Não é fácil ser duende do capitalismo: três histórias (reais) de natal

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A exploração dentro do sistema capitalista é um processo sistêmico, não é pontual. É o processo no qual o sistema se sustenta e se mantêm. Contudo em algumas épocas e datas especiais alguns mecanismos de exploração se tornam ainda mais profundos. O natal é a principal destas datas, seguido pelo dia das mães e dia dos namorados (já repararam que temos quase uma data de consumo todo mês do ano?). Seguem alguns pequenos “contos de natal”.

  1. Uma quase rebelião

Ontem (24 de Dezembro) percebi, às 17h, que o fogão de onde eu me encontrava estava quebrado. Então eu precisa comprar algo que eu pudesse fazer no micro-ondas. Fui no supermercado que tinha ao lado (de propriedade da família que controla a maior parte das redes de mercados do Brasil).

Peguei o que precisava e quando estava passando pelo caixa percebi um movimento diferente ali, as moças do caixa estavam falando entre si, muito agitadas, todas muito indignadas. Uma delas disse:

– Fulana vai embora mesmo?

Outra respondeu:

– Vai. É direito nosso. Tem que ir mesmo!

Foi então que a moça do caixa que eu me encontrava apontou para uma placa que dizia que o fechamento da loja seria as 17h. Olhei o relógio e já passava das 17h15 e a porta continuava aberta com pessoas entrando e uma fila considerável daqueles que já estavam dentro. Muita gente apressada, com carrinhos cheios, para preparar suas ceias de família. A maioria sem perceber que do outro lado do balcão também tem uma família. Também tem uma pessoa que estava fazendo falta em algum lugar. Natal no fundo é uma data bem corporativista.

Mas as moças do caixa, mesmo muito revoltadas, não estavam culpando as pessoas que estavam comprando. O verdadeiro culpado é o patrão que não cumpriu o combinado de fechar a loja. Uma moça do caixa simplesmente abandonou seu posto no ápice de sua revolta. Eu quis que as demais fossem atrás, mesmo que eu ficasse sem minha lasanha. Elas apenas olharam num misto de admiração e medo… não foram.

O sistema nos oprime de uma tal forma que é capaz de nos calar sem soltar uma palavra sequer. Apenas pelo aparato repressor simbólico. O medo da advertência, da demissão, da retaliação fez com que elas ficassem.

2. A greve dos adolescentes

Era o ano de 1997, eu com 17 anos trabalhava no McDonald’s, meu primeiro emprego. Naquele ano e no ano seguinte, no natal, o McDonald’s do shopping Interlagos estaria entre os recordistas de venda no mundo! Tamanha era a exploração naquele lugar que mesmo um bando de adolescentes, sem quase nenhuma formação política, se organizou e tentou começar um motim. Se pensam que eu estava a frente deste movimento se enganam redondamente. Nesta época eu começava a ter minhas primeiras lições sobre quem era Marx, Lenin, Che etc. Meu professor era o Rubem, um amigo da mesma idade que já militava numa corrente de esquerda e me falava do socialismo com fervor nos olhos. Eu pouco entendia. Mas pensando hoje tenho certeza que esta introdução foi essencial para me tornar o militante que sou hoje. Eu não participei daquele movimento grevista, estava de folga no dia, então só sei dos relatos. Um jovem trabalhador grita no meio da cozinha:

– GREVEEEE!

E neste momento vários funcionários param de trabalhar, abandonam seus aventais e tudo que tinham na mão, hamburgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles ou pão. Os gerentes assumem desesperadamente as posições de chapa, tostadeira etc. Tudo para não deixar a produção parar. Me contaram que foi uma cena hilária, os gerentes com raiva e suando a camisa para fazer o trabalho da molecada que cruzou os braços na frente da loja. A reivindicação era salarial (só para terem uma ideia eu entrei lá ganhando R$ 1,13 por hora). A lembrança deste ato de rebeldia adolescente está muito fugida na memória, não lembro o desfecho. Só lembro que tiveram demissões. Não teve final feliz.

3. A grande libertação

Trabalhei por 10 anos no comércio, principalmente em shopping, o templo do consumismo. Sofri na pele o que aquelas caixas do Pão de Açucar sofreram ontem. Foi em um dia 23 de Dezembro… eu voltava para casa a pé às 3 da manhã… quando pensei: “eu vou sair desta vida!”.

Eu estava voltando para casa a pé esta hora porque estava trabalhando. A loja era a Central Surf do shopping Interlagos e naquele dia o último cliente saiu da loja 2 horas da madrugada!!! Qual é a real necessidade que faz uma pessoa estar dentro de uma loja comprando as 2h da madrugada? E o patrão (e seus lacaios) que exploram seus funcionários até a última gota de suor? Eu pedi as contas no dia seguinte. O final desta história também não foi feliz, porque na sequencia, sem trabalho fixo, passei pelos meses mais difíceis da minha vida…

O sistema faz tudo isso parecer tão natural que a maior parte das pessoas nem percebe o quão agressivo é sua ação diante do outro explorado. Mas devemos diferenciar do movimento que faz o patronato. É a exploração na sua forma mais pura.

O natal é isso meus camaradas: exploração e ilusão. Sabe aqueles seres imaginários que trabalham para papai noel nas histórias infantis? Eles são os proletários explorados pelo “bom” velhinho. Pois bem, nós trabalhadores, proletários, somos os duendes do capitalismo.

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