Escola Politeia: outra educação é possível?

O ensino privado é uma aberração do capitalismo. Partindo dessa premissa posso dizer que quando ingressei na Escola Politeia, em 2010, tinha consciência disso e mesmo assim topei as contradições que ela poderia trazer. Por um lado uma necessidade imediata de emprego, pois estava retornando de 7 meses em Portugal num intercâmbio, e por outro por acreditar também que era possível fazer uma escola e uma educação diferente (notem uma certa ingenuidade da minha parte). Fora dos moldes tradicionais, fora da caixinha e da casinha. Ainda que particular, ainda que pequena, ainda que capaz de pagar muito pouco (fatídicos nove reais por hora) naquele momento.

Quem costuma ler meus textos sabe que não gosto nem um pouco de florear os problemas. Mas é importante explicar que mesmo parecendo duro em alguns trechos, trata-se da justeza da realidade, nada de relativização de discursos (pós-modernismo aqui não tem vez). Mais importante ainda é perceber que não é uma carta de difamação, é uma carta de rompimento, mas que poderá ajudar as pessoas a afastar encantamentos ingênuos e perceber a Politeia como uma escola real, mergulhada em contradições, com grandes avanços, mas também com enormes retrocessos.

A Politeia nasceu com uma ambição modesta comparada com as ambições que vieram depois. Não era muito mais que construir uma escola que tivesse uma educação diferente do tradicional, com olhar mais humano para as crianças, com grande foco no tempo de cada um e participação dos estudantes em algumas decisões pedagógicas. Vale a pena lembrar que nasceu de um racha da escola Lumiar. Outra cheia de contradições por se colocar no espectro das escolas democrática, mas com um dono que, em última instância, dava a palavra final.

No ano de 2011, depois da Politeia se separar de uma escola parceira, a Teia, recebi um convite para integrar a gestão da escola e topei o desafio por acreditar que minha participação naquele espaço e nas decisões que precisavam ser tomadas, seria no sentido de crescer e desenvolver a escola e a proposta pedagógica.

Logo no começo percebi que o trabalho na gestão era muito mais do que tomar decisões. Existia uma enorme carga histórica da fundação da escola, da qual não participei, e que foi ganhando corpo na divisão da gestão. Como seria a distribuição do poder neste espaço? Alguns acreditavam que o fato de terem fundado, mesmo não estando mais no dia a dia da escola, lhes conferia um direito maior. O argumento da responsabilização jurídica sempre pairou sobre nossas cabeças.

Esta foi talvez a primeira contradição que tive que encarar. Não sozinho, fiz sempre a defesa da igualdade nas decisões. Essa bandeira que levantei com mais um educador, só começou a se tornar concreta em 2014, mas nunca chegou as vias de fato.

Mas aí veio 2015 e com ele outro grande conflito dividiu a escola. Para não me alongar nos motivos do conflito posso dizer que envolvia um projeto que criei de desenvolver uma série de histórias ilustradas sobre o dia a dia da escola, ele se chocou com outras vontades e interesses e foi bruscamente interrompido, sob o pretexto de “conversar mais”. O projeto nunca aconteceu.

Em 2016 um novo conflito dividiu a escola e novamente estivemos as beiras de “abandonar o barco”. O leitor/a que veio até aqui deve estar se perguntando, por quantas contradições era preciso passar para perceber que seguir nesta escola era um caminho sem futuro? Só mais uma.

Muitos educadores passaram pela Politeia de 2008 até hoje. Cada um deve ter uma ideia de como contribuiu para o desenvolvimento desta proposta. Isso inclui um conteúdo material (criação de projetos, criação e desenvolvimento de dispositivos, novas famílias para a escola, etc) e um conteúdo imaterial que não podemos medir, mas que se trata de contribuições que as pessoas que passaram por lá deixaram no projeto da escola e nas crianças que lá estudam ou estudaram.

No meu caso não foi muito diferente. A componente imaterial não posso dizer muito, mas dentro das propostas concretas que consegui deixar para a escola, gosto de pensar que a regularização trabalhista dos educadores, as questões salariais e propostas de formação política mais objetivas (por exemplo o próprio princípio da escola “Formação política dos sujeitos”, que sugeri e ajudei a desenvolver em 2014).

Creio que minha principal contribuição foi tornar a escola Politeia uma escola mais politizada. Participando/apoiando greves e paralisações (ainda que particular), apoiadora de outros movimentos proletários, sem medo de debater com os estudantes e/ou a comunidade temas que são “carne de pescoço” na sociedade capitalista. Desde grupos de estudo críticos como Fome no mundo, Ditadura Militar, Feminismo, Anarquismo, Escravidão, Maconha, etc., até debates abertos como aquele sobre o centenário da Revolução Russa que fizemos ano passado. Uma consequência deste tipo de trabalho foi: uma denúncia da minha aula para o Escola Sem Partido, uma intimidação da polícia contra um educador que a criticou, um ataque de haters (mais de 1000 mensagens de ódio e ameaças) contra uma educadora que queria dar um curso de gênero.

Os conflitos que aconteceram em todo esse período e que resultaram no racha/demissão de uma parte da equipe neste momento, tem suas bases materiais numa questão de classe. Mas não poderia ser diferente, afinal é uma escola particular de perdizes (com muitas famílias pagantes, ou seja clientes) que tinha a intenção de formar politicamente os sujeitos para agirem na contramão do sistema capitalista. Uma escola que pretendia formar sujeitos críticos e pensantes pelo método da participação nas decisões e pela democracia direta. Mas se a democracia configura um perigo para algumas pessoas que não verão todas as suas propostas aprovadas pois são minoria, é o momento de uma guinada.

O conflito atual mostrou de forma transparente essa questão de classe. Trabalhadores foram atacados por algumas famílias e boa parte da gestão não fez a defesa imediata e incondicional que deveria ser feita.

Sei que questionamentos serão levantados sobre os termos que estou usando. Me lembro de certa vez receber gritos de mais de 100 decibéis por ter dito para uma pessoa que ela estava usando uma falácia como argumento. Agora chamo de ataque o que alguns chamam de “simples questionamentos”, “incômodos”, “indignação” etc. Não gosto de eufemismos e quando se trata de trabalhadores já muito explorados pelo sistema capitalista e pela crise econômica mundial, “simples questionamentos” não são menos que ataques disfarçados.

Nos últimos meses do primeiro semestre participamos de dois movimentos sociais simultâneos. A Greve dos caminhoneiros em que fomos obrigados a paralisar as atividades devido a situação excepcional na cidade e as paralisações dos professores da rede privada de ensino, que tiveram seus direitos trabalhistas ameaçados com o fim da convenção coletiva. As decisões de paralisar as atividades foram tomadas da forma mais coletiva possível, avaliando o contexto social a cada dia para tomar as decisões corretamente. Numa destas paralisações recebemos de algumas famílias o que estou chamando de ataques:

  1. Pouco esforço dos educadores em ir trabalhar;
  2. Negação de que a cidade estava em situação de exceção;
  3. Estávamos “usando” a greve dos caminhoneiros;
  4. Esforço para chegar nos atos não foi o mesmo que para cuidar das crianças;
  5. foram completamente irresponsáveis [os educadores] ao ponderar a situação apenas no ponto de vista deles”;
  6. “a empregada de casa tem vindo de […] para que eu possa ir para o trabalho” [então porque nós educadores não poderíamos ir trabalhar?];
  7. Isso gera um incômodo em como os educadores não fazem parte de fato da comunidade, ou pelo menos é a sensação que tenho. Se o conselho não é na hora de reunião pedagógica – hora paga – então eles não participam”.

Entre outras…

É claro que sempre poderá ser usado o argumento de que “as frases foram tiradas do contexto”, mas tenho dificuldade de imaginar em que contexto, qualquer uma dessas frases poderia significar outra coisa. Como justificativas recebemos: “É igual com um filho, se não to sendo ouvida eu grito” ou “eu estava triste, por isso falei aquelas coisas”.

Isso é bastante sintomático numa escola de classe média, afinal esta é a classe que tem historicamente suas reivindicações muito mais ligadas a questões de conforto/privilégios individuais do que coletivas ou de classe.

Diante de tudo isso os educadores (aqueles que não são da gestão) se organizaram e escreveram uma carta resposta. Uma espécie de “Basta” com luva de pelica que eu até achei delicada demais. Aqueles que escreveram a carta perguntaram se alguém mais queria assinar sem fazer modificações de conteúdo. Assinei na mesma hora. Os demais da gestão não assinaram (estão construindo o quebra cabeça aí?).

O mais importante na minha opinião é perceber que a carta foi apenas o estopim, a gota que transbordou a taça. As divergências são muito mais profundas, de princípios, de essência. Organizei essas divergências em cinco pontos:

  1. Forma de lidar com as famílias.
  2. Forma de lidar com as crianças.
  3. Postura patronal de algumas pessoas.
  4. Uso da história na escola para justificar posição, hierarquia ou privilégios.
  5. Formação político-ideológica.

Não vou detalhar cada um dos pontos de divergência. Mas algumas questões que ficam são: é possível uma gestão democrática de fato com divergências tão profundas? É possível uma formação crítica dos sujeitos quando tem gente que paga (e caro) e tem postura clientelista? Ou ainda, é possível uma proposta de decisões coletivas em que umas pessoas se sentem (e talvez sejam mesmo) mais donas do que outras?

Ainda como um último suspiro, fizemos (9 educadores/as de acordo) uma última proposta, voltar a estudar o formato de cooperativa e tornar a gestão horizontal nas decisões, buscando o consenso de maneira geral, mas votando nos momentos que não fosse possível. Era uma proposta de continuidade na escola, porém com processo decisório mais democrático. Nesta proposta todos os educadores participariam de todas as decisões.

A proposta foi negada pela atual gestão (4 educadores/as).

Talvez o medo de ser minoria, talvez a diluição da história, talvez a perda de controle, talvez a menor centralização, talvez a pouca confiança na equipe, são apenas hipóteses para esta negação.

Eu sempre precisei mudar muito de casa desde a infância. A casa que morei por mais tempo detém o mísero recorde de 6 anos. Na escola Politeia passei 8 anos e meio (e por alguns meses literalmente morando lá). Mas não é o espaço físico o que mais importa. Importante mesmo são as pessoas que conheci e marcaram minha vida definitivamente. Grandes amizades foram feitas e desfeitas. Deixo a Politeia com mais de uma hora de choro coletivo dos estudantes, abraços apertados e sinceridade (“mesmo as vezes dando bronca eu gosto muito de você”, escreveu uma pequena num bilhete). Me sinto bem em não sair sozinho, deixo a Politeia acompanhado de (pelo menos) 5 outros/as educadores/as. Deixo a Politeia com cartas de despedida dos estudantes e com 3 (!) mensagens de familiares que sentiram nesse racha uma grande perda.

Concluo com a sensação de que a cortina fechou quando já não tinha mais ninguém na plateia e sobrou apenas aquele silêncio constrangedor que toma todo o ambiente. Sobrou apenas o vazio deixado pela diminuição das contradições e hipocrisias da vida. Esse é um dos poucos vazios que nos fazem bem.

“Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.”

– F. Pessoa

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