O erro da Mafalda

mafaldaanonovo

Foi a partir desta tirinha que decidi escrever esta pequena nota. Eu sou fã do Quino e de sua personagem principal a Mafalda. Ainda assim devo discordar desta frase. Explico.

Ela parece despretenciosa, mas carrega um debate gigantesco sobre o entendimento de sociedade/sistema que temos.

No fundo é a pergunta: É a sociedade que forma o individuo ou os indivíduos que formam a sociedade? Além de pessoas que se posicionam de um lado ou outro, temos aqueles que inventam um caminho do meio para dizer que é um pouco de cada coisa. Esta me parece uma fuga da resposta. Os ditos pós-modernos se enquadram nesta categoria. (embora vão dizer que esta categorização é muito rígida e que talvez eu deva me perguntar qual é a pretensão de verdade que eu carrego quando crio uma categoria para encaixá-los)

O marxismo se coloca de maneira clara. É a sociedade que forma o individuo (a consciência). Ou seja, é o sistema político-econômico existente que forma os sujeitos dentro de uma sociedade, não o contrário. Nas palavras de Marx (1982, p. 25):

(…) “não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência”

Sendo assim, não adianta tentarmos formar pessoas melhores para um dia ter um mundo melhor. O sistema capitalista faz com que as pessoas pensem de acordo com suas intenções. Características que são próprias deste sistema também são muito comuns nas pessoas como o individualismo, a meritocracia, o corporativismo etc.

O outro discurso, que devemos formar pessoas melhores para o mundo, costuma dizer que não é possível transformar o sistema de uma vez. Que devemos dar passos pequenos. São os chamados reformistas. Devemos ter uma educação melhor, para formar pessoas melhores e estas pessoas melhores mudarão o mundo.

Ora, devemos lembrar que a educação é o principal dispositivo do capitalismo para se perpetuar, afinal praticamente todas as pessoas passam pelas escolas (sei que educação e escola são coisas diferentes). Costumo dizer que esta visão está tentando formar burgueses melhores. Vemos isso nos projetos ambientais e pseudo-sociais das escolas de elite.

Uma pergunta comum que me fazem sobre este assunto é: mas e as pessoas que lutam contra o sistema, não são formadas pelo capitalismo?

A resposta é sim. São formadas pelo capitalismo, mas se rebelam em algum momento e por algum motivo contra este mesmo sistema que as formou. Não se trata de pessoas que foram formadas melhor. São pessoas que entraram em contato direto com a luta concreta contra o sistema.

As pessoas podem ter um bom embasamento teórico ou não, mas é no contato com a luta concreta, os movimentos de greve, manifestações, ocupações, repressão sofrida etc., que a consciência é elevada e os sujeitos se tornam novos agentes contra o sistema. Esta foi a minha trajetória, nos movimentos de luta na USP (ocupação da reitoria de 2007, greve de 2009 e, principalmente, ocupação e greve de 2011) que me formei politicamente e percebi que não era mais possível permanecer inerte e/ou participando de longe. Minha consciência de classe se elevou no seio do movimento de luta.

Referência

MARX, K. Para a Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

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