Cultura escolar, cultura familiar e cultura do capital: de onde vem os interesses dos estudantes

Quando se propõe fazer uma educação escolar divergente dos modelos tradicionais e hegemônicos que existem em nossa sociedade é preciso levar em conta uma série de fatores que não são fáceis de pensar (duvido mesmo que eu saiba quais são todos eles). Recorremos então a um sem número de estudos teóricos mais aprofundados e vamos dando vida, na práxis, na teoria e na prática àquilo que acreditamos ser uma verdadeira educação de resistência.

Um dos fatores essenciais, que já coloquei em diversos artigos, é a relação entre transformação da educação e transformação da sociedade mais ampla. Trata-se de uma visão realista de que não basta acreditar que a educação pode ser transformada sozinha, sem uma transformação radical da sociedade. Em outras palavras, a educação tradicional e conservadora que existe hoje na esmagadora maioria de escolas serve muito bem aos interesses do sistema capitalista. Produz conformidade, reproduz os meios metabólicos do próprio sistema, molda a mão de obra barata que o próprio sistema precisa, etc. É uma educação que funciona muito bem. Funciona para os interesses do sistema em que vivemos. Nas palavras de Mészáros (2005):

A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu – no seu todo – ao propósito de não só fornecer conhecimentos e pessoal necessário à máquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes, como se não pudesse haver nenhuma alternativa à gestão de sociedade (…).

Se isso é verdade, não basta pensarmos numa educação nova, alternativa, livre, viva, seja lá o nome que se queira dar, sem pensar que dentro do atual modelo social e econômico ela ainda poderá ser esmagada/engolida pelo sistema. Desta forma a ideia é pensar em conjunto a transformação da educação e das escolas, ao mesmo tempo em que lutamos por uma transformação radical da sociedade.

O fator que quero elaborar mais profundamente neste texto é aquele que trata do conflito entre culturas que a educação escolar pode promover.

Um estudante quando chega na sala de aula pela primeira vez na vida, não vem, como muitos acreditam, desprovido de conhecimentos, vazio, tabula rasa. Ele já carrega consigo, mesmo aos 5 ou 6 anos, uma grande quantidade de conhecimentos a respeito do mundo, além de uma série de hipóteses que serão testadas dia após dia nas relações que vai travar na escola, com os outros estudantes, com os professores e outros agentes da escola.

Acreditar nesta falácia da tabula rasa constitui o primeiro erro de muitas escolas e educadores. Contudo apenas recusar esta falácia não garante o sucesso educacional que se espera. É preciso tentar entender qual a origem destes conhecimentos que ele traz. E, para as escolas “fora da caixinha”, que trabalham com a ideia do respeito aos interesses dos estudantes, a clareza da origem dos conhecimentos e interesses prévios se torna essencial.

Parto da premissa que na relação educacional existem 3 culturas principais: a cultura escolar, a cultura familiar e a cultura do capital.

A primeira sendo composta pelos conhecimentos e regras que são adquiridos principalmente na escola, a segundo sendo o conjunto de capital cultural (BOURDIEU, 2015) que a família transmite consciente ou inconscientemente para os filhos e filhas e o terceiro o conjunto de ensinamentos que a sociedade mais ampla transmite para os estudantes nos diversos recursos que eles têm acesso, como televisão, música, propagandas diversas, relações externas a família, etc.

A relação entre estas três culturas dentro da escola pode ou não ser conflituosa. Na escola tradicional e conservadora, por exemplo, a cultura escolar serve de chancela para o capital cultural que os estudantes trazem de casa. Esta relação pode ser encontrada bem detalhada nos livros  Escritos sobre educação, A reprodução, A distinção de Pierre Bourdieu.

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A diferença de capital cultural dos estudantes

Um brevíssimo resumo poderia dizer que as diferenças entre os estudantes encontradas nas escolas são, em muito, justificadas pelas diferenças de capital cultural que trazem das famílias. Onde uma determinada cultura é valorizada na escola em detrimento de outras.

A escola tradicional não atua de forma nenhuma contra a cultura do capital que é trazida pelos estudantes. Muitas vezes, pelo contrário, atua reforçando esta cultura quando valoriza o mérito individual, premia os estudantes por pequenas conquistas (endossadas por aquela mesma cultura valorizada que acabei de citar), etc.

Percebemos então que na escola tradicional, a relação entre as culturas não é conflituosa. Uma reforça a outra e os estudantes são então moldados de acordo com os interesses do sistema e filtrados de acordo com a bagagem que trazem de berço (basta pensar na configuração social dos jovens que entram nas melhores universidades do país).

Uma escola de resistência se propõe a um trabalho divergente deste que acabei de apresentar. Supondo que ela concorde a atue de acordo com o primeiro fator que coloquei neste texto, podemos pensar em como se daria a relação entre as três culturas dos estudantes que chegam neste tipo de escola.

dia_das_criancas_capitalismo_consumo_infantil-250x175A cultura escolar não pretende chancelar o capital cultural que os estudantes trazem. Por outro lado, a cultura familiar é mais homogênea nestas escolas. De maneira geral podemos pensar que existe um certo nível de instrução dos pais para confiar a educação de seus filhos à estas escolas. E a cultura que vem do sistema capitalista (muitas vezes oposta à das famílias) continua aparecendo com mais ou menos força nos interesses dos estudantes.

Acredito que devido a hegemonia do sistema capitalista em nossa sociedade e a força de propaganda de seus produtos (físicos ou imponderáveis), esta cultura será sempre maior que as outras duas somadas. Esta afirmação parece um tanto categórica, mas a coloco como hipótese a ser testada e estudada. Mas imagino que uma cultura escolar que faça frente aos produtos do sistema do capital somada a uma cultura familiar que também seja crítica deste modelo pode ser um bom começo para uma educação verdadeiramente emancipadora.

A escola que se propõe a este trabalho deve ser crítica aos interesses que os estudantes trazem (ser crítico aqui significa ajudar o estudante a se questionar de onde vem este interesse). Sob a pena, caso não faça isso, de chancelar o discurso de neutralidade que a ideologia dominante tenta nos fazer engolir.

Explico melhor, se acreditamos a priori que os estudantes não são tabula rasa, devemos levar em consideração os conhecimentos trazidos por eles para a escola. Contudo se apenas aceitamos que estes conhecimentos são originários dos próprios estudantes, não estaremos levando em conta toda a rede de influências que o mundo exerce sobre as pessoas, sejam elas adultas ou crianças.

(Para ler mais sobre a ideia de influencia dos professores nos estudantes, ler: Eu influencio seu filho e sua filha sim!)

Desta forma, ser crítico aos interesses é ajudar os estudantes a perceber de onde vem aquele interesse e apresentar novas possibilidades, expandir o horizonte para novos interesses, novas descobertas. Eis um importante trabalho que a escola deveria fazer.

Se a cultura da família for coerente com esta cultura escolar, tanto melhor será o trabalho pedagógico, pois assim conseguirão fazer frente a hegemonia da cultura do capital. Neste momento podemos dizer que temos uma verdadeira escola de resistência.

Referências

BOURDIEU, P. Estruturas Sociais e Estruturas Mentais. in Teoria & Educação, 3, 113 – 119. 1991.

________. A Reprodução. Petrópolis: Vozes, 2014.

________. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 2015.

MESZAROS, I. Educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.

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