A despolitização dos movimentos por uma nova educação

Neste feriado, 13, 14 e 15 de Abril, participei do Simpósio por uma educação inovadora e inclusiva em Poços de Caldas, MG.

(http://lepaicontato.wixsite.com/simposio)

Escrevo este texto para agradecer o convite e deixar registrado alguns pontos que coloquei lá sobre nossa visão de educação.

Quando uso o termo “nossa visão” ou invés de “minha visão”, não é um tipo de falsa modéstia de jogador de futebol. É porque, quando se trata de discussões acadêmicas nunca estamos sozinhos. Nossas opiniões vêm sempre carregadas dos autores que lemos, dos colaboradores e amigos com que trocamos ideias e nos formamos.

Indo direto ao ponto…

Os eventos que tratam de uma educação nova, democrática, alternativa etc., tem se mostrado pouco politizados no sentido da política propriamente dita que é tão imbricada com a educação (tanto pública como privada). Eles se esquecem das vinculações com o poder público, com o sistema do capital e com as pressões sociais.

O CONANE, Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação, que fará este ano sua terceira edição em Brasília, mostra em sua programação que o debate sobre educação política passou longe. Na segunda edição, em SP, conseguimos colocar na programação rodas sobre Educação e Marxismo e debates sobre a greve de professores.

WhatsApp Image 2017-04-16 at 09.16.08Nos últimos dias aconteceu em Israel o IDEC, a conferência internacional mais importante da educação democrática. Mais de 700 participantes e muitos países. Mas o relato que chega até nós é que reinou a crítica aos conteúdos e o elogio às novas tecnologias na educação.

Em um texto pelo Portal Aprendiz, Helena Singer relata o evento e traz a fala do Indiano Sugata Mitra, sobre sua visão de educação.

O Simpósio por uma educação inovadora e inclusiva, teve muitos méritos e devem ser ressaltados, como a presença da professora da Unicamp Maria Teresa Mantoa, falando sobre a inclusão na educação. A fala sobre a educação na Finlândia, a apresentação da professora Fátima Pacheco, sobre a escola da Ponte, a inspiradora apresentação da professora Sonia Siquelli sobre Paulo Freire, entre outros.

Contudo avalio que falta falarmos sobre as questões políticas que a educação inovadora não está imune.

Esta constatação que coloco aqui foi reforçada pelo número muito grande de pessoas que estavam no evento e vieram em parabenizar e ressaltar que estava faltando no evento aquilo que coloquei na minha fala.

De maneira resumida (o vídeo completo pode ser encontrado aqui: https://youtu.be/dMHexPiy0Lc), coloquei dois princípios na minha apresentação:

  1. A educação não é neutra.
  2. Para mudar a educação é preciso mudar a sociedade (seu modo de produção).

Daí decorre uma série de temas que precisam ser aprofundados, mas precisamos ter isso claro quando vamos falar de educação.

Se estes princípios são verdadeiros, as escolas que estou chamando de escolas de resistência (aquelas que fazem a resistência a um modelo hegemônico de educação – a chamada educação tradicional), precisam se proclamar políticas em sua essência, em sua proposta pedagógica e em seus princípios.

É preciso tratar dos temas políticos e colocar a política, a democracia direta nas suas práticas diárias.

Estamos em pleno século XXI e ainda temos pessoas morando na rua, crianças na rua, pessoas que morrem de frio, a fome ainda existe e a educação não está trabalhando para que estes problemas sociais cheguem ao seu fim.

A educação tradicional continua falando do “tetraedro de titânio”, da “oração subordinada”, do “movimento circular uniforme” e de “Báskara” enquanto acontece do lado de fora dos muros da escola, o maior movimento político desde a guerra fria. Uma possível guerra de dimensões globais, uma crise de refugiados no mundo, uma série de ataques aos trabalhadores no Brasil, etc.

Esta minha fala não se trata de uma crítica pura aos conteúdos. Nem um elogio ao discuso do “aprender a aprender”.

Os conteúdos são extremamente importante já que são os conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade. Não podemos esperar que os estudantes reinventam a roda, a pólvora e a lâmpada.

Além disso, é preciso colocar na pauta das discussões da educação nova, que os conteúdos podem ser facilmente dispensados na classe média ou elite, mas que dispensar os oprimidos, os pobres, os esfarrapados do mundo dos conhecimentos que a humanidade acumulou é privá-los do acesso social.  Os conhecimentos podem ser emancipadores e libertadores.

Mas não podem ser apenas uma lista aleatória e imposta por um livro didático. Os conteúdos precisam ser abordados de maneira crítica e emancipadora. Relacionados com a prática da pergunta, da dúvida, da formação crítica. Relacionados com os acontecimentos do mundo, vinculados a produção social. 

Outro debate que eu levei para o evento partiu de uma frase que parece polêmica a primeira vista:

uma educação para todos não serve para ninguém.

É comum ouvirmos o discurso que a educação deve ser para todos. Esse “para todos” é quase sempre despolitizado. É preciso perceber que vivemos numa sociedade de classes. Vivemos no capitalismo e numa sociedade assim dividida não existe todos!

Os interesses são essencialmente diferentes, são antagônicos. Uma escola para a elite terá um propósito, uma escola para os oprimidos terá outra intenção. Uma escola para todos no fundo atuará em um dos lados da luta de classe e, como este discurso do “para todos” tem servido historicamente para despolitizar e enfraquecer o conteúdo de classes, esta escola para todos servirá aos interesses da burguesia.

Ainda discutimos o perigo que as escolas de resistência correm de ser cooptadas pelo sistema, pelas empresas, pelos institutos para mostrar que estão atuando pela educação inovadora quando no fundo estão apenas buscando isenções fiscais, formação de mão de obra especializada e conformada para suas empresas.

Entre estas empresas e institutos se destacam o Itaú-Unibanco, Instituto Airton Senna, Fundação Leman, etc.

Não devemos ter confiança nenhuma no sistema capitalista. Ele não é capaz de promover qualquer elevação social e política aos oprimidos. Seus representantes, a burguesia e os governos burguesas, são nossos inimigos. Estão do lado oposto.

Os recentes acontecimentos no campo da educação corroboram com minha abordagem neste texto. Os professores do estado de São Paulo amargam o terceiro ano seguido sem nem um centavo de aumento. A reforma do ensino médio foi aprovada jogando a educação do país numa precarização ainda maior, iludindo os estudantes na falsa escolha dos percursos de conhecimento. A PL 55 foi aprovada e congelou os repasses para educação pelos próximos 20 anos. Os grêmios estudantis estão massacrados tendo que seguir calendário do governo. Em alguns estados (principalmente Goiás) as escolas estão sendo entregues para a polícia militar e organizações sociais, uma clara privatização da educação. No ensino superior as redes particulares estão crescendo cada vez mais e ainda contam com dinheiro público para isso. Os professores amargam os menores salários de todos os profissionais com ensino superior. Só para dizer alguns exemplos de ataques recentes que me vieram a cabeça agora.

Amor e poesia combinam menos com a educação que resistência e luta!

As escolas de resistência (Escola Politeia, EMEF Amorim Lima, CIEJA Campo Limpo, Escola Lumiar, CPCD, Escola da Ponte e tantas outras) cumprem um papel importante na atual conjuntura, apontar o caminho, apontar o sul!

Elas tem o potencial para cumprir o que Engels e Marx pensaram sobre a educação, apontar o falência do sistema atual e mostrar que outro mundo é possível, mostrar que precisamos de uma transformação social. Contudo ainda estão longe desta realização.

Infelizmente ainda impera uma certa ingenuidade por parte de muitas pessoas que lutam por uma educação nova, esquecem que dentro do sistema capitalista esta educação não fará o menor efeito, ou ainda pior, pode ser usada para a manutenção do próprio sistema.

Pra finalizar: Só faz sentido pensar numa educação de resistência se combinarmos esta luta com uma transformação radical do modo de produção capitalista!

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