Eu, produto da história (ou Um Cubas!)

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Há mais de cem anos um de meus mestres andava pela rua que hoje passei com a cabeça infestada de pensamentos.

Estava andando a esmo quando percebi que estava perto da rua do Ouvidor, uma rua muitas vezes citada nos livros do Machado de Assis. Digo que é um dos meus mestres, pois foi nos livros dele que adquiri meu gosto por leitura. Depois dele outros tantos livros, historias, poesias, eu comecei escrever, depois outras curiosidades, os livros científicos e enfim meu interesse em cursar uma universidade, e isso mudou tudo. Para um pobre estudar é um ato de rebeldia e não posso desvincular isso do meu motor original, Machado de Assis.

Neste contexto, a rua do Ouvidor me causou grande comoção. Gosto de ficar imaginando as pessoas que já passaram por ali, todas as histórias (reais e fictícias) que se formaram naquele lugar. Bentinho já andou por lá. Brás Cubas se encontrou com Virgília depois de muita saudade. E hoje me senti mais um Cubas do que nunca.

Porém minha história naquela rua não tem tanto glamour. Estava rolando uma festa de carnaval fora de hora numa travessa do Ouvidor, rua Rio Branco. Até ai tudo bem, não fosse o fato da festa não ter sido planejada e não ter nenhum banheiro. Sendo assim, a rua mais vazia, que era justamente a do ouvidor, virou o banheiro ao ar livre dos gringos, principalmente. Em meio minhas reflexões profundas sobre o passado e a transformação da sociedade, eu tive que desviar de calças arriadas, saias levantadas e poças de xixi.

Nem isso tirou a beleza daquele lugar. Foi para mim quase que uma viagem ao passado, era possível ouvir o barulho do bonde que passava por ali e das carroças e cascos de cavalo nas pedras. Mas era possível também imaginar todo o sofrimento de um povo. Era possível imaginar naqueles anos as comemorações de alguns negros que acreditavam que a libertação chegara enfim para libertar. Mas não. Era só uma prisão diferente. A prisão da pobreza, a qual somos condenados até hoje.

Saí dali, virando a direita numa rua pequena e depois direita novamente encontrei uma igreja. Quando olho sua frente percebo que estou na Candelária.

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Como não relacionar estes dois pensamentos, estes dois lugares? Aqueles meninos que tombaram na Candelária em 1993 não passam de um produto de toda a história de exploração do capitalismo, desde o tempo em que a rua do Ouvidor era a mais movimentada do Rio de Janeiro.

Eles pagaram com a própria vida, um preço alto demais, por terem nascido pretos e pobres. Por ser a maior vítima que o capitalismo faz, mas que a visão imediatista que este mesmo sistema produz, faz parecer que eles é que são os culpados. Os desajustados. O problema.

Esses pensamentos todos, esses choques de realidade são importantes para lembrar quem somos de verdade. Independente do nome ou do numero do RG, não passamos de produtos da história!

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