A breve história de um “Vai tomar no seu cu”

Nunca me esqueço de um livro do Saramago que li, chamava Objecto Quase, e era um livro de contos. Um dos contos, que não me lembro o nome, tinha umas 20 páginas para descrever a queda de um ditador da cadeira. Achei aquilo incrível, como ele descreveu os detalhes do acontecimento, desde de a posição social do ditador até o cupim que corroeu a cadeira até chegar ao ponto de quebrar.
 
Sempre quis escrever algo assim e minhas tentativas foram sempre medianas. A melhor foi “O bêbado e a escada”. Hoje faço algo parecido, mas algo que aconteceu de fato comigo.
 
Hoje tomei um “Vai tomar no seu cu” tão bem dado, com tanto gosto em ser dito, que o momento foi gravado em minha memória como se fosse câmera lenta. Achei que valeria a pena descrevê-lo.
 
Estava num dia normal, fazendo piquete na frente de uma fábrica no dia da Greve Geral no Brasil. Coisa normal, afinal greve é para paralisar mesmo. Como disse um amigo Roberto, greve é para incomodar, se fosse pra todo mundo ficar feliz a gente fazia um churrasco.
 
Só que nem todo mundo pensa assim e alguns insistem em trabalhar e cumprir sua função social diária mesmo quando seus direitos estão sendo retirados um a um. Mas essa pessoa não parecia um trabalhador qualquer. Chegou com seu carro-espaçonave no piquete e não quis nem saber, jogou o carro para cima dos manifestantes. Nós reagimos gritando e batendo no carro. Neste momento o ilustríssimo abriu a porta com tanto furor e fervor que imaginei na hora, “fodeu, é agora que vamos sair na mão”.
 
Que nada, quando saiu do carro olhou pra polícia e começou a acenar chamando o braço armado do estado e da burguesia para defender seus direitos. No entanto a polícia lhe deu pouca importância e ele se viu sozinho, cercado de manifestantes. Começou a esbravejar e empurrou a porta do carro contra nós. Eu que estava na frente dele mandei vazar. Falei algo como, “vai pra casa, hoje é greve” ou “sai fora, ninguém vai passar hoje”, não lembro bem, mas a mensagem era bem clara: NÃO PASSARÃO!!!
 
Neste momento o digníssimo burguês olhou pra mim, um metro de distância, puxou de dentro de si, no mais profundo âmago, a frase “V a i t o m a r n o s e u c u”, falada deste jeito, ca-den-ci-a-da-men-te… saboreando cada letra, cada sílaba, cada palavra, saboreando o imperativo da frase, o verbo e o objeto. Neste caso objeto bem direto.
 
Ele puxou aquela frase muito fundo, puxou do fundo dos quatrocentos anos de escravidão que tinham dentro dele. Afinal como alguns negros poderiam impedir o sacro santo direito burguês de ir e vir? Quem foi que deu a alforria deste negrinho?
 
O “vai tomar no cu” deste senhor não era pra mim, era para a história. Para a libertação e emancipação de tantos negros que agora podem, de quando em quando, se rebelar contra os senhores de engenho que tem no mundo e pior, os senhores de engenho que existem nas cabeças das pessoas.
 
Ele puxou aquela frase do fundo de toda a exploração capitalista que ele e sua família e a família de sua família promoviam a séculos. Afinal como pode um pobre, explorado, esfarrapado do mundo se colocar diante de mim e meu caminho imperial?
 
Ele puxou de dentro da hierarquia patrão-operário que lhe cabia e que estava sendo desafiada. Como pode um peão se colocar na minha frente? Peão eu coloco pra trabalhar 12 ou 16 horas e só vai pra casa pra comer e descansar pra poder trabalhar no outro dia. Ah não, isso é mais assim. Vieram as lutas, os sindicatos, as conquistas e diminuíram as possibilidades de exploração dos sujeitos.
 
A pressão, que na física é a força sobre a área e tem como explicação os choques das moléculas ou pequenas partículas sobre as paredes do recipiente, promovendo uma somatória de pequenas forças em pequenas áreas, tem no corpo humano uma relação com o sangue que corre em nossas veias e a dilatação destas.
 
Enquanto ele falava, aquilo que lhe pareciam saborosas palavras, suas veias da região do pescoço saltaram de tal forma que é certo ter promovido uma variação de pressão sanguínea. Mas o que é a pressão social?
 
Um trabalhador ou trabalhadora que acorda todos os dias 4 da manhã, vai para a fábrica daquele sujeito, trabalha algumas horas pelo seu salário real e outras tantas horas para enriquecer o patrão, promover a mais-valia, pega busão lotado, paga aluguel, paga as contas, paga o imposto, paga, paga, paga e se culpa toda noite por não ter vencido na vida, como se isso fosse de fato uma opção válida, não tem nada e ainda está com seus direitos elementares sendo retirados, tudo isso, pode ser um bom exemplo do que seja pressão social.
 
“Vai tomar no seu cu!!!”
Esta frase singela poderia ser entendido como:
 
“Sai da minha frente seu preto”.
 
“Sai da minha frente seu pobre”.
 
“Sai da minha frente seu vagabundo”.
 
Entre tantas outras interpretações que poderiam surgir. Todas elas dizendo no fundo a mesma coisa. Eu venci a luta de classe, como vocês ainda estão de pé?
 
Para estes casos recomenda-se a resposta: Não passarão!
 
Não passarão pelo piquete, mas principalmente, não passarão pela história!
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s