A mochila invisível

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A mochila invisívelAs vezes, poucas vezes, ter a postura crítica e questionadora pode gerar problemas…

Na verdade gera problemas o tempo todo. Mas são problemas que até gostamos de encarar. Um debate político, uma opinião reacionária que é preciso responder, etc.

Neste caso estou falando das divagações que tive ontem enquanto estava fazendo a prova de ingresso do doutorado da Unicamp.

Enquanto respondia a questão que era relacionar o meu projeto de pesquisa com os autores apresentados na bibliografia (Marx, Weber, Durkheim, Bourdieu a porra toda) eu, vez ou outra, divagava pela sala enquanto deixa a natureza agir e os pensamentos fluirem pelas centrais nervosas do corpo até chegarem na ponta do dedo, que por sua vez segurava despretenciosamente, mas muito doloridos (faz anos que não escrevia textos longos no papel), a caneta.

Nestas olhadas ao redor eu fitei uma moça que tinha no pescoço uma guia, daquelas usadas na umbanda ou candomblé, marrom, só que um pouco mais grossa do que as tradicionais que conheço tão bem, já que tenho uma mãe que é Mãe de Santo.

Pronto. Bastou isso para meu pensamento ir longe… pensei como eu me sentia melhor por não ter crenças em nenhuma entidade mística num momento desses, por que, pensei na hora, quem crê em algo deve pensar se rezou/orou/fez o que quer que seja, suficiente para passar na prova. E os demais, também não teriam rezado/orado/feito o que quer se fosse? Teriam feito mais que eu?

(lembrei do casa da pessoa que rezou demais antes da prova do ENEM e perdeu a hora…)

Estar livre destas amarras sociais, sim considero a religião mais uma das tantas amarras sociais que estamos submetidos, significa ficar tranquilo para o fato de passar ou não passar na bendita prova. Não dependo em nada, de algo externo a mim.

Neste mesmo momento soou um alerta na minha cabeça e conversei comigo mesmo:

– Pera lá! Isso está parecendo meritocrático!

– Não! Mas preciso mesmo tomar cuidado, pois essa ideia de não depender de nada externo pode cair numa meritocracia velada.

– Nem velada, descarada mesmo… significaria que cada um nesta sala passa ou não passa na prova por que se esforçou o bastante ou não.

– Verdade não posso cair neste erro.

(Não banque o/a assustado/a leitor/a, quem nunca teve um papinho de leve consigo mesmo?)

Não se trata de esforço pessoal. Passar ou não passar numa prova dessas ou em qualquer outra, tem a ver com muitos outros fatores. Foi neste momento que criei a ideia da “Mochila invisível”.

Imaginei na sala de provas, cada uma das pessoas carregando uma mochila invisível onde estão guardadas nossas bagagens históricas. Nossos conhecimentos acumulados, nossos traumas, nossos medos, nossos valores, nossos aprendizados familiares etc.

(lembrei de um amigo de faculdade, Francisco, que falava, enquanto carregava sua mochila cheia de livros e absurdamente pesada, que aquele era o peso da ignorância, que por não conseguir carregar os conhecimentos da faculdade na cabeça era obrigado a carregá-los nas costas…)

O que as provas da vida fazem não é mais que exigir que você esteja carregando a bagagem certa para eles. Eles gostam e elegem umas bagagens como mais válidas que outras. E o sucesso tem a ver com a sua bagagem ser aquela que a prova pediu. Todos (todos mesmo!) temos uma serie de conhecimentos, muitos deles reproduzidos pela escola e família, um outro tanto incorporado em nós pelo atual sistema econômico-social em que vivemos. O capitalismo. Mas muitas vezes não somos aceitos pois estamos usando uma bagagem estranha para aquele lugar. É a forma de fazer a exclusão!

Pensei tudo isso e despertei para a prova novamente. O problema que apresentei na primeira frase é o tempo da prova que estava se esgotando enquanto eu fazia divagações.

Bom, gostei da ideia da mochila invisível e fico pensando em quantas coisas eu carrego na minha e quantas coisas eu prefiro jogar fora deliberadamente, mas mais grave que isso são as coisas que o próprio sistema coloca na nossa mochila sem que percebamos ou ainda as coisas que esse mesmo sistema tira de nós enquanto estamos distraídos.

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