A carta para David Luiz e um mundo mais felis!

A mãe de uma estudante compartilhou uma foto da carta da filha para o jogador David Luiz, onde ela expressa seus sentimentos e dá alguns recados para ele.

Eu já tinha visto esta foto rodando, mas não quis compartilhar. Apesar de achar bem fofa, eu tenho princípios bem fortes com relação ao que esta Copa do Mundo da FIFA representou para o país. Não vou colocar aqui outra vez o que penso da copa do mundo, da FIFA, da CBF, etc., outros posts neste blog podem mostrar isso de maneira mais profunda (post0, post1, post2, post3). Mas de maneira muito resumida, é a intervenção do capital internacional no país através de uma empresa (FIFA), modificando a constituição, provocando zonas de exclusão, desalojados e, o pior, mortes.

Vi hoje pela manhã que a carta da Ana Luz atingiu mais de 10.000 compartilhamentos e chegou ao site do Globo Esporte, é uma questão de tempo até a resposta do David Luiz. Vi um post da mãe, Renata Penna, sobre os comentários da página do jornal fazerem ela perder um pouco a fé na humanidade. Decidi então ler os tais comentários. Li uns 50 e ao fim da leitura minha opinião mudou. Decidi escrever este texto e compartilhar sim a foto da carta.

A absoluta maioria dos comentários são de uma brutalidade que não deveria se fazer nem com um adulto que considerássemos uma péssima pessoa, mesmo assim foram feitos e direcionados para uma criança de 9 anos.

Esta mesma maioria condenava de maneira terrível a ortografia da menina. Repetiam com fervor o fato dela ter escrito “felis”, “tasa”, ou colocado o “z” para o lado contrário.

Alguns dizem, “9 anos de idade e não sabe escrever “feliz”? Este é o futuro do país!”.

Eu digo:

Este seu comentário é totalmente coerente com alguém que já sabia escrever a palavra “feliz” com “z” aos 9 anos de idade.

Diga a palavra “feliz”, agora repita e preste atenção no som que sai ao final da palavra. Agora diga “s”. Atente para o som que faz. Pois é, é o mesmo som, faz todo sentido para uma criança. Aquelas que muito cedo já escrevem “feliz” com “z” é porque decoraram! É porque aprenderam em uma educação reprodutora e massificadora, que não faz mais que acabar com a criatividade das crianças.

Paulo Freire já dizia,

de nada adianta saber ler e escrever, se não souber ler e escrever o mundo!

Estas pessoas que se orgulham de saber escrever “certo”, são as mesmas que despejam comentários odiosos para uma criança de 9 anos. Me respondam, aprenderam a ler e escrever, mas sabem ler e escrever o mundo?

Nenhum comentário, até onde eu li, foi na forma de pergunta. Por exemplo, qual o tipo de educação que esta criança está recebendo? Tenho o palpite… acho que não é uma educação reprodutora. A mãe poderia ter corrigido palavra por palavra antes de tirar a foto, não fez, e este simples gesto mostra uma coerência incrível com meu palpite.

Infelizmente esta educação que eu condeno em tantos textos aqui neste blog, no mestrado e nos meus discursos, é a educação dos nossos dias, é a educação hegemônica, aquela que está sendo aplicada na absoluta maioria das escolas públicas e privadas. É uma educação que ensina a reproduzir com excelência, doutrina, individualiza, adestra o sujeito, que tenta – e consegue – tornar objeto aquilo que deveria ser pessoa, enfim, faz com que não pensem mais por si mesmos, em uma palavra, Aliena.

Alienação é quando o trabalho (de fazer, de agir, de pensar, etc) está no outro não em si. Nosso povo está alienado e um dos mecanismos mais eficientes do capitalismo para esta alienação é justamente a escola reprodutora.

Eu sou contra a copa sim e, principalmente, tudo que ela representa, mas na idade da Ana Luz eu assisti a copa de 1990. Vi com lágrimas nos olhos o Brasil ser eliminado pela Argentina com a bela jogada do Maradona e o gol do Canigga… Não escrevi uma carta para o Muller ou para o Careca, não sei se eu teria escrito “feliz” com “s” ou “z”, provavelmente com “z”, porque nesta idade eu já me encontrava engolido pelo sistema reprodutor e como eu me adaptava muito bem, sabia ficar quieto, sabia copiar, sabia abaixar a cabeça, sabia ser o robô que o sistema precisa, eu fui o que chamam de sucesso escolar.

Mas é este mesmo sucesso escolar do mundo das crianças que gera os maiores fracassos sociais do mundo dos adultos.

Por uma educação que não aliena.

Por uma educação para a autonomia.

Por uma educação que, acima de tudo, emancipe!

E quem sabe assim teremos um mundo mais FELIS…

Algumas referências

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

________. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. 1996.

MARX, K. Para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

________. A questão judaica. Tradução de João Fagundes. Lisboa, 1978.

Algumas escolas

1) Escola Politeia

2) Escola da Ponte

3) Escola Amorim Lima

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51 comentários

  1. ótimo texto, me faz querer expor algumas idéias sobre educação, mas como não sou educador tenho medo de reproduzir um discursso do repressor… Mas acho que essa educação, libertadora, tem que chegar às universidades.

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  2. Ótimo texto. Tem gente que é muito radical, com essa idade a criança ainda está sendo alfabetizada, sou pedagoga e sei disso, cobrar português correto dela é desnecessário ainda. Ela está em pleno desenvolvimento, aos poucos vai aprender, está dentro da normalidade. Incrível que as pessoas sempre tem mais críticas do que elogios. LINDA A ATITUDE DA MENINA, mostra que ela tem boa educação de valores e também é rica em humanidade. E digo mais, nos comentários hipócritas, os quais também li boa parte, tem erros de português grotescos, isso que hoje contamos com o correto ortográfico no Facebook. As pessoas precisam entender que para o padrão do sistema educacional do nosso país, o português dela é aceitável. Parabéns pela sua atitude também Osvaldo!

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  3. Ontem eu li e compartilhei essa linda carta e me senti extremamente mal com os comentários que fizeram.
    Tenho um filho de 7 anos e no ano passado a professora dele me chamou na escola para reclamar que ele é muito infantil, que perde o interesse fácil nas aulas e quer ficar brincando.
    Caramba meu filho entrou no 1° ano com 5 anos de idade o que eles esperam de uma criança nessa idade?

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  4. Compartilhei a cartinha, achei linda a atitude da criança. Apesar de um erro de Português aqui e outro ali, a carta é super coerente. No mais, enquanto metade do país falava na vergonha e no fracasso, uma criança com toda sua doçura nos mostrou que ainda há tempo! Tentem de novo daqui a 4 anos.
    Por um mundo com mais crianças como a Ana Luz!!!

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  5. Sempre que leio os comentários (nem sei porque ainda faço isso) em blogs, textos, reportagens na internet, eu me revolto. Me revolto com a ignorância de algumas pessoas, que não conseguem enxergar além do óbvio ou do mundo estreito em que vivem. Uma criança mostrando ao mundo que o mais importante ela já sabe: que às vezes a gente ganha e às vezes a gente perde, e a vida segue em frente. E daí que ela ainda escreve feliz com S? Isso faz dela uma criança pior do que aquela que escreve com Z, mas que não respeita seus amigos, professores ou seu cachorrinho de estimação?
    Ah, sim, e parabéns pelo seu texto!!

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  6. Cara, ótimo o seu texto. Fiquei maravilhado com tudo o que escreveu, mas a parte que mais me tocou, foi que existem pessoas que corrigem realmente crianças de 9 anos e suas ortografias. A única resposta que eu tinha para quando tal coisa acontecia era: “São crianças”. Mas a sua explicação e o modo que você colocou a criatividade delas pelo fato do feliz terminar realmente com um som de “s”, me deixou de queixo caído, e é o acontece. 9 anos e saber escrever feliz com z só mostra mesmo o modo da educação aonde você aprende isso, é desse jeito pronto e não discuti mais. Isso são pessoas que seguem a risca a lei da vida de crescer reproduzir e morrer e só. Ao contrário da Ana Luz que entre nascer e crescer ela já deve ter pensando e imaginado um montão de arco-íris e unicórnio e tão pouco se importa em crescer. Parabéns e sucesso, esse é a primeira postagem que leio e pode ter certeza que é a primeira de muitas. Um abraço.

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  7. Trocar a grafia da palavra não faz sentido somente para uma criança, mas para qualquer pessoa, porque a razão de se escrever feliz com “z” é etimológica e ninguém é filólogo e tem a obrigação de saber isso. Mas razão há e a gramática somente informa que se escreve com “z”. Gramática não é filologia. Não temos obrigação de saber porque se escreve de determinada forma, mas como se escreve. E quem sabe como se escreve, sabe porque lê. Eu, quando tinha 9 anos, já tinha o hábito de ler, pelo menos gibis, da Turma da Mônica, Pato Donald, O Mundo dos Animais, Contos de Fadas, a Série Vagalume, Monteiro Lobato, Ziraldo, e outros livros para crianças. Não creio que essas leituras tenham sido “reprodutoras”, “massificadoras”, ou que “acabaram com a minha criatividade”. Pelo contrário, porque a leitura nos introduz num mundo novo, num outro patamar do real. Longe de “acabar com a criatividade”, ela a aguça e a amplia. É justamente a glorificação do apedeutismo que reduz justamente a criatividade, e que de fato, a homogeneiza. Basta conversar com as crianças e os adolescentes hoje: boa parte deles homologados, verdadeiramente massificados. E uma das razões é porque não lê, porque a leitura é que é livre, liberta, posso ler o que eu quiser, não sou obrigado a consumir somente Valeska Popozuda, Anitta, ou Funk Ostentação, como boa parte das crianças e adolescentes consome hoje, homologadas e massificadas. A atitude fascistoide dos comentaristas não justifica a apologia ao apedeutismo e a relativização da gramática.

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  8. Do ponto de vista fonético e fonológico, esse “erro” é totalmente previsível. Quando falamos “s” “z” podemos notar que a articulação é bem parecida. Como já disse antes, não é nada de extraordinário essa “confusão”, é até bem previsível.
    Ana Luz, sua cartinha foi linda. Você disse tudo o que eu também queria dizer, ele é o NOSSO capitão.

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  9. Ótimo texto, as pessoas ainda se preocupam mais com a casca do que com o que tem dentro. A ortografia é mais importante que o conteúdo. Aquele tal de analfabetismo funcional é muito, mais muito pior que erros de ortografia. De que adianta escrever ‘corretamente’ se o que se diz não vale nada?

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  10. Engraçado, quando vi essa foto eu achei que era falsa, primeiro pelo formato da letra e fui buscando erros que fossem de acordo com uma criança de 9 anos. Os que eu achei foram os espaços entre as palavras mal definidos e os erros de ortografia. Concordo plenamente com seu texto, uma criança de em sua fase de alfabetização ainda não tem assimilado a ortografia correta das palavras, isso vai se desenvolvendo com a leitura (na minha época foi com a Turma da Mônica rs). Nessa fase as crianças tem dúvidas e na dúvida escrevem como se fala. Eu aposto que muitas pessoas que criticaram essa criança não sabem escrever “Exceção” sem procurar no Google antes. Abs, ótimo texto.

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  11. Amei o texto, esse é um dos poucos que encontramos na internet ao qual pude ter o prazer de ler, nunca comento nada, mas o seu, pela primeira vez irei comentar pois, esse sim foi algo que engrandeceu minha manhã, li o post da Ana Luz no site da globo e me senti tocada pelo sentimento que havia na carta e não parei para analisar a escrita de uma garotinha que tentava alegrar alguém que visivelmente estava abatido quando saia de campo, entendi a intenção dela e a compartilhei!
    Parabéns pelo texto, muito bonito e acima de tudo sincero!

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  12. “Mas é este mesmo sucesso escolar do mundo das crianças que gera os maiores fracassos sociais do mundo dos adultos.” Nesta frase você expressou a maior ideia que eu, adolescente que talvez “pouquíssimo” entendo sobre o mundo aos olhos do mesmo, acredito e reflito. Texto sensacional!!

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  13. Amei! Por um mundo mais FELIS!!!! Por um mundo com mais cartas escritas a mão, com mais amor… com mais crianças criativas, carinhosas, espontâneas e corajosas como a pequena Ana Luz. E pessoas inteligentes e sensíveis com você, Osvaldo!

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  14. Concordo com seu texto, porém em minha infância fui uma criança digamos que inteligente e nem por isso fui robô, e hoje graças a Deus colho só coisas boas fruto da minha dedicação desde sempre. Sem deixar de concordar com você, a índole maternal do ser humano e a forma com que ele é educado em casa pelos pais influência 75% em seu potencial e isso é altamente significativo no desempenho escolar da criança. Se hoje fosse adjetivar ou buscar explicações sofri bulling por ser uma crianca estudiosa diferente do que o sistema esperava de uma criança de classe média e que morava na periferia de uma grande capital. Desculpas, apenas minha humilde opinião.

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  15. Eu também vi esta carta e notei alguns comentários “pesados”. Em um deles um indivíduo comentou que a criança não tinha “celebro”. Nos prestamos ao papel de sempre apontarmos os erros do outros, não importando se é criança, idoso ate mesmo a própria seleção que “errou”. Seu texto está ótimo e com certeza compartilharei com outros. O que vale nessa vida é sempre erguer a cabeça depois de alguma derrota e ser felis.

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  16. Certa vez questionei na escola de minha filha (ela tem 4 anos) a respeito do desenvolvimento da escrita dela… Achei que deveria estar mais adiantado… Escutei dos profissionais que, antes que minha filha de 4 anos aprenda a escrever, eles querem que minha filha aprenda a conviver no mundo e a construir relações sociais essenciais ao desenvolvimento dela. Fiquei bem quietinha depois de ouvir isso… Creio que as escolas no Brasil deveriam seguir uma linha mais ligada ao que se pode chamar sócio-construtivismo pra que as crianças aparentam a escrever sim, mas escrever a construção do mundo em que ela vive.

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  17. Perfeito. Saindo (ou não) um pouco do assunto, falou que discute isso no mestrado, ainda em andamento ou já tem dissertação pronta? Se sim, tem como ter acesso?

    Curtido por 1 pessoa

      1. Vou esperar que divulgues por aqui então, aguardo. E parabéns novamente pelo texto!

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  18. Sendo universitária, é inevitável corrigir erros gramaticais quando leio um texto, porém ao ler a carta da Ana Luz não notei os erros por estar completamente emocionada em ver que uma pequena criança com sua pureza, ensina uma lição que infelizmente algumas pessoas são incapazes de entender por prestarem mais atenção na escrita do que no significado dela. Solidariedade infantil, algo puramente verdadeiro.

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