A Palavra “Filho” no Meu Nome (dia dos pais)

Diante de um texto de Pierre Bourdieu me deparei com duas expressões:

“A hereditariedade nunca perdeu para o mérito” e “O nascimento nunca perdeu para as obras”, neste caso o debate era sobre questões escolares e a ilusão que veio no pacote da abertura da “educação para todos” da década de 60, quando se pensou que com oportunidades escolares iguais para todos a competitividade seria equivalente e todos teriam chances iguais na vida. Isso é Falso!

Em seguida pensei, eu carrego comigo esse valor (mesmo que simbólico) da hereditariedade. A palavra “Filho” que tenho no nome. Aqui em Portugal, onde estou nesse momento, eles não possuem nomes seguidos de Filho, nem Júnior, essa descoberta foi para mim um tanto surpreendente já que veio daqui, na colonização, esse habito de passar um legado ao filho pelo nome, porém com os antigos lusitanos era através de um numero romano, Pedro II, João III, etc.

Sem fazer um estudo aprofundado do assunto eu palpitaria que este habitus de classe que se impôs a nossa sociedade brasileira recém-republicana veio com os barões, senhores de engenho e “doutores” desse período, que na importância do seu status, garantia a reputação e facilidade de acesso ao mesmo status ao seu filho que levasse o seu nome. Desta forma isso se manteve e (de uma forma um tanto engraçada) hoje vemos nas mais singelas periferias do país os pais que passam ao seu filho nada mais que o legado de sua miséria (citando Brás Cubas), passam a única coisa que possuem, o nome. É incrível e triste perceber que muitas vezes a única coisa que uma pessoa possui é seu nome e dele ela guarda enorme zelo.

Não sou filho de um barão do café, mas carrego o Filho no nome, e para mim isso parece uma concretização da ideia de Bourdieu do habitus de classe adquirido. O vazio da palavra e do bolso.

Uma atualização precisa ser feita neste texto. Mais que uma atualização, uma confirmação deste texto de 2010, agora em 2017. 

Nos últimos anos fui “ganhando uma filha”. 

Ela também carrega no sobrenome a herança do pai. Porém não carrega na sua vida e o sentimento vai cada vez mais rareando. 

O idiota que dá o nome e metade da genética, mas que não dá nem o que a lei obriga, a pensão, é quem sai perdendo mais. Ele não conhece a filha que tem. Ela é incrível e mostra isso a cada comentário curioso ou sacada genial que tem pra rechear minhas delícias de ser educador. E é nós abraços longos e apertados, quase que diários que ela mostra quem é… 

Não estou dizendo que se vive de carinho e amor, não vive. Mas o legado da miséria pode estar para além do sobrenome. Pode estar na indiferença e no abandono. Práticas tão comuns entre tantos pais por aí. 

Quanto a mim, só posso ficar feliz por fazer parte dessa pequena história e seguir aprendendo com ela. 


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1 comentário

  1. O bom é quando esse legado – nome do Pai -, também seja assimilado o caráter. Uma educação por princípios. Ser Ético.
    Riqueza, que o Filho vá construir a sua.

    Legal saber sobre essa nomenclatura.

    Beijo,

    Curtir

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