Quase tudo que se ensina na escola não serve pra nada! (ou Como funciona a ciência?)

Imagino que parte das pessoas que chegaram até aqui para ler este texto, vieram pelo apelo dramático que coloquei no título. Mas o que pretendo desenvolver não é muito diferente do que está aí. De fato estou questionando a validade de um sem numero de aulas de ciências que acontecem todos os dias com uma excessiva reprodução de conteúdos que não servirão em nada para a vida destas pessoas.

Costumo dizer que falta ciência na vida das pessoas, mas quando digo isso não estou falando de uma lista de conteúdos que os livros didáticos costumam trazer, estou falando da falta que o entendimento do que seja ciência faz para mundo, para as pessoas.

A primeira ideia que precisa ser desenvolvida é que os cientistas não possuem superioridade nenhuma sobre os demais mortais (estou dramático hoje). São pessoas comuns, cheias de paixões, desejos, ideologias e crenças e carregam toda essa parafernalha para suas pesquisas e descobertas. Em outras palavras, o conhecimento está sempre mediado pela relação sujeito-objeto, o primeiro sempre carregando sua bagagem histórica e social para o entendimento do segundo (este argumento pode inclusive ser usado contra aqueles mal intencionados que querem uma escola “neutra”). O senso comum não segue este raciocínio. Imagina, pelo contrário, que o cientista é alguém iluminado (perdoem o trocadilho), que possui um poder de verdade em suas palavras sobre qualquer assunto. É isso que precisamos desmistificar, os cientistas sabem muito de algum assunto específico, o assunto que estudou por anos a fio. Não muito mais que isso.

A especialização de nossa sociedade fez com que um físico nuclear, por exemplo, saiba muito da sua área de trabalho, mas muitas vezes não possui conhecimento superior a média das pessoas quando o assunto é botânica ou química orgânica. A especialização que o mundo moderno trouxe faz com que existam, por exemplo, especialista em comportamento dos chimpanzés da Mongólia (nem sei se existem chimpanzés por lá), e ainda assim levantará a pergunta: Mas trata-se da parte sul ou norte da Mongólia?

Esta especialização absurda não nos levou apenas para o tipo de alienação que estou deixando subentendida aqui, ela nos conduziu a um extremo da técnica. Ao desenvolvimento de remédios, vacinas, homeopatia, avanços na comunicação, localização, sem falar nas descobertas absurdas como o planeta “Tipo Terra” Proxima b, descoberto este mês a 40 trilhões de quilômetros do sistema solar e que sustenta a esperança humana de se perceber menos solitário no universo.

 Ilustração mostra o planeta Proxima b orbitando ao redor da anã vermelha Proxima Centauri, vizinha mais próxima do Sol (Foto: ESO/M. Kornmesser)
Ilustração do planeta Próxima b orbitando sua estrela Próxima Centauri

A ciência é apenas mais uma linguagem, uma forma de conhecer o mundo tão válida como qualquer outra, porém diferente. A diferença está na sua lógica própria, no seu modo de funcionamento, no seu método.

Este caminho de raciocínio nos leva a pensar que na educação e na divulgação de ciências, muito mais do que uma lista de conceitos e conteúdos devemos ensinar o método. O modo de fazer ciência. É este conhecimento que permitirá o ser humano se tornar crítico e questionador sobre o funcionamento do mundo que conhecemos.

Em outras palavras estou dizendo que pouco importa o conhecimento das leis da cinemática, pouco importa decorar que F = m.a  ou ainda saber de cabeça a tabela periódica, se não se sabe como se desenvolveu o processo histórico e social para se chegar neste conhecimentos. Pouco adianta saber a fórmula do trabalho ou a conversão de km/h para m/s se não se conhece a lógica da ciência para construir este e outros conhecimentos (sem falar no entendimento da função social que eles exercem).

A ciência não se faz com chutes, não se faz ciência usando o método de cercar o gato (tentativa-erro), é preciso a observação minuciosa, o levantamento de perguntas e hipóteses, os testes e as experiências e a conclusão. Isso não torna a ciência etérea, imutável, permanente, nada disso. Ela pode ser transformada a qualquer momento. Contudo para que isso aconteça precisará passar pelo mesmo processo quantas vezes for necessário.

Entender como o mundo funciona pelo viés da mágica é fácil, basta aceitar a verdade parcial que alguém disser ou que algum livro mostrar. Seguir por este caminho não é necessariamente uma escolha, passa por toda a construção histórica do sujeito aliado a sua cultura e ambiente.

Tampouco entender como o mundo funciona pelo viés da ciência exige de você uma série de formulas decoradas nas carteiras escolares ao longo dos anos. Exige que você entenda como ela funciona e seu método.

Alguns insistem em dizer que acreditar na ciência é também um ato de fé. Se isso é verdade, prefiro ter fé em algo que consiga detectar um planeta de 20.000 km de diâmetro a uma distância de 40.000.000.000.000 km só pelo efeito gravitacional (o mesmo que explica por que as coisas caem) e me fazer imaginar mundos distantes que poderão ser conhecidos nesta (única) vida.

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