A bandeira do Brasil, o medo de mim, o sangue no asfalto e o resto

Não sei se estou mais sensível que o normal hoje… deve ter sido a conversa que rolou…
De qualquer forma resolvi sair para dar uma volta, tinha que encontrar um banco para pagar umas contas. Sim, quem é contra a copa também paga contas. Aí aproveitei para ir de bike e dar uma volta pelo centro da cidade, espairecer…
A noite ele é bonito, as luzes, as cores. Só não é tão bonito o que se passa dentro da nossa cabeça. Quem consegue abstrair de toda a feiura social, pode continuar achando bonito independente do que consegue ver.
O jogo Brasil e Colômbia pela copa do mundo tinha acabado de acabar, era a hora de todos os patriotas saírem as ruas para comemorar e levarem junto suas cornetas e matracas e com elas, fazer todo barulho possível, muitas camisetas amarelas vagavam pelas ruas.
Vi logo ao sair do prédio, quem já veio aqui sabe como é, muitos moradores de rua, mas o que me chamou a atenção foi que uns 4 deles vestiam a camiseta amarela do Brasil. Aquilo me deu um choque de realidade brutal. O que aquilo significava?
O que significa torcer para o país que te colocou na rua? Aqui, imagino que vou despertar alguns amores daqueles que acreditam em índole, caráter, boa fé, boa vontade e todo tipo de baboseira social que inventam para culpabilizar as pessoas “fracassadas” e livrar o sistema que colocou estas pessoas nestas condições de vida.
Será que significa a mais pura benevolência daquele esfarrapado do mundo? Será que significa uma alienação apenas? Não sei, nem fui perguntar pra eles.
Segui meu caminho, paguei as contas e fui contornar o centro, sentido República, Sé, São Bento, República outra vez.
Quando cheguei na Sé olhei para aquele monumento de uma maneira que nunca olhei antes. Com admiração pela grandiosidade. Por um instante esqueci que era uma igreja e que, sendo assim, um símbolo histórico de opressão de pessoas e culturas (como eu disse, foi apenas um instante). No mundo de hoje tantas igrejas são cultuadas, mesmo por aqueles que não são religiosos. Pois é difícil dissociar o concreto do simbólico, neste caso o símbolo atrasou a ciência em séculos, assassinou pessoas, dizimou culturas e, pior de tudo, alienou e aliena de maneira cruel uma grande massa de pessoas.
Mas quem sou eu para falar tudo isso? São apenas minhas verdades parciais, que num dia a flor da pele como hoje, brotam inexoravelmente de mim. Contudo, parciais.

Sigo pelo caminho e na praça do Colégio vejo algo ainda pior que o morador de rua vestindo a camisa do Brasil, vejo um deles deitado no chão se cobrindo com a bandeira do Brasil. Neste momento a garganta deu um nó. Pensei que ia chorar ali mesmo. Mas faz tanto tempo que não cai uma lágrima sequer… Não foi ali.
O Brasil estava cobrindo de maneira muito simbólica aquele morador, quantos outros, neste momento não precisam de bandeiras e nem isso têm? Quantos corpos esta bandeira consegue cobrir? O nacionalismo é mesmo simbólico. Dá a vaga ideia de que somos todos um só. Somos todos brasileiros. Lutamos pela mesma causa, o país. Nos fornece a mentira de que somos iguais. Não somos. Existem classes, existem pobres e ricos, existem oprimidos e opressores, cada um com sua causa, cada um com sua bandeira.
Cheguei até a praça São Bento, lembrei que estive ali no último domingo a convite de uma amiga para uma distribuição de roupas e alimentos para moradores de rua, lembrei que foi ali mesmo que uma moça me disse na maior alegria, “esta ponte é grande, eu moro aqui embaixo”.
“Esta ponte é grande e eu moro aqui embaixo”, esta frase passeou pela minha cabeça pelos últimos dias. Agora estou aqui, passando por cima da ponte. Sempre por cima… O que me difere de quem está lá embaixo? Nada! Nem o papel pendurado na parede, nem os muitos anos sentado doutrinadamente numa carteira escolar, nem isto, nem nada. Por que ela está lá embaixo agora e eu não estou?
Passei em frente a guarita da PM que existe ali e senti repulsa, lembrei na hora que aquela instituição mata. Lembrei de uma pessoa próxima não existe mais por isso… 2 tiros e um, “é só a polícia mandando eu parar, vai ficar tudo bem”, na cabeça.
Comecei a atravessar a ponte, por cima, sempre por cima… mas decidi de repente parar no meio e olhar para o movimento lá embaixo. Parei e fui para a calçada olhar lá para baixo. De relance percebi que uma mulher vinha na mesma calçada. Pensei, ela vai atravessar.
Alguns segundos depois ela percebendo que eu parei ali, não titubeou, atravessou.
O que será que passou pela cabeça dela? Qual foi o tamanho do medo? Por que vivemos numa sociedade em que o medo é tão forte? Uma bela de uma atitude suspeita, um negro de bicicleta, camisa do Corinthians (!) parar de repente para ver a paisagem, “vai me assaltar”, ela deve ter pensado.
Isto me fez lembrar de algo que aconteceu comigo quando eu tinha 14 anos de idade, indo para a escola a noite, caderno na mão, uma jaqueta preta de couro sintético, numa viela da zona sul de São Paulo. Eu entrei na viela e, uns 20 metros a frente, uma senhora andava, naquele momento percebi que estava atrasado para a aula e decidi correr, a mulher olhou para trás e não teve dúvidas também, correu como o vento. Eu parei na mesma hora sentindo uma vergonha monumental, mesmo estando agora sozinho na viela.
O que faz as pessoas correrem de outras pessoas?
No momento que a mulher atravessou a calçada do viaduto senti uma enorme tristeza, mas não por mim, pelo lugar em que vivemos. Pelo medo que temos. Pelo “ele vai me assaltar” que existe na cabeça de cada um/uma.

Lá embaixo os carros passavam de maneira tão ordenada que senti um certo alivio, nem tudo era caos. Perai, aquele ali não deu seta. Ah tudo bem, era carro da polícia.

Um homem catando latinha lá embaixo e muitas, muitas camisetas amarelas passando. Será que algumas destas camisetas amarelas sabem que ontem morreu uma pessoa vítima de um viaduto que despencou na cidade de Belo Horizonte? Será que elas sabem que este viaduto é mais uma obra da copa feita as pressas? Será que sabem que mais 9 operários morreram nas obras da copa? Será que sabem que nem um minuto de silêncio foi feito para estes operários? Acho que não. Mas se soubessem, que diferença faria? Afinal, o Brasil ganhou, a tiazinha correu, a PM matou, a outra atravessou, a bandeira cobriu e eu não chorei.

Hora de ir embora, terminei de atravessar a ponte, segui pela ciclofaixa só para variar e quando cheguei na esquina que começa (ou termina) a avenida Ipiranga… o dia não poderia terminar pior.
Um ônibus parado, policiais ao lado, um cordão de isolamento. Quando chego mais perto, uma bicicleta no chão e uma mancha de sangue.
Um luminoso ao lado piscava: ciclofaixa implantada – respeite a sinalização.

No resto de caminho para casa, muitos bares cheios de camisetas amarelas pulando, cornetas tocando, alheias ao sangue no chão. Um estado de vazio absoluto tomou conta de mim. Cheguei e comecei a usar aquilo que não me diferencia da pessoa embaixo da ponte para escrever estas palavras que nada significam. Afinal, o Brasil ganhou, a tiazinha correu, a PM matou, a outra atravessou, a bandeira cobriu, o sangue escorreu e eu não chorei.

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2 comentários

  1. Conversando com um amigo meu, expus a minha conclusão sobre mendigos, muitos tem problemas com drogas, que mascara um problema de escapismos, psicológicos, porém esse problemas a parte, não os vejos como “fracassados”, eles estão nas ruas porque é o que eles realmente querem, não por serem incapazes, mas simplesmente por não querer, primeiro, prejudicar as pessoas que estão ao seu redor por seguirem as regras dessa sociedade, segundo por não quererem seguir as regras sociais, sejam elas quais forem, sendo justas ou não, ou seja, eles querem experimentar uma liberdade que não estamos preparados…
    Expondo isso, meu amigo concordou, e quando aos seus questionamentos quanto aos moradores de rua, acho que eles não ligam, pra ele é um pano que serve as necessidades dele no momento, por um acaso é simbolo nacional desta republica federativa, mas podia ser da federação russa, o impacto e questionamentos está, exatamente, nos olhos de quem ve.

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