Indutivismo e Falsificacionismo – Parte I

Estes apontamentos foram desenvolvidos na leitura do livro de Karl Popper – A Lógica da Pesquisa Científica e do Alan F. Chalmers – O que é Ciência Afinal?, nestes livros eles se propõem a analisar, como diz os títulos, a lógica das ciências, particularmente das ciências ditas, empíricas. Nestes apontamentos escreveremos sobre e comentaremos apenas o primeiro capítulo do livro do Popper e os 5 primeiros do Chalmers.

Se olharmos a volta na sociedade perceberemos um sutil paradoxo, embora muitas pessoas sejam, vamos chamar assim, anti-ciência, seja por um trauma escolar, seja por achar que ela só traz malefícios para a sociedade, temos em detrimento a essas posturas a mesma ciência tomada em alta conta por muitas pessoas e mesmo pelas grandes mídias. Isso é facilmente observado quando muitas marcas de produtos fazem seus anúncios referenciando o método científico utilizado e dizendo que aquele produto é cientificamente mais eficiente, mais qualificado que o os concorrentes. É comum ouvirmos a frase: “Está cientificamente provado!”. Isso tudo dá um juízo de valor, confere uma autoridade a ciência. Mas de onde vem essa autoridade? Que ciência é essa com todo esse poder? O que a faz “melhor” que aqueles que são chamados pejorativamente de pseudociências? A ciência que está neste senso comum é confundida com Um método científico, nomeadamente, o método indutivo.

A indução como método científico pode confundir-se com a própria lógica científica. Ela parte de enunciado singulares ou particulares que são, por exemplo, as observações, para enunciados universais, nomeadamente teorias. Para Popper não é nada óbvio que se possa seguir tão facilmente esse caminho, ou seja, não importa quantos gatos pretos nós observamos (enunciados singulares) não podemos afirmar que Todos os gatos são pretos (enunciado universal).

Nesta postura indutivista o conhecimento científico e caracterizado por um conhecimento provado, indiscutível baseado em fatos. Nesta abordagem não existe espaço para o subjetivo e a objetividade da ciência é óbvia. Essa concepção de ciência apesar de ter sua origem nos círculos científicos do século 17 prevalece ainda hoje no senso comum.

De acordo com aquele que Chalmers chama de indutivista ingênuo a Ciência começa com a observação, a observação fornece uma base segura para o conhecimento e as teorias são propostas através da acumulação de dados observacionais (quantos?) seguidos de indução. Em seu livro o autor usa quase um capítulo para refutar cada uma dessas proposições, aqui apenas adianto que a primeira não é verdadeira pois, para que haja observação o observador carrega sempre alguma teoria sobre o fenômeno que será observado, sem a qual as variáveis se tornariam infinitas. A segunda também não é verdadeira pois a observação não é uma base segura onde podemos construir o conhecimento, tampouco a terceira proposição é válida como dissemos anteriormente que não é possível fazer afirmações universais a partir de dados particulares.

O problema da indução então consiste em saber se este método é justificável e como.

É comum em nosso dia-a-dia acreditarmos em certas verdades científicas por elas se basearem na experiência. Sem uma análise mais crítica isso parece até óbvio. Contudo essa “experiência” não passa, normalmente, de um enunciado particular, singular. A generalização é uma extrapolação. Acreditar na verdade desta extrapolação é acreditar na verdade do método indutivo.

Para justificar este método seria necessário a existência de um princípio de indução ou o uso da lógica dedutiva. Os adeptos dos métodos indutivos vão afirmar que este princípio é essencial para a ciência e que é aceito pela totalidade das pessoas que fazem ciências. Para Popper mesmo que isso fosse verdade – e a totalidade poderia estar errada – para provar a autenticidade de um princípio de indução seria necessário recorrer ao um método indutivo de grau superior que por sua vez precisaria de outro de grau ainda mais elevado e assim por diante, levando a proposta à uma regressão infinita, quero dizer, o método indutivo funcionou neste caso, funcionou naquele caso, funcionou naquele outro, conclusão o método indutivo funciona sempre. Isso já foi mostrado como um argumento injustificável desde o século 18 por David Hume.

Usando a lógica dedutiva torna-se também impossível justificar a indução. Para que a conclusão de um argumento seja logicamente válido ele deve possuir premissas verdadeiras. Com a indução é possível que exista uma conclusão falsa mesmo com premissas verdadeiras. Exemplo: Posso observar diversos gatos e perceber que todos os gatos que observei, em diversos lugares e em momentos diversos, são pretos. Logo concluo, todos os gatos são pretos. Mas não existe suporte lógico para essa conclusão, ou seja, eu não tenho garantias que o próximo gato que eu observar não será verde-limão. Chalmers nos apresenta um exemplo mais divertido sobre esse ponto, o caso do Peru Indutivista, apresentado por B. Russell. Um certo peru percebeu que normalmente era alimentado pelo seu dono as 9 da manhã, mas como ele era um bom indutivista ele esperou para recolher um grande numero de dados para tirar conclusões, e assim foi, durante todo o ano ele recolheu dados e sempre era alimentado as 9 da manhã, concluiu então: Eu sou alimentado as 9 da manhã! Chegada a véspera de natal ao invés de ser alimentado ele foi degolado! A conclusão dele era falsa mesmo que suas premissas fossem verdadeiras.

Uma tentativa de burlar o raciocínio que apresentamos aqui veio por Kant ao dizer que o método indutivo é válido a priori o que acabaria com os problemas da regressão infinita. Popper rejeita essa proposta.

Esta primeira parte mostrou que uma justificativa para o método indutivo é uma tarefa bastante difícil para não dizer impossível.

Referências

CHALMERS, Alan F., O que é Ciência Afinal? Editora Brasiliense. 1993.

POPPER, Karl, A Lógica da Pesquisa Científica. Editora Cultrix. 1972

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4 comentários

  1. Excelente artigo, Osvaldo. Eu escrevi sobre indutivismo no meu blog também, tempos atrás, baseado no mesmíssimo livro do Chalmers. Este livro, aliás, é leitura fundamental para qualquer pessoa que se interesse por ciência. Um outro que me parece muito interessante é a compilação dos artigos do Marcelo Leite: “Ciência, use com cuidado”.
    Abraços!
    Alexey.

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