Resistência estudantil à educação tradicional

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Parto do pressuposto que existe hoje um abismo enorme entre as práticas educacionais (o chão da escola) e as teorias mais progressistas, críticas em educação. Aquelas que conferem aos/às estudantes autonomia para decisão de regras de convivência e aprendizado.

Muitos/as jovens já percebem estas discrepâncias e rejeitam a educação passiva, os depósitos diários de informação da educação bancária (doação dos que sabem aos que não sabem, bom educador é aquele que consegue fazer os depósitos, bom aluno aquele que recebe docilmente os depósitos, coleta e arquivamento de informações pelos alunos, pouca ou nenhuma relação com o que já sabe etc.) (FREIRE, 1988) existente em muitas escolas ainda hoje. Esta não aceitação se dá em grande medida pelo que a educação tradicional chama de indisciplina, vandalismo nas escolas, abandono etc. Estes elementos podem ser vistos como marcadores da resposta dos/das educandos/as para uma educação que não te proporcionam uma elevação, nem social nem cultural. Seria uma resposta mais inconsciente, não elaborada. Mas como proporcionar uma elevação cultural, uma elaboração desta resposta?

Os/As estudantes na posição de oprimidos/as do sistema educacional terão instrumentos para examinar como esta sociedade tem funcionado para moldar e frustrar seus sonhos e objetivos, ou como tem impedido de imaginar uma vida diferente da que levam? (GIROUX, 1986, pg. 58/59)

Muitas escolas, estudantes, educadores e educadoras já trabalham na contra mão deste quadro, são escolas que buscam pedagogias de resistência ao modelo tradicional para trabalhar com os/as educandos/as não só conteúdos, mas também postura cidadã, autonomia, respeito à diversidade, direitos humanos, sustentabilidade, valores e percepções diferenciados do tradicional, além do mais importante ao meu ver, a formação política, saindo do plano político pedagógico onde muitas vezes estes conceitos estão citados e indo para a prática escolar. Algumas referências chamam de pedagogias não-diretivas (SNYDERS, 2001), outras, como usaremos neste trabalho, de experiências escolares de resistência (SINGER, 2010), outros ainda chamam de pedagogia centrada no/na estudante, além daquela que está se tornando a mais conhecida nos últimos anos, educação democrática, as experiências não se reconhecem necessariamente dentro do mesmo grupo, o que estas experiências têm em comum são,

a gestão participativa, com processos decisórios que incluem estudantes, educadores e funcionários, e organização pedagógica como centro de estudos, em que os estudantes definem suas trajetórias de aprendizagem, sem currículos compulsórios (Ibidem, p. 15).

 Em todo caso os expoentes mundiais são, a Escola da Ponte (PACHECO, 2008 e ALVES, 2010) em Portugal, A.S. Neill’s Summerhill School (NEILL, 1963), na Inglaterra, Escola Democrática de Hadera (HECHT, 2010), em Israel, entre outras. No Brasil, alguns espaços de resistência podem ser encontrados na Escola Politeia (GRAVATÁ et al., 2013 e http://escolapoliteia.com.br) e EMEF Desembargador Amorim Lima (GRAVATÁ et al., 2013 e http://www.amorimlima.org.br), focos do meu mestrado, além da Escola Lumiar (SEMLER, 2007), Cidade Escola Aprendiz (ALVES, 2004), CIEJA Campo Limpo (GRAVATÁ et al., 2013 e http://ciejacampolimpo.blogspot.com), EMEF Campos Salles em Heliópolis (http://emefcampossalles.blogspot.com), etc. Nos EUA, podemos encontrar alguns exemplos através do livro de Beane e Apple (1995), Escolas Democráticas, além das mais famosas Sudbury Valley Schools (GREENBERG; SADOFSKY, 1992).

Referências

ALVES, R. A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. 12 ed. Campinas: Papirus, 2010.

________. Aprendiz de mim: um bairro que virou escola. São Paulo: Papirus, 2004.

BEANE, J.A.; APPLE, M.W. Escolas Democráticas. Porto: Porto Editora, 2000.

EMEF AMORIM LIMA. Projeto Político Pedagógico. Disponível em: <http://amorimlima.org.br/institucional/projeto-politico-pedagogico/&gt;. Acesso em: 01 Ago. 2014.

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

GIROUX, H. Teoria Crítica e Resistência em Educação. Petrópolis: Vozes, 1986.

GRAVATÁ A., PIZA C., MAYUMI C., SHIMAHARA E. Volta ao mundo em 13 escolas. São Paulo: Fundação Telefônica: A.G., 2013.

GREENBERG, D.; SADOFSKY, M. Legacy of Trust: life after the Sudbury Valley School experience. Framingham: Sudbury Valley School Press, 1992.

HECHT, Y. Democratic Education: a beginning of a story. Israel: Innovation Culture, 2010.

NEILL, A. S. Liberdade sem medo. São Paulo: Ibrasa, 1963.

PACHECO, J. Escola da Ponte: Formação e Transformação da Educação. Petrópolis: 2. ed. Vozes, 2008.

SINGER, H. República de crianças: sobre experiências escolares de resistência. Campinas: Mercado de Letras, 2010.

SNYDERS, G. Para onde vão as pedagogias não-diretivas?. São Paulo: Centauro, 2001.

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