseios autônomos e autopoiéticos das crianças e jovens? A tarefa do pedagogo vai além: e o respeito é a chave. Porque não aceitar que as crianças sintam-se felizes consumindo o que desejam? Que percebam se isso fará parte da sua essência de humano ou não? Como vamos justificar nossas próprias escolhas “capitalistas”?Assim como nos exemplos do filme, aqueles que optaram pelas regras do capitalismo estão felizes com o que conquistaram com suas escolhas e sentem-se mais humanos? Isso é uma questão de tempo. E a tarefa da escola atual não é impedir a convivência no mundo e sim refletir sobre ela para fortalecer a autopoiese e a autonomia permitindo que cada qual decida seu caminho de acordo com suas estruturas humanas e oportunidades absorvidas. Então, que cada um decida quais oportunidades vai incorporar, a partir da sua própria humanidade. Proponho que paremos de lutar. E acreditemos mais no ser humano, além de sermos mais humanos dando exemplo de autonomia e responsabilidade nas escolhas que nós mesmo fizemos como adultos e orientadores/educadores dentro e fora das paredes da escola. Encontrar o que faça a cada um mais humano e feliz pode ser a saída.
    O que acha?
    Abraço da
    Regina Potenza

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  3. “Se é libertária, porque tirar da criança ou da família a escolha de ser capitalista?”. Creio que não há nada de libertário em corresponder a um sistema opressivo como o capitalismo, ainda mais quando o indivíduo não reconhece em si os efeitos da performatividade das práticas e do discurso capitalista. Se a busca é pelo potencial enriquecedor das múltiplas vivências, que reconheçamos o papel político dos sujeitos dessas vivências para que essa riqueza seja plenamente explorada. Não basta ser um indivíduo autônomo e responsável quando não se é um sujeito autônomo, responsável e consciente dos aspectos não apenas individuais de sua vivência, mas também sociais. O humano (e a humana =) é individual, mas também social e, portanto, político. Ou não? Bj!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Eu acho sim que é uma luta, uma luta longa, cansativa e destrutiva que estamos travando contra este sistema opressor. E estamos perdendo.
    Só será libertador se libertar o coletivo. A liberdade individual, na minha opinião, é uma liberdade falsa, quando muito, temporária.

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