Sobre a morte do Abu, a greve, o capitalismo e o conhaque que não bebemos

Estamos num momento histórico!

Pensei em começar com esta frase, mas logo pensei, todo momento não é histórico? Sim, todo momento é histórico para alguém… apenas alguns passam batidos, não damos o devido valor, nem percebemos. Mas alguns são mais fortes, mais intensos, mais marcantes.

Esses dias numa livraria peguei um livro com poesias diversas, abri numa página aleatoriamente e caiu no Drummond… “Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Mas o trecho que importa agora não é esse e sim o último do poema:

“Eu não devia te dizer
mas essa Lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Deve ser isso… Mas não tenho olhado para a Lua esses dias, nem bebo conhaque, então substituo esses dois pela morte do Abujamra, pela greve de 50 dias, pelas contradições do capitalismo, pelas intermitências da vida, por chegar na hora errada…

Morrer é etapa da vida e pelo que penso sobre isso, morrer é chegar no não-ser. É o retorno à não existência (assim como não existimos antes de nascer). Mas as pessoas marcam e o Abu com seu jeito ácido marcou uma fase da minha vida importante, a fase da guinada. Quando abandonei tudo que tinha de concreto e decidi morar só, numa garagem, a 1000 km da família. Noite após noite assistia os programas e pensava no que eu faria da vida. Lembro claramente de um programa de um escritor de rua. Um cara incrível. Inspirador (como já se vão mais de 10 anos não consegui achar o programa, deixo outro então).

O segundo ponto comove qualquer pessoa com sangue de verdade correndo pelas veias. 50 dias de greve.

Os professores em greve tem se mantido firmes, sabendo que mês que vem não terão salário. Mas sabendo que sem lutar terão sua condição de trabalho e de vida cada vez mais precarizadas. Contra estão: a mídia burguesa, muitos alunos (infelizmente), as pessoas que acreditam nesta mídia mentirosa, o governo, os ricos e, o pior de todos, muitos professores.

Mais de 50% continuam nas salas de aula dando suas aulinhas e indiferentes (menos pior) ou contra greve. Ganhando um salário de fome de 10 ou 12 reais por hora de trabalho. Para suportar um condição péssima, 40, 50 alunos por sala de aula, dois anos de processo de aposentadoria, trabalho temporário (categoria O) etc. Mesmo assim, muitos acham que o professor é um ser iluminado que recebeu uma função divina e que continuar dando suas aulinhas é o mais importante que têm a fazer, que deve continuar mesmo que de graça. Não! O professor é um trabalhador como qualquer outro! Não percebe o ingênuo que se não resolver agora passará a ganhar 200 reais a menos esse ano (inflação), e mais 200 ano que vem… e depois, e depois, e depois… até quando?

Mesmo muitos lutadores e lutadoras seguem na luta, nas ruas, na greve. Como temos dito muitas vezes, Não Tem Arrego!

O terceiro ponto, as contradições do capitalismo são bem amplas, mas um que chamou a atenção hoje foi fazer divulgação de um dia de luta dos trabalhadores (1º de Maio) e ouvir de alguns trabalhadores que era perda de tempo isso. Que era coisa de quem não tinha o que fazer etc.

As maiores vítimas do sistema são aquelas que não percebem sequer que são vítimas.

O processo de alienação que o sistema impõe é cruel. Faz você acreditar que está pensando aquilo genuinamente, mas de fato alguém colocou aquele pensamento lá. Normalmente quem é muito bom em implantar opiniões nos trabalhadores é a burguesia. Se você não prestar atenção ela ainda vai fazer você odiar os oprimidos e amar os opressores, já disse Malcon X.

As outras coisas que deixam a gente comovido como o diabo, são subjetivas demais para se colocar em palavras aqui. Basta saber que, como diria a Clarice, a gente se acostuma, mas não devia!

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