Luta de classe, educação e revolução – Newton Duarte

Escrevi alguns pequenos comentários a respeito da entrevista de Newton Duarte para a revista Germinal. Segue abaixo:

Para baixar a Entrevista completa com o Newton Duarte

Por: Celi Nelza Zulke Taffarel, Maria de Fátima Rodrigues Pereira e Elza Margarida de Mendonça Peixoto.

Desta feita, Germinal: Marxismo e Educação em Debate entrevista um dos mais contundentes opositores das pedagogias do capital na atualidade, com destaque para uma produção intensa de crítica às pedagogias do aprender a aprender, disseminada em artigos, livros e conferências pronunciadas por todo o Brasil. Estabelecendo como meta deste número a reflexão sobre as possibilidades abertas para a revolução, considerando as reflexões do V. 2, N. 2 que tratou das possibilidades e limites do Projeto Histórico Comunista, Celi Taffarel, Maria de Fátima Rodrigues Pereira e Elza Peixoto estruturaram o roteiro da entrevista que busca apanhar a avaliação de Newton Duarte sobre a atual conjuntura, no âmbito das relações hegemônicas e das possibilidades abertas para a educação.

Este fichamento consiste em destaques feitos por mim a entrevista dada por Newton Duarte a revista Germinal. Nela ele traça ideias gerais sobre as propostas da teoria marxista para a educação, faz críticas duras direcionadas a alguns campos do próprio marxismo e aos pós-modernistas e educadores e educadoras que se inspiram ou praticam a chamada pedagogia do “aprender a aprender” e suas várias ramificações.

Já na primeira questão o pesquisador coloca que é preciso entender bem que o termo “revolução” pode ser usado de diversas formas e mais que isso, na perspectiva marxista é uma etapa do processo de construção do comunismo passando pelo socialismo. Eu poderia complementar que, se a estratégia é a construção do comunismo, a revolução é a tática necessária para se chegar lá.

Em seguida se debruça sobre a questão da cultura universal, a qual a sociedade capitalista potenciou, mas que não está plenamente desenvolvida. E responsabiliza partidos e grupos de esquerda a negarem este conceito já presente em Marx e Engels, e caírem na particularização dos coletivo e pequenos ou grandes grupos. Ainda que a revolução e a construção do socialismo visem acabar com as mazelas da sociedade capitalista este não é um fim. O fim estaria na construção da sociedade comunista com a possibilidade do desenvolvimento de todas as potencialidades humanas.

Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver desaparecido a escravizante subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for apenas um meio de viver, mas se tornar ele próprio na primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento múltiplo dos indivíduos, as forças produtivas tiverem também aumentado e todas as fontes da riqueza colectiva brotarem com abundância, só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: «De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades!» (http://insrolux.org/textosmarxistas/programagotha.htm). (p. 2)

Uma discussão importante que se segue é a do papel da escola no transformação da sociedade.

Nas palavras de Newton Duarte “A escola é o lugar por excelência da luta pela socialização do conhecimento” e sendo assim é parte importante do processo de luta revolucionária pela construção de uma nova sociedade.

Critica autores no campo do próprio marxismo que não consideram que o conhecimento seja um meio de produção e como a luta pelo comunismos passa pela tomada dos meios de produção, a escola não seria um campo de disputa da revolução social.

O argumento usado por N. Duarte consiste na relação de objetivação do conhecimento nos meios de produção capitalistas. Em outras palavras, através do trabalho o ser humano objetiva o conhecimento em seus produtos. Sendo assim estabelece uma forte relação entre os conhecimentos historicamente acumulados pela humanidade e os meios de produção. Sendo assim a luta pela socialização do conhecimento (ou seja a luta pela escola) é também uma luta pela revolução.

A luta pela socialização do conhecimento é, portanto, um componente imprescindível da luta contra o capital. Mas, se por um lado, é evidente a incorporação de uma parte do conhecimento científico aos meios de produção, por outro lado há outros conhecimentos científicos que não foram incorporados aos meios de produção. Menos ainda foram incorporados aos meios de produção os conhecimentos artísticos e filosóficos. Mas afirmei acima que o papel da escola na luta pelo socialismo relaciona-se, além da luta contra o capital, à formação plena dos seres humanos. No espírito de minha resposta à primeira pergunta gostaria de dar um especial destaque a esse ponto. A transmissão do conhecimento científico, artístico e filosófico pela escola é de grande importância quando se tem a perspectiva da formação dos indivíduos na direção caracterizada por Marx, ou seja, da constituição da individualidade livre e universal. Há autores marxistas contemporâneos que consideram burguesa e limitada a idéia da escola como instituição que privilegie a transmissão de conhecimento. Afirmam esses autores que a escola deveria ligar-se à vida e que uma escola centrada na transmissão do conhecimento é uma escola desconectada da vida real dos alunos. Essa é uma visão estreita e imediatista das relações entre escola e vida. Tal visão decorre, por sua vez, de uma visão igualmente estreita e imediatista das relações entre o conhecimento e a prática social. (p. 4)

A transmissão do conhecimento na perspectiva marxista vai muito além da pecha de conteudismo. Trata-se de ir além da vida cotidiana dos proletários e filhos dos proletário. Entretanto, como afirma N. Duarte, alguns autores marxistas jogam a favor da burguesia quando desvalorizam ou secundarizam a escola e os conhecimentos poderiam ser transmitidos por ela, negligenciando uma possível formação dos oprimidos, condição necessária para a libertação e superação do capitalismo.

Este ponto se liga diretamente com o seguinte, sobre a defesa incondicional da escola pública e de seu papel de transmitir os conhecimentos historicamente acumulados.

Parece-me que a insistência dos ataques à obra de Dermeval Saviani e à pedagogia histórico-crítica revela, ao contrário do que afirmam seus opositores, o vigor e a força dessa perspectiva na defesa da escola pública.

Mas é claro que a defesa da escola pública não se apóia apenas em referências acadêmicas, por mais importantes que elas sejam. Há necessidades dos professores se organizarem para lutarem para que a escola torne-se uma instituição que inspire e aspire conhecimento. O foco de tudo o que se faz dentro da escola deve ser o conhecimento. Há que se resistir às políticas educacionais que apontam em direção à descaracterização da escola e do trabalho do professor. Há que se rechaçar veementemente os discursos que secundarizam a transmissão do conhecimento pela escola. Há que defender o professor, o aluno e a instituição escolar dos ataques provenientes dos gabinetes dos defensores, declarados ou não, da ordem social capitalista.

A revista pergunta na sequência sobre a atuação de ONGs e movimentos sociais de sustentabilidade, ditos de esquerda.

A resposta é contundente. Vê estes movimentos camuflarem os reais problemas e motivos dos problemas e conduzem para soluções locais, que muitas vezes negam as lutas mais gerais. Muitas vezes recaem no discurso que privilegia o indivíduo e sua capacidade criativa.

Sobre o trabalho educativo o pesquisador apresenta sua tese de que se trata de um trabalho essencialmente emancipatório. Ainda que na sociedade capitalista apresente contradições com características alienantes (p. 135).

Neste ponto reforça sua tese contrária a muitos setores da esquerda, marxistas inclusive de que a escola e o trabalho educativo apresenta uma ameaça real e concreta a classe dominante.

Podemos inferir a veracidade desta tese nos pesados investimentos que a burguesia faz na educação pública para moldar e controlar suas estruturas e seu funcionamento. Este investimento pesado acontece de forma direta pelos governos burgueses ou por meio dos institutos empresariais. O expoente deste argumento que coloco aqui é a reforma do ensino médio que, encabeçada pelo governo federal, tem o apoio massivo de empresas através da Fundação Leman, Instituto Unibanco, Instituto Airton Senna etc.

Newton Duarte fecha a entrevista com o que entende ser a tarefa fundamental do professor:

A tarefa precípua dos professores é dominar e transmitir aos seus alunos o conhecimento científico, artístico e filosófico em suas formas mais desenvolvidas. Parafraseando Marx eu diria que na sociedade comunista ser professor deixará de ser um meio de vida e passará a ser a primeira necessidade vital de muitos indivíduos, ou seja, para esses indivíduos a transmissão do conhecimento será uma atividade de desenvolvimento de sua individualidade como uma individualidade para-si. Nós podemos e devemos começar a lutar nessa direção desde já.

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