Formação política e assembleia na Politeia

Em tempos de reforma do ensino médio, na qual as ciências humanas são ameaçadas; em tempos de projeto Escola Sem Partido, que mesmo antes de virar lei já expõe e denuncia professores; em tempos de crise econômica e política, na qual o reacionarismo cresce e fica cada vez mais explícito; a Politeia Escola Democrática sempre assumiu em seu discurso e sua prática o trabalho pela formação política da comunidade escolar. Este é um dos princípios da, ou seja, uma orientação básica que guia as diversas práticas cotidianas dentro e fora da escola.

Entendemos a formação política como uma formação necessária para crianças, jovens e adultos nos dias de hoje, em que se torna cada vez mais difícil se posicionar, ter clareza de uma opinião e defendê-la.

Não nos furtamos a discutir os problemas sociais, crises econômicas, eventos políticos que nos transbordam todos os dias pela televisão, internet etc. Porém a formação política é mais que tratar de assuntos politizados. É a prática diária de participação nas decisões concretas da escola, na participação na escolha do próprio currículo escolar; é a participação na limpeza diária da escola, na manutenção de objetos quebrados, na construção do cardápio, no desenvolvimento dos interesses individuais de pesquisa e nas decisões coletivas que abarcam toda a comunidade escolar. Aqui na Politeia, estudantes, educadoras e educadores dividem-se em todas essas etapas.

Henry Giroux, falou isso muito antes de nós com as seguintes palavras:

A escola é um processo político, não apenas porque contém uma mensagem política ou trata de tópicos políticos de ocasião, mas também porque é produzida e situada em um complexo de relações políticas e sociais das quais não pode ser abstraída (GIROUX, 1986).

A escola faz parte de um contexto social e se relaciona diretamente com ele. Seja nas relações diretas que estabelece, seja no intercâmbio do que todos “trazem” do mundo de fora para dentro e vice-versa. Uma escola não é uma bolha isolada da sociedade.

Tudo isso para dizer que a educação neutra é uma falácia. Não existe e nem pode existir.

Nós temos sim um lado. O lado que forma sujeitos para questionar a sociedade e a forma como vivemos. O lado que, ao perceber algo errado no mundo, se propõe a transformá-lo. O lado que se mantém incomodado.

O grande educador brasileiro Paulo Freire nos disse algo parecido:

Não há nem jamais houve prática educativa em espaço-tempo nenhum de tal maneira neutra, comprometida apenas com ideias preponderantemente abstratas e intocáveis. Insistir nisso e convencer ou tentar convencer os incautos de que essa é a verdade é uma prática política indiscutível com que se pretende amaciar a possível rebeldia dos injustiçados. Tão política quanto a outra, a que não esconde, pelo contrário, proclama, sua politicidade (FREIRE, 1988).

É importante que as escolas se posicionem e digam que tipo de sujeito pretendem formar. Mas além disso, é preciso mostrar as práticas diárias que levam a essa formação.

Ontem (18/10) fizemos uma assembleia histórica na Politeia. Uma assembleia que deliberou sobre os próprios rumos das próximas assembleias. Uma assembleia para decidir sobre como serão as próximas decisões na escola.

Em uma hora e trinta minutos os estudantes, educadoras e educadores colocaram propostas, argumentaram, debateram, votaram e decidiram. Criou-se a ideia de que a assembleia deva ter vinculado a ela um grupo de trabalho para elaborar melhor as propostas antes das discussões. Voltamos para o modelo com mesa de assembleia, onde os estudantes organizam a pauta e ata. E decidiu-se pela não obrigatoriedade na participação da plenária.

Essa decisão não foi unânime. Por um lado, o argumento de que é importante participar para aprender e que as decisões sobre o funcionamento da escola precisam da participação de todos e por outro lado, a ideia de que a participação não deva ser obrigatória e que eles devam aprender na prática (inclusive na ausência) a importância da participação.

Depois de argumentos dos dois lados, de vários estudantes se posicionando, a decisão final foi pela não obrigatoriedade.

Além das assembleias semanais, temos as comissões de responsabilidades onde os estudantes, junto com a equipe docente, se responsabilizam pelas tarefas já citadas como a horta, o cardápio da escola, a manutenção dos objetos quebrados, arrumação da escola etc. Ou seja, participam da construção real da escola.

Desta forma e com outros dispositivos, a Politeia mostra como é possível outra educação.

Uma educação que faz resistência ao modelo tradicional, que forma sujeitos pensantes e questionadores, para um mundo que, cada vez mais, precisa de questionamento.

Referências

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 18. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

GIROUX, H. Teoria Crítica e Resistência em Educação. Petrópolis: Vozes, 1986.

*Texto escrito por Osvaldo de Souza e editado por Carol Sumie, Francisley da Silva Dias e Yvan Dourado; educadores na Politeia.

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