Fui atropelado, e daí?

Dizem que quando passamos por uma experiência de quase morte ou quando estamos para morrer nossa vida passa diante de nossos olhos em um segundo.

É claro que isso é uma enorme besteira. Mais uma das milhões de crendices populares que nos cercam, nos perseguem e que vão desde as crendices mais simples, como passar de baixo da escada faz mal ou chinelo virado mata mãe, até a maior de todas as crendices, a existência de um amiguinho imaginário coletivo.

Ontem passei pela tal experiência de risco de morte, pois fui atropelado.

E naqueles três segundos entre o impacto, a queda e a consciência de que estava a salvo, as únicas coisas que passaram pela minha cabeça foram: Um susto pelo impacto, a visão de estar voando por cima da bicicleta, um grito e o pensamento que viria um carro ou caminhão por trás que acabaria com o serviço.

Eu pedalava pela pista local da Marginal na altura do ceasa, sentido zona sul, quando simplesmente senti uma pancada por trás, voei por cima da bike e caí no meio da pista. O pensamento era de que um carro viria por trás, então, enquanto rolava, saltei para a calçada. Não vinha nenhum veículo atrás e deu tempo de tirar a bicicleta da rua. Olhei para frente e o motorista que me atropelou seguiu seu destino. Percebi que ele diminuiu a velocidade, mas em seguida foi embora sem prestar nenhum socorro. Deve ter visto pelo retrovisor que eu saí do meio da pista, talvez tenha pensado, “bom, está vivo, não precisa de mim”. Um grandessíssimo imbecil, como tantos outros que atropelam e não prestam socorro. O acidente (supondo que tenha sido um) pode ter algum motivo, distração, não me viu, sei lá o que mais… Mas não parar para ajudar é inadmissível.

Um outro motorista que passava perto e viu tudo parou mais a frente e voltou para me ajudar.

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Costumo dizer, inclusive num texto recente, que somos produtos sociais e históricos, mas preciso acrescentar que somos também frutos da aleatoriedade e determinados pela entropia.

Eis o ser humano, produto social, histórico, aleatório e degenerescente. Se estamos aqui, e vale para quem não está mais, trata-se de uma infinidade de escolhas que fazemos ao longo da vida que nos leva para cada momento específico. Estas escolhas são pessoais,  mas totalmente determinadas pelo ser social que somos, ou seja, escolho o que quero, mas baseado em toda a formação social que recebi e todas as oportunidades que a sociedade me oferece (ou deixa de oferecer).

É claro que o processo aleatório é no fundo estatístico. A escolha de pedalar pela via local da marginal me dá uma probabilidade de sobrevivência maior que pedalar pela via expressa e menor que não pedalar por canto nenhum. Mas a chance de termos dois carros seguidos naquele local era maior que a de não ter. Neste quesito fui agraciado pelo acaso.

De qualquer forma, todos nós caminhamos para a degenerescência (entropia) enquanto escapamos dos processos aleatórios que podem nos tirar de cena a qualquer momento.

Contudo uma sociedade diferente desta, que não fosse regida pela ferocidade, pela competição, pelo mérito, pela culpa e pelo prêmio, seria, automaticamente, mais justa, mais cooperativa, mais solidária, etc., sendo assim, vejo como culpado principal neste acontecimento, não o motorista, mas o sistema que o formou!

Quase posso ouvir daqui algumas pessoas indignadas lendo este texto e dizendo, “Você vai atribuir a culpa do seu acidente ao capitalismo???”

Sim!

Muitos motoristas não veem no ciclista um carro a menos na via dando inclusive mais espaço para ele. Ele vê uma competição pela via. ele vê um ser mais fraco (e com razão, afinal minha bike pesa 15 kg e um carro popular 1000 kg, lembrando do conceito físico de momento p = m.v, e perceberemos que é uma disputa desleal), Ele vê como um adversário. A lógica do sistema é do enfrentamento, do ódio, da oposição. Antes fosse um enfrentamento, um ódio, uma oposição revolucionária que visasse a mudança deste sistema maldito.

Escrevo este texto lembrando das tantas bicicletas brancas pregadas nas ruas de São Paulo em homenagem aos ciclistas mortos. Ao rapaz que perdeu o braço atropelado, àquele que perdeu a vida para o possante do Thor Batista e aos tantos anônimos que sequer foram registrados pela história.

O processo aleatório da vida é submetido ao processo social, em outras palavras, você não é um imbecil se se envolver num acidente, mas será um idiota completo se insistir em pisar o acelerador e ir embora.

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