A esquerda que defendia fascista e outros contos absurdos

 

Era uma vez uma história que ninguém no século XX podia imaginar. A história da esquerda que defendia fascistas.

Chegamos num ponto crucial da história, a outra história, aquela que não poupa ninguém e é tão real quando o ar que respiramos agora. Assim como no começo do século XX, a crise econômica mundial assola o mundo e avança cada vez mais para a barbárie e as guerras. Assim como em 1938 Trotsky anunciou que a guerra seria o desfecho da crise, vemos hoje as tensões entre Coreia do Norte e EUA, EUA e Russia, ataques dos EUA na Síria, etc, apontando para o desfecho certo. A guerra e a destruição das forças produtivas.

É sem dúvida um tempo muito convulsivo e os posicionamentos políticos se tornam cada vez mais claros, acirrados e definidos.

Este texto tem como ponto de partida um vídeo que está circulando pela internet em que a apresentadora de jornal Sherazade é esculachada pelo apresentador e patrão dela, Silvio Santos, mas não fica nele. Pretendo levantar uma discussão muito profunda ainda que me limitando a profundidade que um texto curto como este pode alcançar.

Com relação a eu ter postado algo rindo da situação, recebi uma série críticas de que era um ataque machista e que eu não deveria apoiar, palavras de ordem de que ela não merecia aquilo, textos na internet com o título “o dia em que apoiei uma fascista”, texto da Socialista Morena falando sobre assédio moral, etc. Sem falar que fui, pela primeira vez, chamado de esquerdomacho. 

Tirando o fato de que eu não deveria nem estar escrevendo aqui pelo fato de eu ser homem, acho sim que no momento em que ele fala de ter contratado pela beleza dela ele foi machista. No mais, na minha masculina opinião, ele criticou o fato dela abrir a boca e falar o que bem entendesse.

O principal, no entanto, está longe desta discussão.

O princípio é o que deve sulear a discussão. O princípio é: NENHUM FASCISTA DEVE SER DEFENDIDO!!!

O fascismo que surgiu no começo do século XX, nacionalista e racista, ditatorial, ainda resiste em nossos dias como claras manifestações do ódio de classe em nossa sociedade. O fascista hoje nada mais é do que aquele que encarna o ódio a classe proletária.

Sherazade, por suas falas se encaixa perfeitamente na definição de fascista.

Quando um agrupamento político ou tendência de esquerda decide defender a Sherazade, está simplesmente defendendo uma fascista e por consequência direta, abandonando a classe dos oprimidos.

Este tipo de postura tem aparecido muito em agrupamentos feministas de classe média, coletivos do movimento negro, partidos de esquerda centrista e outros agrupamentos que colocam as lutas particulares desvinculadas da luta mais geral pelo fim do capitalismo. Colocam as lutas particulares na frente da luta para acabar com a burguesia e as tendências fascistas que exploram a classe proletária. Em poucas palavras: colocam a luta de classe em segundo plano.

Uma destas páginas “de esquerda” chegou a postar esta semana a seguinte frase: “Não existe capitalismo sem machismo”.

Uma conceituação tão bizarra que dispensaria qualquer argumento, mas ainda assim vivemos em tempos de necessidade de explicar o óbvio, e a frase induz a ideia de que se acabarmos com o machismo o capitalismo acaba!!!

Incrível quem inventou isso! Um gênio!

Uma inversão assustadoramente grotesca dos conceitos trabalhados principalmente por Engels há mais de 100 anos em seu A origem da família da propriedade privada e do Estado.

Não existe o menor indício, nem a mais mínima formulação teórica séria que sustente este conceito, no entanto algumas pessoas espalham e outras acreditam.

É óbvio que a opressão sobre a mulher não vai acabar como uma passe de mágica ao fim do capitalismo, mas só podemos imaginar o fim real desta opressão (da violência, do patriarcado, dupla jornada da mulher etc) com o fim da propriedade privada dos meios de produção.

As sociedades antigas, que tinham a mulher com espinha dorsal da família (não estou falando da família burguesa), foi substituída pela sociedade patriarcal quando o homem passa a acumular riqueza e passar essa propriedade para os filhos, que antes eram apenas associados a mãe.  

Na sociedade primitiva a descendência “contava apenas pela linha feminina”. Os filhos não pertenciam a gens paterna e sim a gens materna. “Com a morte do proprietário de rebanhos estes teriam de passar primeiramente para seus irmãos e irmãs e aos filhos destes últimos, ou aos descendentes das irmãs de sua mãe. Quanto aos seus próprios filhos, eram deserdados”. Continuou Engels: “À medida, portanto, que as riquezas aumentavam estas davam ao homem, por um lado, uma situação mais importante na família que a da mulher, e, por outro lado, faziam nascer nele a idéia de utilização dessa situação a fim de que revertesse em benefício dos filhos a ordem de sucessão tradicional. Mas isso não podia ser feito enquanto permanecia em vigor a filiação segundo o direito materno. Este deveria, assim, ser abolido e foi o que se verificou”. Assim “foi estabelecida a filiação masculina e o direito hereditário paterno” (MARX, ENGELS, LENIN, 1980:15).

A opressão sobre a mulher terá o começo do fim quando a mulher estiver plenamente inserida na produção social. Quando não estiver mais presa as atividades privadas da família ou do lar e quando a propriedade privada dos meios de produção deixar de ser do domínio quase exclusivo dos homens.

É uma luta que está totalmente vinculada a destruição definitiva do capitalismo. Colocar esta luta descolada ou sobreposta a luta de classe é um erro contrarevolucionário!

Retomando a lógica para não perder o fio da meada.

  1. Não podemos defender fascistas.
  2. Defendê-los (QUALQUER UM) implica em inverter princípios e abandonar a defesa da classe.
  3. Este é o erro de quem elege lutas mais importantes que a luta pela destruição do capitalismo.
  4. Em uma só expressão, abandonam a luta de classe!

Os outros contos absurdos do título deixo para outros textos, mas podemos apenas citar alguns…

A verdade da meritocracia, O poder que foi tomado usando o diálogo, a ciranda revolucionária, a invenção dos novos métodos de luta contra o método ultrapassado da greve, etc…

 

 

Referências

Marx, Engels e Lênin, Sobre a Mulher, Global editora, S.P., 1980

 

Vídeo

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1 comentário

  1. Cabe lembrar que ninguém saiu em defesa da Sherazade espontaneamente mas as pessoas se posicionaram criticamente em relação a sua atitude de aplaudir a atuação do Silvio Santos enquanto patrão. Você defendeu o assédio moral pautado numa relação de poder entre patrão e empregado e ainda justificou o machismo. Muito fora do conceito de esquerda que tanto defende. Que fique bem claro.

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